Por: Alessandro


Escrevo este texto logo após assistir pela TV as palavras que o Papa Bento XVI dirigiu a uma grande multidão de fiéis reunidas em Castel Gandolfo. Foram palavras de despedida. Várias pessoas na multidão choravam e, confesso que mesmo a um oceano de distância, senti meus olhos ficarem cheios de lágrimas.

O Papa nos dá adeus, embora permaneça conosco de uma nova maneira. Nestes últimos dias, por diversas vezes, Bento XVI agradeceu a amizade e o amor dedicados a ele. Penso que seja difícil para muitos não católicos entenderem toda a comoção vivida nos últimos dias. O Papa não é um Deus, é um homem como nós. Mas é o símbolo da unidade de uma fé que une tantos que são, em diversas coisas, muito diferentes. É uma rocha viva que, embora possua grandes limitações, carrega nos ombros o peso daquelas palavras ditas dois mil anos atrás: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.

No caso de Bento XVI, há vários detalhes que tornam sua figura ainda mais emblemática. Ele é um gênio, um dos homens mais cultos a ocupar o trono de Pedro, apaixonado pelo diálogo, capaz de explicar coisas difíceis de maneira simples. O Papa não é o dono da Igreja, mas, durante seu pontificado, é seu principal rosto. Com Bento XVI, a face de Mestra em Humanidade da Igreja Católica transpareceu de maneira clara no rosto sereno do ancião alemão

Por mais de uma vez durante seu pontificado, as palavras de Bento XVI foram mal interpretadas e tiradas de contexto. Apesar disso, seu magistério atingiu católicos e não católicos ao redor do mundo. Diversas pessoas que professam uma fé distinta daquela de Joseph Ratzinger foram positivamente afetadas por sua vida, por sua palavra e por sua renúncia. Hoje eles, assim como nós, dizem seus “adeuses” na forma de declarações e homenagens. Desejo, neste texto, trazer três declarações vindas de pessoas oriundas de credos diferentes de catolicismo.

O primeiro adeus que quero mencionar vem do pastor da Comunidade Luterana de Roma que reconheceu que Bento XVI, com atos concretos, trabalhou incansavelmente pela unidade dos cristãos. Um gesto que o pastor mencionou agradecido foi a visita que o Papa fez à sua comunidade. Em suas palavras:  "Para nós, este é um sinal muito especial de laço ecumênico. Em pequena escala, expressa o lugar que ocupa, para Bento XVI, o ecumenismo. O papa, como chefe da Igreja Católica Romana, esteve disponível para comemorar com a nossa pequena comunidade de Roma, um culto de nossa tradição luterana”. Ele também menciona que o Papa Bento foi o primeiro a visitar o convento agostiniano onde viveu Martinho Lutero.

Outro importante adeus veio do mundo árabe. O ex Grão-Mufti da Bósnia, Mustafa Ceric, deu a seguinte declaração:

“Em primeiro lugar como cardeal Ratzinger e, em seguida como Papa Bento XVI , ele será lembrado como um proeminente teólogo católico e um pastor sincero e fiel. Embora inicialmente não tenhamos nos agradado com suas palavras proferidas sobre o Islã em Regensburg , estudiosos islâmicos apreciaram o seu pedido de desculpas subsequente e as posteriores visitas amigáveis aos países muçulmanos e às mesquitas, particularmente a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. Eles também apreciaram a sua vontade de dar atenção a uma iniciativa de estabelecimento de um Fórum católico-muçulmano para o diálogo entre as duas religiões.”

“A renúncia do Papa é um ato de serviço e um bom exemplo que temos devidamente anotado. Esperamos que o espírito de diálogo e amizade entre católicos e muçulmanos continue com o sucessor de Bento XVI.”

É interessante notar como o mundo muçulmano lidou de forma diferente com o discurso do Papa em Ragensburg. Os trechos transmitidos faziam com que as palavras fossem mal interpretadas. Também é necessário mencionar que o Papa, mesmo não voltando atrás em suas palavras, pediu desculpas pelo mal entendido.

O último adeus do mundo não católico que desejo mencionar vem do rabino David Rosen, presidente da filial Israelense da Liga Antidifamatória. O Rabino disse que quando soube da renúncia ficou chocado, assim como o resto do mundo. Em seguida acrescentou:

"Nós nos conhecemos há mais de vinte anos e ele é uma pessoa extraordinária, com um grande senso de humor. Ele gosta de brincar e tem imensa humanidade. A primeira vez que o encontrei foi inesquecível. Eu queria entender a sua visão teológica, pedi explicações acerca das relações entre a Igreja e o povo judeu. Um monte de perguntas foram respondidas de forma fascinante. "

Mesmo com declarações tão fortes, ainda não é possível fazer uma avaliação das consequências do pontificado de Bento XVI. Muito do que vemos hoje são apenas sementes que germinarão no tempo devido. Sua vida, seus livros, seu tempo como Papa e sua renúncia trazem lições e provocações que não se esgotam em poucos anos. Embora Bento XVI oculte-se do mundo, o mundo ainda ouvirá falar muito dele. Ou melhor: ainda que não diga mais nada, suas palavras continuarão sendo ouvidas porque continuam sendo necessárias.

Muitos “adeuses” foram ditos. Pelo Papa e para o Papa. Desejo, antes de encerrar, dizer o meu:

Adeus, querido Papa Bento. Obrigado por me ensinar que a fé não é inimiga da inteligência e nem a inteligência inimiga da fé; que quem discorda de mim merece ser ouvido e que não é preciso ser relativista para ser aberto ao diálogo. Obrigado por me mostrar, com seu exemplo, que a verdade é mais importante que os aplausos, que o serviço vale mais que os cargos e que estes só têm valor quando se convertem em serviço. Agradeço ainda por me mostrar, com suas palavras e sua vida, a beleza e a força de uma fé que muitos julgam estar morta, mas que hoje, como ontem, é uma força de vida.

Obrigado por me dizer que não possuímos a verdade, mas que somos possuídos por Ela e que devemos ser seus colaboradores.

Obrigado...e adeus...Bendito Papa Bento.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores


Agradecimentos especiais a Anderson Alves por enviar diversos artigos publicados na imprensa italiana com declarações de não católicos sobre o Papa Bento XVI.

Obs: as declarações citadas no texto estão originalmente em italiano. Realizei traduções e adaptações livres, esforçando-me sempre por ser fiel ao discurso original. Caso alguém deseje as fontes, basta entrar em contato que as envio com prazer.




Este texto é parte de uma série de textos que publicamos ao longo da última semana do pontificado de Bento XVI. Para acessar todos os textos desta série especial basta acessar a tag Especial Papa Bento XVI clicando aqui

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