Por: Binho


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Eu fiquei assustado ontem (11/04/2012), com o julgamento realizado no STF; não só pelo julgamento em si, mas por tudo que ele trouxe a tona. É evidente que ninguém quer que a mãe sofra, mas também tem que ser evidente que a morte de um ser humano que tem vida não pode ser a resposta para amenizar a dor da mãe. É claro que as mulheres tem que
ter todos os seus direitos garantidos, assim como qualquer pessoa, mas o que esta em discussão não é o direito da mulher, e sim o da criança que tem uma má formação. Um dos ministros disse claramente que juridicamente o anencéfalo não é pessoa e por isso não pode gozar da proteção do estado. Ora, juridicamente pode não ser considerado pessoa, mas será que só porque uma lei ou seja lá o que for disser que um ser humano não é pessoa ele deixa de ser um ser humano? Aliás, o que é ser um ser humano?

Eu sou biólogo, e no meu entendimento, a partir da fusão do pro núcleo do gameta feminino com o pro núcleo do gameta masculino temos ali uma vida, e não é uma vida em potencial, é vida porque não está estacionária, não está à espera. Lembramos aqui o conceito de energia potencial, que é aquela que está parada, armazenada, e que em algum momento será liberada e se transformará em energia cinética, ou seja, de movimento. O zigoto não é uma fase potencial da vida, é a vida em movimento. Começa no zigoto e transcorrido o caminho natural, termina com uma falência múltipla de órgãos na velhice. Não consigo ver como podem querer distinguir um momento onde se pode definir  “Ah! A partir daqui é ser humano, antes disso não é nada a não ser células em desenvolvimento, ou um aglomerado de células”. O sentido que querem dar ao termo aglomerado de células me parece bastante deturpado e não encontra sustentação nem na própria embriologia. Aglomerado não significa de maneira alguma que não seja organizado. Aliás, desde a primeira clivagem do zigoto, já podemos definir muitas coisas. Estudos recentes que citarei abaixo comprovam o que acabo de dizer, vejam:
“Assim, por exemplo, no embrião de duas células já é possível predizer qual célula irá contribuir em maior proporção para a futura região do blastocisto, incluindo a sua cavidade e qual aquela que dará origem ao embrião propriamente dito ao nível da chamada massa celular interna (PIOTROWSKA e col., 2001). Também foi demonstrado que a primeira clivagem do zigoto contribui para a quebra da simetria do embrião gerando blastômeros com diferentes características de desenvolvimento (PLUSA e col., 2005). Mais recentemente, tem sido proposto que as células precursoras do trofoectoderma, que gerará a futura placenta, são separadas das células pluripotentes que gerarão o embrião em si desde o primeiro momento (MORRIS e col., 2010). Também, as células do endoderma primitivo, desde antes da implantação uterina, são temporal e especialmente distintas dos epiblastos pluripotentes que darão origem ao embrião propriamente dito. Neste contexto, têm sido cada vez mais revelados complexos mecanismos envolvendo fatores de transcrição, fatores polarizadores e cascatas sinalizadoras (BRUCE E ZERNICKA– GOETZ, 2010).”  Texto retirado de: Anencefalia – revisão. Dr. Rodolfo Acatauassu Nunes
Pelo que se percebe dos estudos recentes, desde a fecundação, o que acontece é o desenvolvimento da vida, é vida, está acontecendo, esta sendo vivida! O que me assusta em toda essa discussão é que não consideram a criança portadora de anencefalia como um ser vivente, chegando ao absurdo de dizer natimorto. Ora, é fato, e até mesmo os que são a favor de tal prática abortiva o disseram, que a sobrevida de tais crianças é curta, e na maioria dos casos é de algumas horas. Na minha opinião, um bebê natimorto não deveria ter sobrevida nem de um segundo, deveria estar morto antes mesmo de nascer. Se nasce vivo e morre depois, não é natimorto, todos nós nascemos vivos e morremos depois, alguns 100 anos depois, outros dois minutos depois. Qual é o valor de um segundo vivido? Podemos mensurar isso?
É claro que existem outras questões como a parte psíquica da mãe que não devem ser ignoradas, e ela precisa e deve contar com toda a assistência que puder, o que não podemos é legalizar o assassinato de uma vida humana, ainda que seja deficiente, como terapia. O que defendo não é que as mulheres não tenham direito, o que defendo é que a vida humana, independente do estágio em que se encontre, seja embrião ou velho, seja normal ou deficiente em qualquer nível, seja saudável ou não, deve ser preservada a qualquer custo. Ninguém pode definir se alguém é digno ou não de viver. Ninguém tem o direito de me dizer se a minha vida vale ou não vale a pena de ser vivida, assim como eu não tenho o direito de dizer a ninguém que a vida dele vale ou não a pensa ser vivida, não é uma decisão que cabe a mim.

