Quando preparo uma palestra recorro a diversas fontes, sendo as principais bons livros e minha experiência pessoal. Acredito que ao partilhar minha experiência, aquilo que sou de alguma forma possa tocar, ainda que de maneira superficial, as expectativas e dramas de quem está me ouvindo. Ao mesmo tempo recorro a mestres que possuem bagagem acumulada sabedoria muito maiores que as minhas.

Há temas, no entanto que me fazem engasgar. Quando tenho que abordá-los sempre saio insatisfeito e me sentindo como se tivesse deixado de tocar nos pontos mais importantes. O tema do presente texto é um desses.  Escrever sobre o sofrimento sentado em uma cadeira confortável e com a vida, graças a Deus, indo bem, faz com que eu fique com medo de alguma maneira desrespeitar aqueles que vivem grandes dramas e que são martelados pela dor.

Buscarei, neste texto, não fazer universalizações que possam desrespeitar aqueles que passam por experiências difíceis, mas ao mesmo tempo tentarei tecer palavras que possam ajudar a mim e outros que estiverem enfrentando, ou que ainda enfrentarão, o desafio do sofrer. Para começar a reflexão vou recorrer àquela que é uma das maiores reflexões sobre o sofrimento já produzida pela humanidade: o livro de Jó.  A história começa da seguinte maneira:

"Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal. Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles.  O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, disse Satanás, e passeando por ele.  O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra: íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal. Mas Satanás respondeu ao Senhor: É a troco de nada que Jó teme a Deus?  Não cercaste como de uma muralha a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoas tudo quanto ele faz e seus rebanhos cobrem toda a região.  Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui; juro-te que te amaldiçoará na tua face. Pois bem! - respondeu o Senhor. Tudo o que ele tem está em teu poder; mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa. E Satanás saiu da presença do Senhor."

Confesso que as primeiras vezes que tive contato com este texto fiquei bastante confuso. Em uma leitura superficial parece que todo sofrimento de Jó ocorreu por uma espécie de capricho divino. Estudando um pouco descobri que esse famoso livro é uma parábola que deve muito ao contexto em que foi produzida.  Essa espécie de aposta é apenas uma forma de contar uma história que visa dar grandes lições sobre o sofrimento e não uma descrição do comportamento de Deus.
A primeira coisa que pude aprender ao ler essa narrativa é que o sofrimento serviu para revelar o verdadeiro caráter de Jó. Em uma leitura atenta percebemos que Jó foi o mesmo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.  A partir disso cabem reflexões importantes, por exemplo sobre as crises matrimoniais que advém da falta de dinheiro. Penso que os problemas financeiros não acabam com os casamentos, mas servem para revelar a verdadeira qualidade e profundidade dos relacionamentos. Diversos outros contextos poderiam ser mencionados, como o daqueles que descontam em todos a revolta por estarem doentes, mas acredito que ideia central está relativamente clara.

De qualquer maneira isto ainda não responde a questão proposta. O sofrimento me revela a mim mesmo, mas a que Deus me chama quando sofro? Novamente o livro de Jó vem em nosso auxílio.  Em determinado momento de seu drama, Jó recebe a visita de três amigos e passa a conversar com eles. A maior parte do livro é dedicada aos discursos que compõe tal conversa. Os discursos são muito interessantes, mas ficam eclipsados quando no clímax do livro Deus profere sua fala!

O discurso de Deus não dá uma resposta direta ao porquê do sofrimento de Jó, apenas busca evidenciar quem é Jó e quem é Deus. Uma das perguntas feita por Deus é a seguinte: “Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? Fala, se estiveres informado disso”.

Ao ler isso alguém podem pensar que a Bíblia, ao abordar o problema do sofrimento,  não oferece uma resposta como outras religiões oferecem, mas ler o desfecho de Jó dessa forma é deixar de lado seu sentido mais profundo e o verdadeiro chamado que Deus faz. No discurso de Deus é evidenciada a pouca percepção de Jó, ou seja, a incapacidade humana de enxergar o sentido exato de cada experiência que está  vivendo. Vale dizer que o fato de alguém ser cego não faz com que a luz não exista. Diante da limitação humana, o chamado de Deus a Jó (e a qualquer sofredor) é o seguinte: Confie em mim! Confie em mim mesmo quando parecer que você tem todos os motivos para fazer o contrário, afinal, Eu enxergo além do que você vê!

Diante desse chamado, imagino que alguns críticos poderiam dizer que tal postura é irracional, afinal ir contra os fatos  dificilmente é uma boa escolha. Acontece que a “esperança contra toda esperança” não é uma negação de um fato, mas o apoiar-se em um fato maior que  é o caráter de Deus. Deus é bom! Essa verdade deve ser o suporte da confiança mesmo nas caminhadas mais difíceis. É interessante ver como no dia a dia vemos os grandes efeitos dessa postura na vida daqueles que resolveram adotá-la. Como é inspirador encontrar pessoas que sorriem mesmo diante de situação difíceis, ou ainda pessoas que mesmo chorando não perdem a fé e confiança. Nessas pessoas vemos dor e sofrimento, nunca desespero.

Para encerrar quero frisar um ponto pouco falado sobre a história de Jó. Em determinado momento de sua história esse habitante da terra Hus perde tudo. Diz o texto bíblico que seus bens, seus filhos e sua saúde foram tirados pelo demônio. Há no entanto, algo que Jó não perde: seus amigos! Eles, ao ouvirem sobre suas dores, viajam de longe para encontrá-lo e passam vários dias em silêncio ao seu lado. Quando abrem a boca não são muito sábios em suas palavras, mas não se distanciam daquele a quem um dia ofertaram a amizade.

Resumindo: nem o demônio conseque tirar de nós aqueles que são amigos verdadeiros.

Alessandro Garcia
Mestre em Sociologia - Coordenador da Oficina de Valores

3 comentários:

Roberto Wagner Lima Nogueira disse...

O sofrimento é indizível, porém, assim como Jó, você o disse, parabéns!

Joyce disse...

e que palestra!!! parabens, foi excelente... incluindo o texto. abs!

ÉFFETA disse...

O Sofrimento tem origem etimológico no verbo Patior do grego , o que também significa paciência. Falo não teóricamente , mais diante dessa experiência de termos um filho a quase 2 anos com uma doênça progressiva e fatal , e diante desse fato , de tudo que viemos vivênciando posso testemunhar que tal dor e angústias até mesmo depressão , só nos uniu mais a Deus e a nossa missão de evangelizar, Parabéns pela iniciativa do texto. DEUS abençõe a Oficina de Valores( Marcio Gamboa)

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