Por: Alessandro
 

“O sociólogo francês Olivier Bobineau, especialista em religiões no Instituto de Ciências Políticas de Paris, define a renúncia do Papa Bento XVI como um ato de impotência face a uma profunda e crescente crise da Igreja Católica nas sociedades modernas, e exclui razões de saúde para sua demissão.”

O trecho acima faz parte de uma introdução a uma entrevista publicada no jornal O Globo no dia 24/02/2013.

Trechos muito parecidos com o este têm aparecido nos jornais praticamente todos os dias desde o último 11 de fevereiro, data em que Bento XVI anunciou a sua renúncia. Quando lemos tais declarações parece que o fim da Igreja Católica está próximo, que a Barca de Pedro finalmente vai afundar. 

Talvez, diante de tanta repetição, o leitor já tenha parado para perguntar: mas afinal, em que realmente consiste essa crise tão falada? Na verdade, várias respostas são dadas a essa questão, mas elas podem ser resumidas em alguns pontos:

1 – Graves escândalos morais por parte do clero.

2 – Distanciamento da Igreja de alguns dos valores vividos na contemporaneidade.

3 – Queda no número de fiéis.

Muito poderia ser dito sobre cada um dos elementos apontados, e, é claro, há verdades presentes nesse diagnóstico. No entanto, há outros aspectos a serem considerados. Qualquer pessoa de bom senso sabe que dar atenção apenas a algumas partes e desconsiderar o todo gera análises enviesadas que mais atrapalham que ajudam. Peguemos um pequeno exemplo: é possível um país ter dados maravilhosos em relação ao crescimento econômico e índices de criminalidade alarmantes. Quando se conhece apenas a primeira informação é fácil crer que vai tudo muito bem; quando se sabe apenas da segunda, não é difícil desesperar-se porque tudo vai muito mal.

Vejamos algumas informações importantes para pensar melhor a tão falada crise. Muitos não sabem, mas o Vaticano publica um anuário com dados estatísticos sobre a Igreja no mundo. Vejamos alguns destes dados. Segundo o anuário de 2012, o número de católicos cresce no mundo todo, embora existam significativas diferenças entre os continentes. Entre 2009 e 2012 o número de católicos aumentou em cerca de 15 milhões de pessoas, população maior que a de muitos países. No mesmo período, o clero aumentou com 1643 novos padres. Um dado bem interessante é que o número de seminaristas realmente diminuiu na Europa e na América, mas aumentou na África, na Ásia e na Oceania.

Cabe dizer que a redução do número de fieis em diversas regiões pode ser pensada de diversas maneiras. Mais do que olhar os dados, é preciso ter a capacidade de interpretá-los. Ano passado assisti uma palestra bem interessante do sociólogo protestante Paul Freston. Nesta palestra, entre outros temas, foi falado sobre a redução do número de católicos no Brasil. Em 1970, 91,8 % da população brasileira declarava-se católica, já em 2010 o número de católicos correspondia a 64,6 % dos brasileiros. Freston disse que, caso nada drástico ocorra, a tendência é que esse número caia ainda mais. No entanto, ressaltou que a queda na quantidade parece estar acompanhada da afirmação da identidade. Que o catolicismo brasileiro, de certa maneira, deve ganhar uma maior expressão nas próximas décadas.

Em relação ao distanciamento de algumas demandas da modernidade, confesso que por diversas vezes me irrito com declarações que menciona tal situação para logo em seguida dizer que a Igreja é fechada ao diálogo. Particularmente não conheço instituição que dialogue mais que a Igreja Católica. Somente na Santa Sé existem um Pontifício Conselho para Promoção da Unidade entre os Cristãos, um para o diálogo inter-religioso e uma Comissão para Relações Religiosas com o Judaísmo. Isso sem falar em iniciativas como o Pátio dos Gentios para dialogar com ateus, agnósticos e homens de boa vontade de toda e qualquer crença. O Encontro Inter-religioso de Assis, maior iniciativa mundial do tipo, também foi protagonizado pela Igreja Católica.

