Atualmente estou estudando uma matéria chamada psicopatologia que pretende entender como as patologias são vivenciadas . Nisso comecei a pensar em duas coisas que dentro da psicologia são chamadas alucinar e fantasiar. A questão é que na vida, às vezes, ficamos no dilema entre essas duas opções, devido ao fato da vida ser cheia de grandes traumas, perdas, vazio, tédio, etc.
 
Alucinar seria, dentro de uma das suas possibilidades, aquela forma de tentar fazer o uso de drogas ou de outra substância química, que tentará mudar a percepção (estado alterado de consciência) trazendo um certo prazer inicial, porém tendo como resultado final o vazio existencial, desesperança e depressão. Fora os efeitos colaterais físicos que acontecem a nível cortical, um exemplo disso seria aquela pessoa que faz uso de cocaína frequentemente e perde o controle da sua atenção para as coisas importantes, ou seja, a pessoa fica dispersa. E em psicologia sabemos que sem atenção é impossível adquirir algum tipo de aprendizagem. Então, alucinar é imaginar a sensação de estar em um Oasis, por exemplo. Entretanto você descobre que está tanto tempo sem beber água que vê que tudo que está ali na sua frente é uma mera ilusão criada pelo seu corpo para tentar atender a uma necessidade urgente, só que essa resposta diz respeito a uma realidade que não existe. 

Fantasiar é um outro tipo de fuga da realidade que nos dá a possibilidade de evocar ou produzir imagens, independentemente da presença do objeto a que se refere, ou seja, através da minha mente eu tenho a capacidade de criar uma infinidade de soluções que julgo serem pertinentes ou não para a minha vida. Hoje gostaria de pensar com vocês em alguns benefícios que temos em nos utilizar da fantasia. 

1) A importância da fantasia para os relacionamentos – Nos utilizar de imaginação nos relacionamentos, certamente proporciona novidades. Depois de um período em que os envolvimentos entram em um estado de “normalidade”, que é natural e até positivo, reconhecemos que o outro (amantes, amigos, familiares) não é tudo aquilo que imaginávamos que seria, ou seja, não são perfeitas. Com isso, temos que pensar que a imaginação vem tentar trazer algo de novo para os relacionamentos, esse é um dos principais usos da fantasia. 

2) A importância da fantasia para as dificuldades da vida - Existem algumas situações na vida que apresentam dificuldades e uma maneira de supera-las é nos utilizar da fantasia. Ela pode servir como abertura de um caminho ainda não descoberto. É interessante notar como, em psicologia, a característica lúdica (brincadeira) das crianças em análise clínica nos mostra a importância da imaginação nesses momentos em que ela apresenta alguma dificuldade a ser superada, que não consegue ser transmitida através da linguagem falada e por isso faz uso de brinquedos para expressar suas vivências, dando assim possibilidade de o seu trauma ser sanado. De maneira semelhante, nós também podemos criar novas possibilidades como as crianças. 

3) Fantasia como cura de traumas Normamente o enredo geral do livro de fantasia, manga, HQ (história em quadrinhos) e animes mostra um mundo em constante caos. Um herói então, surge para tentar aplacar esse mal, só que essa maldade parece impossível de superar. E quantas vezes na vida não é a mesma coisa? Quando na vida acontece algo semelhante achamos que será praticamente impossível superar uma determinada etapa de sofrimento. Eu não sei se é a sua experiência, mas muitas das vezes, lendo livros de fantasia como Harry Potter, Senhor dos Anéis, ou até vendo desenho japonês, dentre outros, acontecia comigo um processo de identificação com o personagem e tudo o que ele passava acabava por se assemelhar às minhas vivencias. Então, toda a superação do personagem passava a ser a minha superação, toda a luta por tentar vencer passava a ser a minha luta, toda a dificuldade para se chegar a vitória passava a ser minha também. O que estou querendo dizer é que através da literatura de fantasia é possível encontrar motivação para continuar a luta contra o mal. 

