Casa em que só há um banheiro é sempre cenário para ocorrências tragicômicas, é ou não é? Hoje, meus irmãos (que saem pro trabalho geralmente em horários diferentes) coincidiram no momento crucial de se arrumarem para a lida: o irmão despertou na exata hora em que a irmã terminava seu banho e deixava o disputado cômodo – com intenção de, no entanto, retornar logo em seguida, para outras providências higiênicas. A careta que esta fez ao vê-lo adentrar o recinto de que acabava de sair me deu motivo de riso. Ela, porém, a irmã, não estava evidentemente achando a menor graça.

Situações como essas ocorrem aos montes no nosso dia a dia, e dão-me sempre ocasião de pensar em como temos a pretensão de ‘controlar’ as coisas, as circunstâncias, as pessoas e – se fosse possível – até o tempo. Sofremos desta ‘presunção original’ de sermos como nossos próprios deusesem relação a tudo o que está ao nosso redor e que nos diz respeito (isso, sem considerar quando queremos dar conta do que só diz respeito ao outro!). Seria, talvez, atrevo-me a dizer, uma espécie de ‘TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) coletivo’ que ronda a existência de toda a sociedade contemporânea.

Tentarei exemplificar.


Lembro-me de meus tempos de teatro amador. Antes de entrar em cena, eu exercia todo um ritual (não sagrado, mas obrigatório e quase supersticioso) de preparação, que previa uma determinada ordem de atividades, e que incluíam a colocação da vestimenta, a maquiagem, e outras necessárias coisas que, se faltassem, me deixariam extremamente nervoso e... descontrolado. (Sim, eu já sofria de TOC, mas ainda não fora devidamente diagnosticado e medicado. Mas vocês verão que esse aspecto da questão nem vem ao caso para o que quero comentar.)

Para mal dos meus pecados (pensava eu então), o meu diretor era o extremo contrário de mim: desorganizado, jovem e impetuoso, entusiasmado e empolgado de uma maneira imprevista e até, de certo modo, inconsequente. Durante meu indispensável ritual, pedia-me para executar tarefas estapafúrdias e fora de propósito, relativas ao cenário ou outra qualquer necessidade técnica que, como é fácil prever, arruinavam meus propósitos de ‘controle’. Não quero crer que ele o fizesse de caso pensado, mas não houve uma vez em que seus pedidos ‘inadequados’ não viessem de encontro ao meu tão salutar intuito de manter-me em calma.

Pausa para risos, que hoje já posso dirigir a essas lembranças. Mas está claro que, na época, eram causa de desentendimentos ou, pelo menos, ‘maus bofes’ e caretas, como a que minha irmã dirigiu hoje cedo ao meu inocente irmão. E que eu, decerto, também manifestei contra o meu pobre diretor, que seguia (indiferente a meus arroubos) o seu ‘próprio’ ritual.

O que desejo salientar é que, um dia, fiz a seguinte descoberta: meu pretensioso empenho em me ‘autocontrolar’ só me tornava insensível. Nas (graças a Deus) poucas vezes em que consegui ser fiel à ordenada maneira de me preparar, meu personagem não ‘funcionou’ em cena, ficando apagado e ‘insosso’, sem o dinamismo vivo que exigia. Contrariamente, todas as vezes em que as interrupções desavisadas do diretor me ‘desestruturaram’, o personagem aparecia na peça, cheio de vigor e de graça. Acabei por concluir que minhas tentativas de ‘controle’ só me atrapalhavam, enquanto o que eu julgava ser ruim (o nervosismo, o imprevisível) era-me artisticamente benéfico.

Não tenho certeza se já aprendi, em definitivo, a lição. Sei que hoje, com alguns (muitos) anos a mais na cacunda e alguns (poucos) milímetros de remédios psiquiátricos por dia, posso olhar a vida com maior leveza – a tal, ‘insustentável’, segundo um autor aí. E posso recomendar: um bocado de ‘imprevisto’, na vida, não faz mal a ninguém.

Nem sempre vai ser possível sermos totalmente fiéis aos nossos propósitos – embora isso não queira dizer que devamos abandoná-los. Precisamos apenas nos perguntar se eles, de alguma maneira, podem estar camuflando um grande medo de enfrentar o imponderável das situações indesejadas que, volta e meia, nos atropelam. E se, aos nos ‘escondermos’ por detrás deles, não estaríamos correndo o risco (este, muito mais danoso) de não ‘darmos conta do recado’, quando finalmente entrarmos ‘em cena’ nas realidades que a vida nos propõe. De deixarmos nossas emoções ‘tão’ sob controle que a ‘transcendência’ não aconteça, compreendem?

Sei lá, são só proposições para nossa comum meditação. Só sei que meus dois irmãos conseguiram sair a tempo para seus respectivos trabalhos sem graves ‘escoriações’ ou maiores contratempos. No final, creio eu, sempre é assim, e sofremos ou nos aborrecemos à toa. Quem está no controle é (Ele sim!) Onipotente, Onipresente, Onisciente. É como sempre (hoje em dia) digo: não se afobem que Deus dá conta.
Anderson Dideco
Colaborador do blog - Pastoral da Comunicação - Paróquia de cascatinha

3 comentários:

Juliana Benevides disse...

Bom dia Anderson!

Venho dizer que seu texto me causou identificação! rs Viver em "comunidade" não é nada fácil não é? Hoje pela manhã ja passei por situações assim dentro de casa - que bom foi ver que o texto do blog foi sobre isso!rs - Começarei o dia, com certeza, melhor do que antes! rsrrs
Um abç

Alessandro Garcia disse...

Bem banca Anderson. Gosto das suas reflexões. Este tema do imprevisto e do indesejado é uma coisa que penso muito. Faço muitas coisas e normalmente fico tenso por não fazer o que gostaria...

Valeu pelas palavras.

Giovanna disse...

Olá, Anderson!
Achei bem legal seu texto. E assim como a Juliana, também me identifiquei muito. É muito difícil lidar com essas situações, principalmente quando se tornam "rotineiras". Você acabar por se estressar mesmo. E a questão de não acontecer como planejamos me rodeia o tempo todo, o que me traz muito aborrecimento, quase todos os dias. Gosto também de manter tudo organizado e quando não ocorre da determinada maneira, principalmente por causa de alguém (que se atrasa ou qualquer coisa do tipo), já é motivo para se formar uma nuvem bem cinza em cima da cabeça. Trouxe-me uma ótima reflexão, obrigada!

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