Acontece algo de interessante e, ao mesmo tempo, paradoxal no ateísmo de hoje em dia. É um fenômeno que, ao ser olhado com mais atenção, revela uma inerente contradição entre o que era o ateísmo no passado e como é o ateísmo hoje. O próprio fato de reconhecermos o ateísmo como um movimento já é, em si, a primeira contradição.

A descrença em Deus, de fato, sempre existiu (ou começou a existir quando o primeiro homem teve a primeira revelação), mas se a “não crença” sempre existiu, a militância contra os que crêem é um fenômeno recente.

Antes encontrávamos pessoas que não acreditavam em Deus, mas que não estavam preocupadas em convencer ninguém de que Deus não existia. Viviam as suas vidas simplesmente ignorando a existência de Deus e ignorando quem acreditava Nele.

Pode-se verificar que os ateus não militavam no passado por dois motivos muito simples: o primeiro, e mais óbvio, era medo de serem perseguidos (o que era uma realidade), mas o outro motivo, e esse se faz mais importante: seria embaraçoso se os ateus se organizassem como um movimento e começassem a “converter” as pessoas, porque essa não é uma característica ateísta (criar grupos, organizações ou entidades). Porque se assim procedessem, correriam o risco de criar uma religião, só que sem Deus.

Acreditar que Deus não existe, professar e organizar um grupo seguindo normas ou pressupostos normativos que confrontem as regras, os preceitos dos que acreditam em Deus é fazer a mesma coisa! Só que no altar ateu você tira a imagem de uma divindade (no caso dos cristãos, de Cristo) e coloca no lugar não algo que o ateu acredita profundamente (porque falta saber no que acreditar), mas algo que desmoralize e represente o rompimento total com o lado do crente.

A premissa ateísta é, em grande parte dos casos, não “no que ele realmente acredita”, mas porque e no que “ele não deve acreditar”. Ela monta uma crença, dentro da “não crença” e, ao organizar-se como um movimento, cria uma religião, só que sem religião. Só não é religião, porque essa “união” é apenas aparente e não pode sedimentar-se em bases sólidas e qualquer movimento ateísta, quando confrontado com uma estrutura como a do cristianismo, por exemplo, assemelha-se a sombra de uma pulga, com pretensão de provocar escuridão em um campo ensolarado. Enquanto existir o Sol, a sombra dessa pulga será insignificante. Quando não houver mais Sol, a sombra da pulga vai ser insignificante do mesmo modo.

Já do lado dos religiosos, era assim no passado e tem que ser assim nos dias de hoje, não se tem o direito de ficar quieto, “cada um no seu quadrado”. É seu dever atrair o maior número de pessoas para dentro dos seus templos. E, é significativo que a própria palavra “religião” implique nessa necessidade. Os religiosos, sim! Eles não cometem nenhuma contradição por militar, por querer converter. Essa é, a meu ver, a primeira contradição da militância ateísta.

O que mais me entristece nesse movimento ateísta, são as razões pelas quais deixam de acreditar em Deus. Voltemos à época da Inquisição. Eu sei que era bem mais complexo do que isso, mas naquela época, se um sujeito começasse a falar que Deus não existia, ele se cercava de importantes razões para isso. E, ao ser inquirido, ele lançava mão de argumentos pertinentes que mereciam ser refletidos (e foram). Se o ateu não fosse convincente nas suas argumentações, ele iria morrer. E, se ele fosse convincente, ele iria morrer do mesmo modo. E é verdade que para cada argumento convincente, era mais uma lenha que um camponês cortava e outro armava no monte, ou era mais uma ajeitada que o carrasco dava no cadafalso, mais uma revisada na corda; mas, passado o corpo queimado, ou o pescoço quebrado, os teólogos voltavam a trabalhar. Pode-se acusar o cristianismo de muitas coisas, mas ninguém acusa de serem preguiçosos. O Cristianismo não duraria tanto tempo, sobretudo numa cultura onde se privilegia o uso da razão, se não procurasse responder todas as dúvidas. Numa sociedade teocrática, Deus é imposto. Numa sociedade democrática, Deus é uma escolha! E, sendo Deus uma escolha, os religiosos se esforçam para fazer Dele, a melhor escolha. E isso só acontece através da discussão.

