Estive conversando com o Alessandro Garcia, coordenador da Oficina de Valores, e ele pediu para eu escrever um texto para o blog. Como eu tenho um trabalho com dependentes químicos ele sugeriu que eu escrevesse alguma coisa sobre drogas, mas tive uma ideia interessante e gostaria de compartilhá-la com vocês.

Recentemente recebi uma promoção no meu trabalho e precisei ficar duas semanas fazendo um treinamento em São Paulo longe da minha digníssima esposa e do meu filho de 2 aninhos, o Pedrinho. Todas as noites, sozinho em meu quarto, eu pegava as fotos e vídeos do meu filho e por diversas vezes chorei copiosamente de saudade. Batia em mim um sentimento de vazio que há muito tempo eu não sentia. Cheguei a postar no facebook, na última semana de curso, algo muito comum de se ver, postei a seguinte frase: “Chega logo sexta-feira!”

A distância entre eu e minha família gerava em mim um tremendo conflito de valores: por um lado eu sabia da importância que seria completar com empenho e dedicação o treinamento, mas ao mesmo tempo batia em mim um desejo de que tudo terminasse logo. No fundo o que eu mais queria era estar ao lado das pessoas que eu mais amo, mesmo sabendo que tudo que eu estava passando seria para o bem deles.

Depois de postar a frase, pensei sobre o porquê de tantas pessoas desejaram a sexta-feira e postarem com frequência em sites de relacionamento o “Chega Logo sexta-feira’, ou frases semelhantes a essas, daí o tema deste texto: quando a vida se torna um deserto. A ideia de deserto que eu trago para o blog é a mesma ideia de ausência; observem que a saudade que eu sentia gerava em mim um vazio e esse sentimento ocasionou um desejo de algo que eu só poderia ter na sexta-feira à noite, dia que eu iria reencontrar minha esposa e meu filho.

Passar por momentos semelhantes ao que eu passei é até comum, mas fazer da vida uma constante busca pelos finais de semana, (mesmo que seja bom o que lá encontraremos) é correr um grande risco de viver de forma fútil e vazia os dias que poderiam mudar tanto o nosso futuro quanto o das pessoas que nos amam...

Eu tive a oportunidade de participar de muitas palestras da equipe Oficina de Valores nas escolas, sobretudo as do Alessandro Garcia, meu grande companheiro de missão. Observei em muitas palestras alguns jovens concordando quando o Alessandro falava que muitos deles chegam na segunda-feira já desejando a sexta-feira. Ele dizia: “Segunda e terça-feira comentam o final de semana passado para quarta, quinta e sexta-feira planejarem o próximo”.

É óbvio que um jovem que se empenha nos estudos tem uma chance maior de passar em uma universidade federal ou num concurso público do que os estudantes que “empurram com a barriga” as tarefas escolares. Assim como um trabalhador que se empenha e trata de forma diferente o relacionamento interpessoal no âmbito empresarial tem maiores chances de uma ascensão profissional.

Eu poderia citar muitos exemplos de situações que oferecem o final de semana como se fosse um oásis. Eu mesmo busquei por diversas vezes me livrar dos dias que seriam de “obrigação” desejando ansiosamente a sexta-feira. Lembro de uma música que tocava no final de um programa do Silvio Santos que mexia muito comigo, eu sabia que meu domingo estava acabando e que no dia seguinte tudo começaria novamente. Essa música seria hoje como se fosse o Zeca Camargo encerrando o Fantástico ou a Banda Viva a Noite encerrando o programa Pânico na TV, quem passa ou passou por essa experiência compreende o que é uma angústia.

Mas há também quem mora em cidades grandes como o Rio de Janeiro ou São Paulo, eles não tem a desculpa de aguardar ansiosamente a sexta-feira, pois parece que nessas cidades a história do “Todo mundo espera alguma coisa, num sábado à noite” não tem vez; basta esperar a noite que sempre terá algum lugar pra saciar a sede do dia-a-dia. Parece que é tudo um carnaval, mas é bom lembrar que um dia a quarta-feira de cinzas tem que chegar fazendo todas as máscaras caírem.

Enfim, ninguém se contenta com o vazio, passar por essa experiência sem ter algo para preencher este espaço é um grande passo pra um fim trágico. Contudo, é muito diferente saciar a sede com água potável do que com água não potável, a segunda pode ocasionar problemas futuros, assim como acontece com quem escolhe viver de forma irresponsável.

O músico Gabriel o Pensador tem uma frase interessante em uma de suas músicas, ele diz: “Pra quem sabe olhar pra traz nenhuma rua é sem saída”. Escolher viver de forma diferente as situações do cotidiano e tentar mudar as realidades que nos cercam já é um grande passo para melhor saborear a vida. Entender que cada dia é um presente que Deus nos dá, e poder doar-se com um de nossos dons, uma generosidade ou um gesto de caridade às pessoas que nos cercam é um bom passo pra quem deseja, de fato, viver a vida sem fazer dela um deserto.
Julio Tavares
Bancário
Fundador da Oficina de Valores

5 comentários:

M.Levi disse...

Texto muito maravilhoso, acabei de comentar com os alunos e como parte da avaliação eles terao q dar uma lida nessa dose cavalar de realidade rsrs !!! Fez um bem danado pra mim!!! Penso q é ruim demais acordar na segunda e pensar na sexta, a vida moderna traz outros problemas mais reais d q aqueles q vamos criando, passamos a maior parte da nossa vida no trabalho ou fazemos algo prazeroso e nem de longe precisa ser o tempo todo ou viveremos na angustia do fim de semana...ahhh pra quem é professor isso nem salva tanto hehehe o fim de semana acaba sendo reservado pra trabalho tb!!!!

LucasBF disse...

Hey, eu sou um dos alunos de que o Levi falou. Gostei MT mesmo do texto, ainda mais pra nós que somos alunos, fora agnt do seminário que estuda até sábado, a sexta feira normalmente é o ápice da semana e por isso muitas vezes deixamos de aproveitar o que cada dia da semana pode nos trazer de bom, por um dia que, às vezes, é bom.

Alessandro Garcia disse...

Muito bom texto Júlio. e foi só o primeiro...Estou no aguardo so próximos.

Elias Jr Cescon disse...

Mandou muito bem Júlio!!

Clovis disse...

Bom para meditar Julio, muito bom. Temos que viver todos os dias intensamente pois é o presente, presente de Deus e sentimos muito isso quando não estamos perto daqueles a quem mais queremos, daqueles que mais amamos, nossa família. Veja que passamos mais tempo no trabalho durante a semana, mas, nesses dias, as poucas horas que desfrutamos da companhia deles como nos preenche e como sentimos, a ponto de chorar, quando isso não acontece.

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