A criança que a mãe gera é uma vida humana, não é vida em potencial, e é tão vivida que  desde o começo da fecundação é vida em movimento, vida acontecendo, e não pertence a mãe em momento algum. Tanto é verdade que se formos ver a fisiologia do desenvolvimento uterino, o embrião desde o começo é escondido do sistema imune da mãe, porque do contrário, o sistema imune da mãe não o reconhecerá como pertencente ao corpo. O próprio corpo não reconhece o embrião ali formado como parte de si, como é que alguém pode dizer o contrário? Se não fossem todos os mecanismos de defesa do embrião que chega a silenciar momentaneamente algumas defesas imunológicas, o embrião seria tratado como um vírus ou bactéria ou qualquer outro material não próprio do corpo e seria eliminado. O útero é um local no qual o embrião está protegido desse fim. A vida desde o começo, não pertence a mãe. Então ela, a mãe, não tem o direito de dizer se ela, a vida, vale ou não a pena ser vivida. Ainda que seja por alguns miseros segundos, nem eu, nem você, nem a mãe e nem ninguém pode dizer que essa vida não vale a pena. Afinal, quanto vale um segundo da sua vida?


PIOTROWSKA, K.; WIANNY, F.; PEDERSEN, R.A.; ZERNICKA-GOETZ, M. Blastomeres arising from the first cleavage division have distinguishable fates in normal mouse development. Development. 128(19):3739-48, 2001.
PLUSA, B. et al. The first cleavage of the mouse zygote predicts the blastocyst axis. Nature. 434(7031):391-5, 2005.

MORRIS, S.A.; TEO, R.T.; LI, H.; ROBSON, P.; GLOVER, D.M.; ZERNICKA- GOETZ, M. Origin and formation of the first two distinct cell types of the inner cell mass in the mouse embryo. Proc Natl Acad Sci U S A. 107(14):6364-9, 2010.
BRUCE, A.W.E.; ZERNICKA-GOETZ, M. Developmental control of the early mammalian embryo: competition among heterogeneous cells that biases cell fate. Curr Opin Genet Dev. 20(5):485-91, 2010.



Cleber Nunes Kraus
Biólogo - Oficina de Valores

2 comentários:

Heloisa Woll disse...

Muito bom o texto, parabéns Binho!
Infelizmente, hoje 'perdemos a batalha', mas como lembrou o Diego Gonzalez numa das discussões que nos inserimos, nessa hora não podemos desanimar nem perder a esperança, pois "o mundo precisa de professores, médicos, engenheiros, jornalista (ou futuros) que mantenham os valores humanos na sociedade e lutem pra que eles permaneçam. Foram nas grandes crises que surgiram os grandes homens, e com eles as grandes mudanças na sociedade"
Abraço

Binho Kraus disse...

Obrigado Heloisa. É triste perceber que eles constroem uma argumentação em cima de uma mentira. Se o feto anencéfalo não é uma pessoa humana, eu quero que eles me digam o que é?! Se não for um humano deficiente sem a maior porção do encéfalo, me digam, por favor o que é? Porque se não puderem fazer isso, nada justifica o assassinato de outro ser humano. NADA!!! Como bem disse o Ministro Peluso.

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