Por: Alessandro
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imagem de: smilejustbcuz.deviantart.com |
Chesterton certa vez disse que não existem assuntos que não sejam interessantes, apenas pessoas que não se interessam. Tendo a concordar com ele. Penso, no entanto, que nem todos conseguem perceber o fascínio das diversas coisas de maneira imediata. A maioria de nós precisa de alguém que nos cante o caminho das pedras. Este é um dos motivos que torna o conversar tão interessante. Como é bom encontrar alguém que mostre um reino encantado que até então não tínhamos percebido.
Lembro de um papo recente no qual
ouvi um colega que trabalha com animação. Aprendi detalhes sobre a construção
de desenho animado para os quais nunca tinha atentado. Claro que eu poderia ter
chegado ao mesmo conhecimento com uma rápida pesquisa, no entanto, aquela conversa fez.
mais do que meramente
transmitir um conteúdo, ela despertou em mim interesse. Uma centelha da
fogueira de meu companheiro foi comunicada a mim e mesmo que eu nunca vá ser um
apaixonado pelo ofício de animador, saí enriquecido do diálogo.
O mundo é sempre maior do que
nossas percepções, gostos e opiniões. Sempre. A cada dia julgo mais acertada a
famosa frase de Shakespeare que diz que “há
mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”. O mundo é
amplo, somos nós que o experimentamos de maneira limitada. Claro que isso, em
grande parte, ocorre porque nós somos limitados e podemos dar apenas um passo
de cada vez. No entanto, infelizmente, é possível encontrar muitas pessoas que
escolhem não explorar e não conhecer.
Escolhe permanecer no lugar,
aquele que não consegue abrir-se ao outro e ao mundo. Claro que nem todos
gostarão das mesmas coisas, mas não é incomum encontrar aqueles que vivem a
velha filosofia do “não li e não gostei”, ou seja, que nunca se abrem a algo
que está além de seus gostos e preconceitos. Vou dar um exemplo pessoal: em um
domingo desses ao fim de uma missa, um senhor avisou que uma vez por mês
oferecia gratuitamente um concerto de música medieval e renascentista. Pelo que
pude perceber boa parte das pessoas que lá estavam não ligou muito para o aviso.
Na hora falei com minha esposa: Caramba, temos que ir nisso aí! Não que eu seja
um grande fã de música renascentista ou conheça os meandros da musicalidade
medieval; para falar a verdade não sei nada do assunto e justamente por isso
fiquei com vontade de ir ao tal concerto.
Como tantas vezes já disse aqui
no blog, sou professor. E uma das coisas mais interessantes da minha profissão
é a possibilidade de ter contato com um amplo espectro de pessoas. Na
universidade, as turmas mudam a cada semestre, nos Ensino Médio e Fundamental a
cada ano. Um professor que seja minimamente aberto aos alunos, sempre está
diante de uma mina de maravilhas. Quanto já aprendi com aqueles a quem devo
ensinar! Aprendi sobre balé, sobre os
procedimentos da polícia federal, sobre o mercado de games, sobre podcasts,
sobre literatura, sobre cinema, sobre a vida. Alguns deles me falaram de coisas
sobre as quais eu nunca havia pensado e até hoje não teria pensado não fosse
por eles.
Escrevo tudo isso para dizer:
abra-se! Escute! Veja! Permita-se maravilhar-se! Todos vivemos em um mundinho
pequeno. Quem diz que não, engana-se a si mesmo. Admitir isso é fundamental
para que os horizontes sejam ampliados. O encontro com o outro é uma
possibilidade de ampliar nosso mundinho,
mas isso só ocorre quando não desejamos reduzir a nós mesmos todos aqueles com
quem convivemos; só acontece quando permitimos que eles nos acrescentem algo.
Para aqueles que aceitam fazer um
texto sobre o quanto estão dispostos abrir seus horizontes, proponho uma
reflexão sobre as seguintes questões:
Qual a minha reação quando alguém
começa a falar de um assunto que não conheço?
Quanto tempo gasto com leitura?
Leio apenas o que está na moda? Digo que um livro é chato antes de lê-lo?
Em relação aos filmes, assisto
apenas a filmes de ação e comédias românticas (nada contra), ou me abro a
outros estilos?
Quando alguém discorda de mim,
ouço com atenção ou fico revoltado?
Tenho a tendência de desprezar
algo sem nem ao menos saber direito o que é?
Como é meu uso da internet? É
interessante ou apenas para matar tempo?
Não sei como foram suas repostas.
Sei como são as minhas. Sei também que muitos não são melhores simplesmente
porque escolheram não estender o próprio mundo. Penso que isso é fruto de uma
soberba, afinal somente tem complexo de grandeza quem escolhe viver em um mundo
minúsculo. A humildade, nesse sentido, é a raiz da verdadeira grandeza, na
medida em que ela constantemente lembra que não nos bastamos, que o outro
importa e que há grandes aventuras a viver.
Peço que o leitor não me
interprete mal e julgue que estou dizendo para que se meta de cabeça em
qualquer situação que vier pela frente. Não é preciso lançar-se ao fogo para
saber que ele queima. Aqui, mais uma vez cabe a confiança no testemunho de
pessoas confiáveis e no bom senso adquirido durante a vida. Nestas situações, cabe lembrar que a
verdadeira liberdade quando limita, abre horizontes. Experiências que
simplesmente nos escravizam não valem a pena. Lembro frequentemente de uma
conversa que tive com um rapaz no ônibus anos trás. A namorada dele havia
começado a usar drogas e eu perguntei como ele se posicionava frente ao assunto.
Ele respondeu: não uso porque não gosto de nada que me impeça de ser livre.
Minhas decisões devem ser minhas.
Antes de encerrar quero ainda
tocar em um ponto: se os outros ampliam nosso mundo, nós também podemos fazer
isso por eles. Que não guardemos nossas riquezas, mas partilhemos aquilo que
nos importa. Ama algo que poucos conhecem? Mostre a muitos o quanto isso é
amável. Leu ou viu algo interessante? Não fique com isso apenas para si.
Comunique. Ouviu a Boa Nova? Espalhe! Isso, é claro, não pode implicar em
arrogância ou chatice, mas ficar fechado em si significa empobrecer aqueles que
estão ao nosso redor.
Chesterton estava certo. Não há
assuntos desinteressantes. Não há falta de maravilhas. Apenas pessoas
desinteressadas e que perderam a capacidade de maravilhar-se. O encanto está lá
e aqui. Cabe limparmos os olhos e nos lançarmos a alegria do assombro. O mundo
andará de qualquer jeito, avançará. Seu rumo, no entanto, será muito diferente
caso seja guiado por pessoas que percebem que ele é um milagre. Aqueles que
julgam que tudo é cinza dificilmente poderão contribuir com uma nova cor.
Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores
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