Os ateus, ao longo da história, foram muito úteis para a religião e os religiosos são agradecidos por eles terem existido (embora os ateus de hoje, não compartilhem muito dessa alegria). Graças aos ateus, a fé em Deus teve que ser explicada e proliferaram pensadores para fazê-lo. A mesma coisa não acontece com os pensadores ateus na atualidade. Houve um declínio na argumentação e a discussão empobreceu. É humilhante quando alguém acha que está levantando a dúvida do século e posteriormente descobre, para sua consternação, que a questão já foi respondida a algumas décadas ou alguns séculos antes. Foi assim com Richard Dawkins, por exemplo. Se ele tivesse lido Santo Tomás de Aquino, ou Chesterton, ou C.S. Lewis (esse nem tão longe dele, diga-se de passagem), provavelmente não escreveria “A Desilusão de Deus / Deus, um Delírio”; mas ele não se preocupou com isso e duvidou de coisas que os teólogos até sorriem, quando leem seu livro. Não há, nas suas colocações, nada que não tenha sido respondido. O que acontece é que os ateus não buscam a resposta porque não querem.

E hoje, com o empobrecimento da discussão, a gente vê que uma pessoa deixa de acreditar em Deus pelos motivos mais bobos. Ainda chegará o dia em que uma pessoa vai deixar de acreditar em Deus porque passou mal comendo uma banana. “Sabe... eu acreditava em Deus e nessas coisas todas de igreja e tal, mas ontem comi uma banana e passei mal. Aí, pensei: Se Deus fez todas as coisas, também fez a banana. E, se fez a banana, fez com que eu passasse mal. Um Deus que faz uma banana que faz mal para alguém, não pode ser um Deus bom. Prefiro acreditar que não existe Deus, do que acreditar que existe um Deus mal.” E daí para pior...

Posso dizer, pelo lado dos que acreditam em Deus, que os ateus não nos fazem mal, não nos causam raiva. Só ficamos tristes com o empobrecimento que vem acontecendo. Para nós, é interessante quando surge um ateu questionador, curioso.

Já o ateu que ataca com escárnio, não. Esse não é útil para ninguém, nem mesmo para os ateus. E prestam mal serviço para a discussão. Com esses ateus, a gente se entristece, nem tanto por acharmos que seu escárnio fere a nossa crença, mas principalmente, porque o escárnio é a falta de convicção que o ateu tem na sua não-crença. É uma tentativa de falar sozinho. De não ser provocado, porque não está absolutamente convicto do que acredita. Ou do que não acredita, sei lá.

Eu termino com o seguinte questionamento: você é ateu? Se sente absolutamente feliz com essa ideia? Então, por que zombar de quem acredita? 
 
Fernando Duarte
Professor de História - Oficina de Valores

14 comentários:

Alessandro Garcia disse...

Bacana o texto do Fernando. Quem o conhece de perto sabe que estas reflexões são fruto de uma descoberte que veio depois de uma busca angustiada.

A quem bate será aberto...A vida deste amigo me faz lembrar disso.

Joyce Scoralick disse...

adorei!!!! excelentes questionamentos e apontamentos. lembrei daquela aoganização ATEA, que promove exatamente esse tipo de coisa. esses dias vi um post deles justificando q o Brasil estava na pior e paises europeus estavam bem pq aqui somos em maioria cristã e lá não... quer dizer. quanta cegueira é preciso pra tal?
ótimo texto.

Anônimo disse...