4) A importância da imaginação para o sentido de vida – Sempre quando falamos em Sentido de Vida queremos dizer que existe um vazio existencial que necessita de uma determinada resposta que não pode ser qualquer uma, pois senão o vazio continua a ampliar cada vez mais, tendo como implicação uma vida frustrada. A imaginação entra aqui como um fator importante para as formas de resposta a dar ao Sentido de Vida, por exemplo, sabemos que temos que amar os nossos pais, cuidar das pessoas, estudar, etc, mas a forma (que é o essencial) pode ser a das mais variadas para cada situação e pessoa. 

Concluindo, a fantasia parece um pouco com a alucinação, só que nesse caso você tem a sensação de estar perto de um Oasis e descobre, ao se aproximar, que ali existe água para matar sua sede. Aqui, portanto, ela se torna uma realidade mais concreta do que a própria “realidade” uma vez que nos serve de andaime para a solução dos problemas, nos fazendo descobrir sua importância para os relacionamentos, dificuldades da vida, traumas, sentido de vida e outros não apontados. 

Diego Macedo
Estudante de Psicologia - Oficina de Valores

4 comentários:

André disse...

Achei interessante, pois nunca tinha refletido sobre a relevância da fantasia para ultrapassar os desafios da vida.

Não sei se está discussão que vou propor cabe ao tema. Porém gostaria de saber se a fantasia, em excesso, não causaria uma especie de abstração exagerada do mundo. Como ficar fantasiando sobre soluções que podem não ser viáveis ou ficar fantasiando sobre um problema que não em a relevância que deveria ter ou estar além das nossas limtações.

Abraços,
André

Alessandro Garcia disse...

Temática interessante, só acho que a questão da alucinação poderia ser melhor trabalhada. Entendi a diferença entre ela e a fantasia, mas como se dá a linha entre as duas? O mesmo tipo de desenho animado, por exemplo, que inspira não pode alienar?

Diego disse...

O excesso do uso da fantasia pode prejudicar uma pessoa?

Isso é fato, tudo que é excessivo dentro de qualquer área se torna prejudicial e na fantasia é um campo maravilhoso para acontecer. Quantas vezes não vemos pessoas pessoa perdendo o contato totalmente com a realidade e vive só na fantasia. Ex: a pessoa fica o dia inteiro lendo HQ(historia em quadrinho) e acha que aquilo é a vida dela. No exemplo podemos ver um modelo de uma fantasia alienada. Quando ela(fantasia) aliena? Quando ela não tem uma ação efetiva para a vida da pessoa, seria quando ela foge do estado daquilo que determinamos como normal.

Como o André apontou as outros apsctos que a fantasia poderia não ser útil" como ficar fantasiando sobre soluções que podem não ser viáveis...” - Eu concordo que podemos pensar em soluções que podem não ser viáveis, mas não acredito que isso seja tão prejudicial assim. Sempre quando pensar em soluções para os nossos problemas as vezes erramos nas respostas que podemos dar, mas por tentativa e erro acabamos por achar a solução. Por isso pensar em soluções que não pode ser viáveis, acabaremos por achar uma solução correta.

... ou ficar fantasiando sobre um problema que não tem a relevância que deveria. - O andré está certo. Tem certas situações na vida que não devemos ficar a fantasiar a todo momento, sobre qualquer situações que não tem relevancia. O que disse é que a fantasia pode ser útil para algumas determinadas situações, e não para todas.

Escrevendo o texto eu apenas foquei nos aspectos positivos da fantasia usando ela apenas como instrumentos para solução de conflitos, porém não anulo aos aspectos negativos dela.

Alessandro o que você gostaria de saber com a linha entre elas?

Marcela Amadeu disse...

Muito bom mesmo o texo! Eu tbm nunca havia refletido a respeito disso. É incrivel perceber o quanto fantasiamos certas coisas, e bem ou mal, o quão importante essas fantasias podem ser importantes para nos. Sem exagero é claro!
Achei interessante o que o Alessandro Garcia disse, e acho que vc poderia trabalhar tbm (um pouco mais) em cima da questão da alucinação... Um desafio!!! Adorei!!!

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