Por: Nathalia


                                   fotografia de Nathalia Melo

De quem é o seu tempo?


A cena da foto me tocou profundamente. Avó e neta brincando, por muito tempo, na beira do mar. Mas não eram avó e neta quaisquer. A avó, com o maior sorriso do mundo chutava as ondas que vinham ao seu encontro, fazia pose de braços abertos para ser fotografada com o mar ao fundo, caía e levantava com a força das ondas e segurava com força a mão da neta. Parecia nunca ter visto o mar, de tanta felicidade. Tocava a areia a todo momento, andava de um lado para o outro, pulava e dava gargalhadas. 

Tanto foi contagiante que pessoas em volta pegaram o celular, tiraram fotos, algumas se aproximaram, trocaram palavras e até a abraçaram. A neta sorria em igual medida. Parecia a pessoa mais feliz do mundo por estar partilhando aquele momento com a avó. De mãos dadas ajudava a velhinha, já com nítidas limitações físicas, a se levantar quando caía. Conversava, sorria e brincava com ela a todo momento, encorajando-a a entrar no mar.

A cena foi linda. Sem saber, elas deram uma aula para quem estava em volta. A avó, uma aula de como se encantar com pouco, de como ser feliz com algo tão simples, de como continuar alegre e aproveitando a vida na terceira idade. A neta, um exemplo de como tratar os familiares mais velhos. Apenas sendo ela mesma, essa neta me fez pensar o quão pouco eu faço pelos meus. 

Somos egoístas, muitas vezes. Temos a falsa ideia de que só os mais novos têm o direito de ser feliz, de aproveitar a vida e o que o dia tem a oferecer. Precisamos da ajuda de mãe, pai, avó e família para construir nossos sonhos, planos e carreira. E durante boa parte da vida parece que eles, de fato, vivem só para nos ajudar. Mas esquecemos que eles também são pessoas, com sonhos, planos e sede de felicidade. Precisam de companhia, atenção e, especialmente, que partilhemos bons momentos com eles.

A cena me fez pensar: "qual o tempo tenho reservado para a minha avó, mãe e família?". O restinho de domingo, depois de ter encontrado todos os meus amigos e feito tudo o que queria fazer no meu dia? O almoço de família, que não posso faltar e consigo conversar um pouquinho com eles? O dia chuvoso, que me fez ficar em casa sem ter o que fazer? O restinho de um dia de semana, depois que estou morta do trabalho e só quero dormir? O fim de semana que não tenho nada planejado, quando consigo subir a serra? Não, está errado.

As pessoas mais importantes merecem o melhor do meu tempo. Nós, mais novos, temos uma vida e relacionamentos a construir, precisamos aproveitar o dia, conhecer pessoas novas e fazer o que gostamos. Mas precisamos colocar cada pessoa e compromisso no lugar e na medida que merecem estar.

Trabalho, compromissos da igreja, programas com os amigos, nossa atividade física preferida, tudo é muito importante se sabemos organizar bem o nosso tempo. De nada vale abraçar o mundo fora de casa, se não abraçamos os nossos familiares.

Muitas pessoas são circunstanciais nas nossas vidas. Estão mais próximas porque no momento trabalham conosco, estudam na mesma sala, frequentam a mesma paróquia ou moram perto. Mas as circunstâncias um dia podem mudar, e provocar afastamento. Família não é circunstancial. É para sempre. Ou melhor, é enquanto viverem.

Que saibamos fazer como essa neta. Reservar não o restinho de um domingo chuvoso para eles, mas um sábado inteiro de muito sol e gargalhadas.



Nathalia Melo
Jornalista

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