Ao começar, quero deixar claro que este é o texto mais difícil que já escrevi para este ou qualquer outro blog. A dificuldade não vem da falta de conhecimento do tema ou de algum bloqueio criativo... Escrever este texto é difícil porque falarei de um espaço que julgo sagrado, de tropeços que normalmente deixamos “debaixo dos panos”. Falarei daqueles que julgo os vícios do catolicismo brasileiro.

Tornei-me católico há quatorze anos, amo essa Igreja de uma forma muito profunda. Gasto boa parte de meu tempo livre pensando sobre a experiência cristã e a apresentando a outros. Defendi e respondi dúvidas sobre a Igreja mais vezes que consigo lembrar. Peço que levem em consideração o fato de que neste texto apontarei defeitos em minha própria família. Nunca é fácil fazer isso de forma pública...
Não gostaria de escrever estas palavras, mas julgo necessário. Escrevi dois textos falando sobre como a opinião dos religiosos é taxada de irracional e sobre a experiência de ser minoria. Nesses textos, como católico, critiquei algumas posturas de não católicos e chamei a atenção para nossa situação no Brasil atual.  As palavras que venho dizer agora mudam o foco. Busco fazer uma análise de nossos erros, afinal, crítica sem autocrítica é hipocrisia.
Para começar quero ceder a palavra  a Sérgio Buarque de Holanda. O pai do famoso cantor de MPB escreveu um livro genial, que releio vez por outra, chamado Raízes do Brasil. No capítulo quinto de tal livro, Sérgio Buarque diz o seguinte, ao falar sobre o catolicismo no Brasil:
A uma religiosidade de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e á pompa exterior, quase carnal em seu apego ao concreto e em sua rancorosa incompreensão de toda verdadeira espiritualidade; transigente, por isso mesmo que pronta a acordos, ninguém pediria, certamente, que se elevasse a produzir qualquer moral social poderosa. Religiosidade que se perdia e se confundia num mundo sem forma e que, por isso mesmo, não tinha forças para lhe impor sua ordem. Assim, nenhuma elaboração política seria possível senão fora dela, fora de um culto que só apelava para os sentidos e quase nunca para a razão e a vontade. Não admira pois, que nossa república tenha sido feita pelos positivistas, ou agnósticos, e nossa independência fosse obra de maçons”.
Até onde sei, Sérgio Buarque não foi católico. Apesar disso entendeu muito bem o drama que vivemos. Temos que concordar com sua análise quando ele diz que, em boa parte dos grandes acontecimentos de nossa história, os católicos estiveram à margem, assistindo bestializados ao andar da história, talvez reclamando nas sacristias que o mundo estava perdido.
É interessante perceber que o grande escritor aponta o motivo de tal ausência: uma vivência da exterior da religião, puramente sentimental, que não forma mentalidade. É interessante e triste pensar que parte da atuação dos católicos na arena pública brasileira ocorreu movida por ideologias como o marxismo e não brotou de um olhar sobre o mundo pautado pela tradição cristã.
Augusto Comte, famoso pensador ateu, fundou uma religião no fim da vida. Uma religião ateia, talvez um arremedo de religião, mas ainda assim uma tentativa. O motivo pelo qual Comte fez isso foi porque, julgava ele, a religião é a única instituição que fala ao homem inteiro. Em sua teoria sobre o homem, o fundador do positivismo diz que este era composto por três dimensões: cabeça, coração e mãos. Ou em outras palavras, inteligência, sentimento e ação.
No catolicismo brasileiro percebemos um coração grande, e bons sentimentos permeiam boa parte da atuação em nossas paróquias. É interessante ver que essa ênfase no sentimento e na intimidade está presente em todas as esferas de nossas vidas e ganha na religião uma expressão bem acentuada.
Os sentimentos infelizmente não são acompanhados de um conhecimento da própria fé. Não estou propondo que todos os católicos sejam intelectuais. Deus me livre! Isto não é possível, nem desejável. Chamo a atenção sobre o fato de que falta a formação básica. Certa vez em uma paróquia perguntei quem achava que Jesus é Deus. Metade dos presentes levantou a mão. Depois perguntei quem achava que ele é homem. A outra metade se manifestou... Ninguém levantou a mão duas vezes. E olha que essa crença é um dos pilares da fé cristã.
Falta-nos também uma tradução concreta de nossa fé em obras. Não quero cair em um discurso de exortação moral, mas é um fato notório que a maior parte dos católicos não se distingue em nada daqueles que não creem no Cristo. Agem e pensam da mesma maneira. A ação individual de boa parte de nós (talvez a minha) não traz a marca de uma identidade... Sobre a atitude coletiva é melhor nem falar nada.
Para usar a metáfora de Comte, posso dizer que em nosso catolicismo sobra coração, mas faltam cabeça e mãos. Sentimos muito, pensamos e agimos pouco. De nada vale um corpo ter um coração grande, se for decapitado. Pouco vale o coração se o sangue escapa pelos pulsos cortados.
Reparo existir hoje certos discursos que, ao comparar o declínio numérico do catolicismo com o aumento dos protestantes, age como se tivéssemos que imitá-los. Esse é outro erro. Não nego que nossos irmãos reformados tenham grande virtudes e que possam nos ensinar muitas coisas, mas vejo em muitas comunidades novas formas para os mesmos erros que foram nossos. Vejo também certas atitudes errôneas em lideranças de outras denominações que espero não sejam espelhadas em nós.

Sei que há muito mais para falar, mas acredito que multiplicar as palavras na era digital pode ser uma excelente estratégia para não ser lido. Quero dizer apenas mais duas coisas. A primeira é que há coisas boas em nosso catolicismo verde e amarelo. Cada nação que se torna cristã contribui para a confecção do vestido multicolor da Igreja. Acrescentamos algo, mas podemos acrescentar mais. Podemos também aprender... Não devemos nos fechar em nosso mundinho. Afinal, como dizia Chesterton, os piores vícios são virtudes que enlouqueceram.


O segundo ponto que quero ressaltar é que a fé cristã é a maior proposta que este mundo já viu. Uma proposta tão maravilhosa que, às vezes, nem parece ser verdade. Mas é... Essa proposta, no entanto, se torna viva quando toma nossas vidas. E ao tomar nossas vidas é concretizada de formas específicas. Ser cristão, apesar disso, não nos priva de falhar. A graça nos diviniza, mas não nos blinda. Acontece então que nossas mazelas se misturam com aquela proposta linda. O cristianismo é vivido por homens imperfeitos, por povos imperfeitos, mas nem por isso é menos divino. Talvez seja justamente o contrário...


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia

Fundador da Oficina de Valores

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!!!

Roberto Wagner Lima Nogueira disse...

"mas acredito que multiplicar as palavras na era digital pode ser uma excelente estratégia para não ser lido". Li e gostei!

Anderson Pereira Dideco disse...

Multiplicar palavras na era digital só será estratégia para não ser lido qdo as palavras não tiverem nada a dizer. ESTE NÃO É O CASO. Ou, em última análise, qdo os que não lêem é pq se encontram - como o txt aponta - previamente decapitados (ou deveria dizer "anencéfalos"?). Estes, porém, não leriam nem os curtos. Parabéns, amigo Alessandro. Continue brindando-nos com a tua inteligência, pra nos salvar deste naufrágio de futilidades cibernéticas. Abç do Anderson.

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