Por: Alessandro
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     De vez em quando tenho que contar como o Oficina de Valores começou. Na época não parecia nada extraordinário, afinal foi apenas um telefonema. Me explico melhor: uma professora ligou pedindo que eu desse uma palestra em um colégio no qual alguns alunos enfrentavam um certo problema com a dependência química. Depois de nos falarmos, a professora pediu para eu ligar para diretora que me contou melhor e a situação. Então eu prontamente disse...não! E esse não foi decisivo. Eu disse não porque não tinha (e ainda não tenho) experiência em lidar com dependentes químicos e achava que minha palestra poderia mais atrapalhar que ajudar. Indiquei pessoas que não puderam ir e depois de muito pensar liguei para a diretora e disse: "Tá bom. Eu vou, mas só se eu puder não falar sobre drogas. Posso falar sobre aquilo que acho que causa esse problema?"

     Esse texto não é sobre a história do Oficina de Valores (quem sabe não faço um sobre isso outro dia?), mas sobre aquilo que julgo ser o motivo que está por trás do problema das drogas. E não apenas dele, mas de muitos outros dramas. Falarei aqui sobre o vazio existencial, ou sendo mais direto, sobre a dor de não possuir um sentido para a própria vida. Acredito ser essa sensação de absurdo, de que não há um motivo pelo qual valha a pena viver e morrer, que faz com que nos apeguemos a fugas desesperadas, como a droga, a vida fútil, a troca do real pelo virtual...

      Pensem comigo caros amigos. Quantas vezes em nossa história, sentimos uma sensação de que falta alguma coisa que não sabemos o que é? Quantas vezes aquilo que fazemos parece não ter graça alguma e gostaríamos de estar em outro lugar? Queremos algo diferente, embora tenhamos dificuldades em saber o que é esse diferente.

     Quando não encontramos uma resposta para esse anseio vejo que podemos enveredar por três caminhos, sendo o primeiro a divinização de um aspecto de nossa vida. Essa estratégia é bem fácil de observar: basta olhar a volta e ver quantos absolutizam o lazer, por exemplo. É bem comum encontrarmos pessoas que começam a segunda esperando a sexta, às vezes nós somos assim. O problema é que se o fim de semana é um oásis, isso significa que a maior parte da vida é um deserto. E existem ainda aqueles poucos privilegiados que podem viver apenas para o lazer e bem estar... E nem estes estão felizes. Ops, parece que o primeiro caminho não é a solução.

     O segundo é bem próximo do primeiro e é trilhado por aqueles que buscam não dar atenção as grandes questões do próprio coração e vivem na superficialidade. Comem, bebem, dormem, se divertem, em suma, vivem. Estas pessoas habitualmente não se angustiam e até vivem de forma razoável, mas não devemos esquecer que o câncer é uma doença tão terrível exatamente porque não dói enquanto se espalha. Viver na superficialidade significa viver e ser apenas superficialmente realizado, ou seja, em nunca satisfazer as mais profundas aspirações. Diante desse caminho acho que vale lembrar a famosa frase de Stuart Mill: "prefiro ser um Sócrates insatisfeito que um tolo satisfeito". Ou na sua forma mais radical: "prefiro ser homem insatisfeito que um porco saciado".

     Por fim há a terceira trilha que é a daqueles que desesperam, que sentem o drama da existência, mas julgam que não há saída. São estes que fazem coro a Schopenhauer quando este diz que a vida é um pêndulo que oscila entre a angústia e o tédio. Se eu julgasse esta a verdade, garanto a você, querido amigo, que eu não estaria escrevendo este texto. Há felicidade porque existe sentido para nossa aventura nesta terra. Há um "porque" e há um "para que". Foi isso que eu disse aqueles adolescente anos atrás e é isto que eu digo hoje. Existe uma resposta e nisso se fundamenta a nossa esperança. Qual é essa resposta? Ah...esse assunto fica para o próximo texto.

Alessandro Garcia
Doutorando em sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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3 comentários:

Joyce disse...

olá alessandro!
poxa vida, esse seu texto...muito bom. achei sensacional o teu exemplo de ter se negado a dar a palestra e depois ter voltado com o proposito q seu coração e mente te disseram p realizar. não se fala sobre drogas com quem as usa. não se fala sobre drama acom quem o tem. falemos das raizes dos problemas, para que, conhecendo-as, possamos saber como arrancá-las. parabéns pelo trabalho! abraço, joyce - juiz de fora

Anônimo disse...

Olá Alessandro, belo texto! Essa falta de sentido e a tentitiva de saciar com a superficialidade é sim o que gera essa angústia nos nossos jovens. Vou aguardar os próximo textos. Parabéns pela escrita!

Abraços, Thaís.

Carol Reis disse...

Olá, Alessandro

fico muito feliz com a iniciativa do blog e a possibilidade de conhecer mais sobre este belo trabalho q é a Oficina. Parabéns pelo texto e q Deus continue realizando tantas obras através do seu 'sim'.
Maria Carolina

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