Falar do martírio sofrido pelos cristãos no continente europeu pode soar estranho, pois o referido continente é cristão. A título de citação pensemos em dois casos: São Thomas Becket e o de São Thomas Morus, ambos ingleses. O primeiro, Thomas Becket (1118 –1170) foi Arcebispo de Cantuária (1162 - 1170) e tem uma belíssima história. Era um homem mundano e de pouca retidão, amigo pessoal e parceiro das aventuras do rei, Henrique II da Inglaterra que o faz Arcebispo de Cantuária. De um homem mundano passa a representar com fidelidade o cargo para o qual foi eleito em uma manobra política e assim, decide viver de acordo com os preceitos religiosos. Em dado momento entra em conflito por causa dos direitos e privilégios da Igreja contra o rei e é assassinado
por seguidores do rei na Catedral de Cantuária. O segundo caso, São Thomas Morus (1478 -1535), que exerceu o cargo de Lord Chanceler (1529-15232) foi condenado à morte por se negar a reconhecer Henrique VIII como chefe da Igreja da Inglaterra. São Thomas é considerado um modelo de fidelidade à Igreja e à própria consciência, e deve ser considerado como um exemplo de homem que lutou contra o poder quando esse é arbitrário.

Do outro lado do Canal da Mancha um verdadeiro genocídio ocorreu durante a Revolução Francesa em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Uma deliberada perseguição aos católicos, a partir de 1789 com ascensão dos revoltosos da Revolução, foram tomados como inimigos e massacrados. Um dos casos mais aterrorizantes fica a cargo das Carmelitas de Compiègne, que foi retratado de forma magistral no livro A Última ao Cadafalso de Gertrud von le Fort que narra a história do martírio de 16 monjas Carmelitas, vítimas da Revolução, no ano de 1794. Antes de serem executadas ajoelharam-se e cantaram o hino Veni Creator, e depois renovaram em voz alta os seus compromissos do batismo e os votos religiosos:

“Durante o processo ouviu-se a condenação: "À morte por fanatismo". E uma, na sua simplicidade, perguntou: — "Senhor Juiz, se faz favor, que quer dizer fanatismo?". Responde o juiz: — “É pertencerdes tolamente à religião". — "Oh, irmãs!" — disse então a religiosa — "ouvistes, condenam-nos pelo nosso apego à fé. Que felicidade morrer por Jesus Cristo!". Fizeram-nas sair da prisão da Conciergerie, meteram-nas na carreta fatal e elas, pelo caminho, foram cantando hinos religiosos; chegando ao palco da guilhotina, uma atrás doutra ajoelharam-se diante da Prioresa e renovaram o voto de obediência. Depois entoaram o "Veni Creator"; o canto foi-se tornando, porém, cada vez mais débil, à medida que iam caindo, uma a uma, na guilhotina, as cabeças das pobres irmãs. Ficou para o fim a Prioresa, Irmã Teresa de Santo Agostinho; e as suas últimas palavras foram estas: "O amor sempre vencerá, o amor tudo pode". Eis a palavra exacta: “não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode”.” (Ângelus de 24 de setembro de 1978 Papa João Paulo I).

Outro caso, digno de comentário foi à perseguição aos católicos na região da Vendéia (França). Sob os auspícios da Constituição Civil do Clero os habitantes dessa região perdem seus párocos e têm suas paróquias supressas. Tal atitude do governo revolucionário não leva em consideração os aspectos peculiares da região e em um primeiro momento a reação dos moradores é feita por meio de petições e processos judiciais. A origem do conflito tem ligação com a questão religiosa. Ainda que o estopim para a Guerra seja o decreto da Convenção que ordenava o recrutamento imediato de 300.000 homens, dias depois, os habitantes da região estavam sob a bandeira da religião e em direção ao conflito. Não podemos esquecer que o referido exército também lutava sob a alcunha de representante da realeza. Os relatos mais concretos versam sobre a ideia de que não há de verdade a priori um amor para com o rei, parece oportuno tal viva ao rei. Os relatos concretos tendem a representar a religião como motim da revolta.

Sobre o comando do general Louis-Marie Turreau as tropas receberam ordens para aniquilar os vendeianos fossem eles mulheres, crianças, religiosos e leigos. Além das mortes, as fazendas, igrejas e propriedades foram incendiadas e/ou destruídas. Em Nantes, as execuções eram feitas por afogamentos em massa, os chamados “noyades”: não havia distinção nenhuma, crianças, mulheres, idosos, e homens nus eram amarrados em barcas que eram levadas até o meio do Rio Loire e então postas a pique! Isso ocorreu sob o comando de Jean-Baptiste Carrier.

Ao fim e ao cabo depois que o general francês François Joseph Westermann passou sobre Vendeia ficou o vazio, uma terra arrasada e durante muito tempo circulou uma suporta carta enviada para o Comitê de Salvação Pública ao fim do conflito declarando: “Não há mais Vendéia… De acordo com vossas ordens, esmaguei as crianças debaixo das patas dos cavalos, massacrei as mulheres que nunca mais darão à luz bandidos. Eu não tenho um só prisioneiro que possa me recriminar. Eu exterminei todos.”(Sobre o trecho citado parece não existir consenso se ele é ou não verdadeiro, citei-o porque ao fim o que vemos é a cena descrita na carta!)

Toda revolução deixa suas marcas sejam elas positivas ou negativas, a Revolução Francesa que marcou a ruptura entre o Mundo Moderno e Contemporâneo, que deixou em xeque o Antigo Regime, também deixou outra marca. O lema: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité), mais do que um símbolo representa a barbárie que o ser humano pode alcançar quando esse perde a dimensão espiritual que o caracteriza.

Marcos Levi
Historiador - Oficina de Valores

Filmes indicados:
Dialogo das Carmelitas 1960
Becket, o Favorito do Rei 1964
O Homem Que Não Vendeu Sua Alma. 1966

Alguns mártires da Revolução Francesa:
http://newsaints.faithweb.com/martyrs/MFR02.htm

Pedido relacionado à morte dos vendeianos como genocídio:



2 comentários:

Jean disse...

Ótimo Texto, Levi. Além da questão religiosa, que nos toca de maneira especial, podemos pensar sobre a complexidade da avaliação da Revolução Francesa para a História da humanidade. Em nossas aulas os alunos sentem-se movidos a ver a Revolução de 1789 como fato inequivocamente positivo para o progresso político e social de forma geral. Atrocidades, injustiças e abusos de autoridade em nome de uma luta "justa" acabam esquecidos no emaranhado de visões comemorativas dos movimentos que a constituíram.
Argumentos justos nem sempre constituem movimentos justos.
Abraço.

M.Levi disse...

E bem por aew mesmo Jean, acredito q podemos ir tb mostrar q ha História existem mais q o lado dos vencedores!!! Não é fácil, e tenho percebido cada vez mais isso, lutar na verdade remar cotra é muito complicado, nao sei pq as pessoas tem tanto medo de pensar, de se desarmar, nao sei mesmo, nao estou pedindo q compre minhas ideias, estou pedido q olhe pro outro lado do rio!!! Brigado demais pela comentário! Ab

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