Por: Adriano

Resolvi acompanhar o frisson. Volta e meia, aparece algum filme ou série que repentinamente tomam de assalto as redes sociais e você precisa tomar cuidado pra não ler/ouvir algum spoiler acidental, saber da trama toda sem nem mesmo saber o nome da atração! Mas tá aí, terminei de assistir 13 Reasons Why, série original da Netflix. Em tempo, a série é baseada num livro homônimo, lançado em 2007.

Ela conta a história de uma menina que se suicida e deixa treze fitas cassete, explicando quem/quais foram as treze razões pelas quais ela escolheu tirar a própria vida (se não viu a série, fique tranquilo, isto é contado logo nos primeiros 10 minutos do primeiro episódio), e o contexto onde se passa essa história é um colégio americano típico. Os personagens estão nos seus 16-18 anos (High School americana, tipo nosso Ensino Médio). Já dá para notar de antemão que é uma época da vida onde tudo tende a tomar uma proporção maior - os dramas, as angústias, os relacionamentos e seus meandros, os sonhos... Tudo isso é potencializado nessa fase. E ao jogar luz sobre os dramas de um grupo de adolescentes e suas consequências - que podem ser nefastas - é possível perceber algo que é tão óbvio no mundo, que chega a revoltar por não fazermos muita coisa para remediar: o mundo está doente. 

Pois as relações humanas estão doentes. Porque as pessoas estão doentes.

Calma, ainda existe coisa boa no mundo. Mas falando desta história, que é ficção, mas também é bastante verossímil, faz-se necessário comentar e trabalhar esta questão: nós estamos vivendo relações doentes. Embora a série trate de um problema bem sério que é a depressão, esta falta nas relações começa a se manifestar em situações bem menos perceptíveis.

Situações simples do nosso dia-a-dia como pequenas decepções, um "bom dia" não respondido, coisas corriqueiras podem afetar muito negativamente as pessoas. Por que isso acontece? Creio que, apesar de ter a certeza de que não somos simplesmente um produto do ambiente onde vivemos, esse mesmo ambiente influencia muito as nossas vidas. E o ambiente é formado por uma infinidade de pessoas, histórias, relações entre elas... são muitas variáveis pra se levar em conta, e isso torna o cálculo impossível. Não é nem um pouco efetivo ficar tentando calcular os porquês de uma pessoa reagir tão mal a uma "zoeira" num nível, digamos, quase acadêmico. Cair na armadilha de uma análise impessoal é um risco enorme nesses casos - e como a série trata muito a questão do bullying e suas consequências, tratar o problema como algo abstrato (lidar com o ato e não diretamente com a pessoa que é vítima dele) pode ser tão desumano quanto "zoar" alguém por algo. Em outras palavras, pensamentos como "ele que leve na brincadeira", "ninguém mandou ser tão melindroso(a)", e coisas assim, são um risco que podem nos levar a fechar os olhos para  situações mais graves.

Enxergar na protagonista situações do nosso dia-a-dia é bem fácil. E são coisas que a princípio parecem bobeira mesmo. Não vou detalhar pra não dar aquele famoso spoiler (que condeno!), mas posso dizer sem medo que a lição que fica depois de assistir a todos os dramas, cenas fortes, lágrimas, é que podia ter havido mais amor. Saber olhar para o outro, dedicar um tempo pra entender o que a pessoa está falando em vez de se preocupar em bolar uma resposta sem nem ouvi-la direito, pensar no que a pessoa falou, comunicou, estar atento àquele olhar estranho que o amigo deu quando falou "tá tudo bem, relaxa"... Isso tudo é amor, isso tudo é remédio pras nossas relações doentes que, se não tratadas, podem morrer, ainda que não fisicamente.

Vários blogs e veículos de mídia nos últimos dias tem demonstrado alguma preocupação com o impacto que 13 Reasons Why pode causar nas pessoas que tem alguma tendência depressiva ou a comportamentos similares, ou até quem já vivenciou algo assim. É uma preocupação bem válida, visto que a arte pode influenciar nossas vidas de maneira bem profunda. Alguns episódios inclusive têm um aviso no início, informando sobre cenas e temas fortes, e recomendando cuidado ao assistir. Mas mesmo com essas ressalvas, creio que vale a pena aprofundar-se no tema, e buscar um entendimento melhor das coisas, dos outros, e de si mesmo.

13 Reasons Why é bem sucedida em demonstrar que atos têm consequências além das externas, além das óbvias. Simples omissões, faltas de cuidado com o que ouvimos ou notamos, ou palavras desmedidas na hora errada podem deixar marcas nas almas dos que nos cercam - colegas de classe, amigos, namorados (as), familiares. E, por mais que pareça extremo dizer isso, é importante manter na mente que as pessoas não duram pra sempre - qual a marca que eu quero deixar em quem passa pela minha vida?

"Mais amor, por favor", quem nunca leu/viu/ouviu algo assim? E sim, isso pode salvar vidas! Mas só se sair do papel e da postagem no Facebook e virar um gesto concreto. Para alguns casos, perceber um problema deve acompanhar o encaminhamento para algum especialista.  Mas para todos que convivemos, precisamos de mais empatia, mais mãos amigas, mais sorriso, mais bom dia pra você também. Mais... amor, por favor.



Adriano Reis
Analista de Redes - TI e Estudante de Engenharia da Computação
Oficina de Valores

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