Olá Fernando,
Inicialmente, gostaria de te parabenizar pelo texto. Um texto bem escrito, na qual você utiliza alguns argumentos fora do lugar comum e você me parece um cristão que tenta buscar conhecimentos além das ladainhas repetidas nos cultos. O seu texto reflete a sua visão sobre os ateus e eu gostaria de tomar a liberdade de fazer um contraponto. Fique a vontade de permitir ou não. Não me sentirei censurado, sobretudo pelo fato de esse ser seu blog. Sou ateu e obviamente não nasci ateu. Aliás, ninguém nasce acreditando em qualquer deus ou não acreditando em nada. Fui criado em uma família católica, fiz primeira comunhão, frequentei grupos de jovens e missas. Na minha concepção aqui reside um contraponto importante à uma das suas colocações. Desde muito cedo temos contato com religião e religiosidade. As crianças são como esponjas para o mundo que as cerca e qualquer coisa que ensinarmos a elas, elas internalizarão sem muito questionamento. Por um tempo, deuses e magia bastam para explicar o mundo à nossa volta. Mas chega um momento em que surgem muitos questionamentos. Algumas pessoas simplesmente continuam com seu pensamento com bases religiosas, muitos com medo do deus que ouviram falar quando crianças, mas para muitos isso não basta. E, com isso, algumas pessoas buscam uma visão alternativa de mundo. Hoje a ciência pode nos fornecer essa visão alternativa. Como você disse, vivemos em uma época de razão, embora ela não seja exercida plenamente por todos. Outro contraponto, que nasce de uma parte que me incomoda no seu texto, e perdoe-me se eu estiver compreendendo errado é: ok, você é ateu, eu te respeito, mas guarde suas dúvidas para você. Não se organize, não se articule. Embora você conclame os que acreditam a não fazer o mesmo, dizendo que quem acredita não pode ficar quieto. Aqui é um ponto que eu não entendi: Porque a crença é filosoficamente superior à não crença? Porque um ateu não deve se organizar para demonstrar a possibilidade de explicar o mundo sem a necessidade de divindades ou bruxarias ou supertições? A organização deve ser ser um monopólio daqueles que creem. Não é a primeira vez que eu leio essa afirmativa e esse é o ponto que mais me incomoda. Quanto a questão que você coloca sobre a religião ter virado motivo de chacota por parte de alguma pessoas, eu me ponho ao seu lado. Discordo da crença de que futebol, política e religião não devem ser discutidos. Eu acredito que tudo deve ser discutido pois é assim que avançamos. Acho lamentáveis algumas postagens nas redes sociais debochando da religião e dos religiosos. Tenha certeza que aqueles não são os melhores argumento e causam um efeito oposto. Peço desculpa por me alongar demais e caso queira, podemos trocar umas idéias. Um abraço. Antonio Vilvaz antoniovilvaz@hotmail.com

Alessandro Garcia disse...

Ola Antônio,

Gostei muito do seu comentário. Com pessoas como você dá gosto de manter um diálogo.

Acredito que o Fernando vá responder, de qualquer maneira eu fiquei cutucado a tecer alguns comentários. Quem sabem em um futuro texto?

abraços

Antonio disse...

Oi Alessandro, Por favor, faça um texto para discutirmos nossos pontos de vista. Um grande abraço

Rodrigo Moco disse...

Também gostei bastante do comentário do Antonio, ansioso pela resposta do Fernando!

Giovanna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Giovanna disse...

Achei o blog por acaso na internet e gostei bastante do que encontrei. Tenho acompanhado os textos postados e me identifiquei com a proposta que vocês fazem. Mas esse texto, em especial, me chamou atenção! Fui atéia e posso reafirmar o que for dito pelo Fernando: de fato, as pessoas deixam de crer em Deus pelos motivos mais bobos.
Ateus sempre buscam apenas o que é comodo, afinal, por vezes o ateísmo é adotado como uma forma de fugir, uma forma de comodismo. Então, para quê o esforço de ler algo que possa mudar sua opinião, se estar "no seu canto" está tão comodo? Por isso ficam satisfeitos consigo próprios se lerem um livro que lhes dê uma pequena margem para sustentar uma discussão que seja, logo leem Dawkins. Parabéns pelo texto!

Vocês se comunicam apenas pelo blog ou há algum outro meio?

Boa semana!

Binho Kraus disse...