Há diálogo com todos, no entanto o diálogo não vai levar sempre ao consenso. Ele pode gerar discordância. É neste ponto que vejo alguma maldade em certas crítica. No fundo, muitos não querem o diálogo, querem que a Igreja abandone sua identidade e viva em função dos modismos. Há muitos aspectos maravilhosos na modernidade e a Igreja deve abraçá-los. No entanto, seria ingenuidade pensar que os valores de um tempo são absolutos e que uma instituição está em crise por não aceitá-los. Não é porque um valor é moderno que ele é eterno e não é porque uma crença vem do passado que ela é falsa.

Antes de encerrar quero fazer uma última reflexão. Aqueles que dizem que a Igreja está em crise talvez estejam mais certos do que possam imaginar. A Igreja está realmente em crise, na realidade a Igreja sempre esteve em crise e sempre estará em crise. Julgo que a crise é praticamente um componente da identidade histórica da Igreja. Convido o leitor a pensar em algum momento da história que a Igreja não estivesse atravessando águas turbulentas. Trezentos anos de perseguição em seu início, diversas situações de relaxamento moral após a liberdade de culto, o caos após a queda do Império Romano, a Reforma Protestante, o Modernismo do século XIX... Situações de crise, com certeza, não são uma novidade.

Uma instituição do porte e com a proposta da Igreja Católica nunca estará tranquila. Infelizmente sempre existirão aqueles que, embora dentro dela, trairão de forma grave aquilo que ela prega. Esse é o preço que se paga por acolher a todos. A alternativa, no entanto, seria pior. Uma Igreja que fechasse as portas a todos que não fossem perfeitos com certeza seria uma Igreja pouco humana e impermeável à misericórdia. Nada seria mais contrário aos ensinamentos do Mestre.

É claro que os erros tem que ser corrigidos e o mal combatido. Pessoas sofrem e são penalizadas quando lobos se fingem de cordeiros. Em reposta a isso mais uma vez basta olhar a história da Igreja e ver a grande quantidade de reformas que foram e são feitas, desde apelos e esforços de conversão realizados e, por fim, de perdões que são pedidos. Se a crise é o estado habitual da Igreja, a tentativa de realizar o bem e ser fiel à proposta original não é uma exceção na história da instituição.

Finalizando quero trazer uma imagem do Evangelho que pode nos ajudar. Após uma noite inteira de trabalho infrutífero, Pedro consertava as redes na praia. Jesus ensinava sentado na barca do pescador. Em determinado momento, Jesus disse a Pedro que ele deveria voltar ao mar e tentar novamente. Pedro obedeceu e ele e seus amigos “apanharam peixes em tanta quantidade que a rede se lhes rompia. Acenaram aos companheiros, que viessem ajudar. Eles vieram e encheram ambas as barcas, de modo que quase iam a fundo”.

A rede de Pedro se rompia e a barca de Pedro quase afundava. Isso acontecia pela grande quantidade de peixes. Hoje não é diferente... Nos alegra saber que Pedro cuidava de suas redes e que sua barca foi forte o suficiente para não ter que jogar nenhum peixe fora. Hoje também nos alegra saber que Bento XVI cuida das redes de maneira tão cuidadosa que prefere renunciar a não realizar bem a tarefa que lhe foi confiada. Tanto com Pedro quanto com Bento a barca permaneceu em boas mãos.
Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores 
FONTES:

http://www.zenit.org/pt/articles/anuario-pontificio-2012-catolicos-crescem-na-asia

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticia/noticia_visualiza.php?id_noticia=2170 



Este texto é parte de uma série de textos que publicamos ao longo da última semana do pontificado de Bento XVI. Para acessar todos os textos desta série especial basta acessar a tag Especial Papa Bento XVI clicando aqui

1 comentários:

Breno disse...

Um dos melhores da breve história desse blog...

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