Um dia desses passei a tarde vendo o filme 127 horas com a minha mãe.  Baseado em fatos reais, mostra a vida de Aron, que passa por inúmeras dificuldades devido a um incidente que acontece com ele no Grand Canyon - EUA. O acidente acontece quando ele estava caminhando em busca de aventuras diferentes. Até que ele cai dentro de um estreitamento, onde uma pedra pesada rola e prende o seu braço. Impossibilitado de sair do local ele fica preso tentando sobreviver por 5 dias, com pouca água e nenhuma comida. Nesse período ele passará por falta de lucidez, tendo várias ilusões com comida, água, além de se arrepender muitas vezes por não ter vivido a vida conforme deveria: dando valor às coisas mais importantes.

Fiquei com um questionamento depois do filme. A minha mãe estava em casa dizendo o que foi importante no filme para ela: “Filho, o mais importante foi...”. Então ela começou a citar inúmeras coisas que chamaram sua atenção no filme. E ela me retornou a questão que na hora eu fiz sobre dar valor às coisas que são importantes, etc. Mas uma coisa que surgiu na minha cabeça como pergunta foi: o que poderia ter acontecido para que Aron buscasse aventuras radicais dentro do Canyon? E a primeira coisa que me veio à mente foi tédio. Esse sentimento em que a falta de excitação, a falta de coisas atraentes para fazer, e a própria rotina são as marcas principais da vida de alguém. Normamente os sintomas associados a ele são frustração, vazio de uma vida que não tem nenhum motivo pelo qual lutar. E assim como observei em Aron, não diria que somos tão diferentes; passamos pela mesma situação no nosso cotidiano e damos sempre respostas a esse tédio, mesmo não pensando nisso. E tais respostas podem nos jogar para o lugar onde queremos ou não estar, tudo dependendo das nossas escolhas. E foi o que aconteceu com o protagonista. Ele, preso, começou a lembrar dos erros do passado e quase no final do filme ele afirma: ”Eu caí nessa fenda, eu caí aqui sim, porque toda a minha vida [erros e acertos] eu direcionei para esse local, tudo na minha vida me conduziu para estar nesse estado, onde a minha mão está presa embaixo de uma pedra”. 

Sabemos que não é tão fácil assim sair do tédio. Às vezes vamos tentando encontrar coisas mais interessantes para fazer na vida e, por falta de opções, a pessoa acaba por cair naquilo que denominamos “mesmice”.  Ou a pessoa acredita que a vida em si mesma é tediosa, e todo o seu “fazer” a faz pensar que culminará no  tédio. Pode ser o caso da pessoa, por exemplo, que tentou de várias maneiras encontrar a felicidade em vários caminhos (drogas, sexualidade desregrada, perder tempo na internet o dia inteiro, e outros) e por fim não encontrou nada verdadeiramente motivacional ou algo que trouxesse  novidade e, por esse motivo, a pessoa cria a ideia de que essa vida é e sempre será tediosa e nunca mais tenta procurar uma resposta. Só que a vida continua pedindo solução a essa frustração, solução essa que é o único alimento que mata a “fome” desse sentimento de tédio. É como se a vida dessas pessoas que procuram tal resposta fossem diferentes da vida daquelas que tem um “para que”, um motivo pelo qual viver.

Um caminho que é interessante para pensarmos em saídas é tentar levar a sério as questões importantes, agindo como se elas fossem relevantes para nós, e tentar também escutar e atender a nossa voz interior que pede uma vida que clama por sentido. Porque o que marca o tédio da vida são os erros que eu cometo. Uma vez perguntaram a Chesterton: “O que há de errado com o mundo?” E ele afirma: “Sou eu”. Será que você não é o motivo do seu tédio?

Diego Macedo
Estudante de Psicologia - Oficina de Valores

2 comentários:

Breno disse...

Muito bom...

Anderson Dideco disse...

O catolicismo me ajudou a enxergar o cotidiano de um modo, ao mesmo tempo, lúcido e lúdico; lúcido, pq não se vive na ilusão, num mundo de fantasia ou ficção, mas se aprende a encarar a realidade sem medo de enfrentá-la e, quando possível, modificá-la; mas tb lúdico, pq é preciso perceber a beleza que há por trás das coisas mais corriqueiras da nossa vida, a poesia oculta em cada uma delas, e compreender que estas são as únicas q temos de fato, e as que realmente valem a pena. Cacos de um mosaico - se me faço entender. Um chá de "Adélia Prado" (poetisa mineira - e católica) talvez nos ajude a superar esse mal contemporâneo, o tédio.

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