Giovanna, é com imensa alegria que leio esse seu comentário. São palavras como essas que nos dão forças pra seguir trabalhando aqui no blog. Desde já te agradeço imensamente por elas em nome de toda a Oficina de Valores. Obrigado.

Bom, temos outros meios de comunicação, não sei de onde você é, mas pela internet nós temos um fórum de dúvidas que é o quemtembocavaiaroma.livreforum.com
Ainda pela net temos uma fanpage no facebook www.facebook.com/OficinadeValores e nosso twitter @oficina_valores
Além disso, em Petrópolis, que é onde nós atuamos, nós vamos as escolas fazer palestras para os alunos sobre Valores. Da uma olhada ali em quem somos nós para entender um pouco melhor, se é que você já não olhou. Também promovemos retiros. Teremos um agora em Julho o FIJ (formação integral do jovem), depois teremos um de estudantes secundaristas e outro exclusivo para estudantes universitários. Além disso, temos nossa reunião mensal da oficina que acontece na UCP (Universidade Católica de Petrópolis) que é aberta a todas as pessoas que conhecem ou que querem conhecer a obra.
Bom acho que é isso. Se tiver interesse em participar de um desses eventos ou quiser manter um diálogo mais estreito conosco, sinta-se convidada a participar das nossas mídias virtuais e nossos encontros e retiros. Coloco a disposição também meu e-mail pessoal bem como o da Oficina também caso queira entrar em contato:
binhokraus@gmail.com
ofic.valores@gmail.com

Permaneça em Deus. Paz e unção.
Att, Cleber Kraus (Binho)

Fernando Duarte disse...

Obrigado pelas participações, obrigado pelo elogios e, em particular, pelas dúvidas do Antônio.
Desculpem não ter respondido antes. Se respondesse de "bate-pronto", sem refletir, apenas para responder, não seria producente, nem para o Antônio, nem para mim, nem para quem quer acompanhar o que eu penso sobre as coisas que foram comentada. A demora é justificada numa melhor tentativa de respondê-lo melhor. Mas só posso fazer isso (aceito fazer isso) escrevendo um ouro texto. Não quero discutir parágrafo a parágrafo. Mesmo sabendo que devemos ter compromisso com o que escrevemos, eu não quero fragmentar o texto em questões tiradas de um ou outro parágrafo, mas quero,espero que você compreenda, responder pelo todo.
Mais uma vez, muito obrigado!
Volto logo!
Até porque, quero voltar a dormir sem esse sussurro nos meus ouvidos "responda, Fernando... responda..."
Grande abraço e fiquem com Deus!

Fernando Duarte disse...

Revisoras!!!! Socorram-me!!!!!!!!! rsrs

Alessandro Garcia disse...

Estamos ansiosos pelo outro texto!

Mariana Fortuna disse...

Parabéns Fernando, ótimo texto! Parece-me que és um cristão, não da "boca pra fora", mas aquele que relmente busca as coisa de Deus, que confia no que crê e apresenta argumentos concretos de sua fé. Parabéns (:

Pixulin Gautama disse...

Belo texto, mas esperava mais... Comecei procurando argumentos que o justificassem, mas me pareceu apenas mais um "testemunho" de fé.
O lado bom, é que reconhece a perseguição que os ateus continuam sofrendo; e embora não corram mais o risco da forca e da fogueira, ainda são discriminados.
O que seria da ciência se todos concordassem cegamente que Deus criou tudo em sua maravilhosa perfeição? Ainda viveríamos em um planeta plano, com o sol girando a seu eixo. Teríamos curandeiros com suas ervas e orações, pois a medicina foi desenvolvida clandestinamente furtando cadáveres para estudo. Não conheceríamos o pouco do universo que a tecnologia atual nos permite... Pois tudo isso era pecado.
Só se passa a ver além do horizonte estipulado pela religião, quando ela é desafiada e se buscam respostas lógicas.
"Que a humanidade não fique estagnada e feche os olhos para o que ainda não conhece ou compreende, só porque Deus na sua perfeição quis assim!"

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