Por: Alessandro Garcia
O Natal é uma data extraordinária. Acredito que a grande maioria reconheça isso. Tanto reconhecem que o comemoram. Penso, no entanto, que tal data não é comemorada o suficiente. Isso não significa que os sinais externos não estejam por aí, mas que a motivação interna, para muitos, já se foi. O Natal é uma festa cristã e o cristianismo
no mundo contemporâneo é percebido de forma nebulosa.

Chesterton tem uma ideia interessante sobre a relação entre o cristianismo e a sociedade moderna. Para este autor, o caráter extraordinário da fé cristã não é percebido no mundo atual porque este mundo não está nem próximo, nem distante o suficiente. Não está próximo o suficiente para ser tocado de maneira intensa por tal credo e não está a uma distância que permita que a fé seja vista como uma novidade. Amemos ou odiemos o cristianismo, o fato é que vivemos numa sociedade que foi formada a partir de sua influência e várias coisas que hoje, para nós, parecem banais, são apenas a rotinização de um extraordinário cuja origem foi esquecida.

Estamos às vésperas do Natal e julgo que chamar a atenção para a fantástica noite que iremos testemunhar seja algo importante. Por que esta noite, em especial, é diferente de todas as outras? Porque nela nasceu um Menino! Ou melhor, porque nela celebramos o fato de que um Menino nasceu. Qualquer pessoa que já tenha recebido um recém-nascido em sua casa sabe como a história de uma família é atingida por cada criança que chega. Todo bebê é a realização de uma promessa. Toda criança é um presente ao mundo e também alguém que recebe o mundo como presente.

No caso do Natal, no entanto há algo além. A criança que nasceu, de certa maneira, já era idosa, já existia desde antes que o mundo fosse. Pode-se até dizer que o mundo surgiu como uma de suas peraltices, uma peraltice muito séria, mas que ainda assim transparece a alegria de quem está se divertindo com o que faz. A criança que nasceu foi aquela que deu todas as crianças ao mundo e o mundo a todas as crianças.

Semana passada, aqui no blog, falamos bastante sobre Papai Noel. Eu mesmo afirmei que ele funciona como uma grande parábola. A grande diferença entre Papai Noel e o Menino, cujo nascimento celebramos, é que Papai Noel apenas nos dá presentes, já o Menino desceu do céu para brincar conosco. É um companheiro de brincadeiras e aventuras. E, acredito que todos saibam, mesmo os melhores brinquedos com o tempo perdem a graça quando não temos com quem brincar.

É claro que o Menino veio fazer outras coisas muito mais importantes: redimir cada ser humano, ensinar um novo caminho, levar a história à plenitude. Mas não podemos esquecer que Ele brincou. Brincou no playground que Ele próprio construiu para nós. Quando o menino cresceu e convocou os 12 amigos aos quais confiaria seus planos, diz o Evangelho que chamou tais pessoas para estar com Ele e não meramente para desempenhar uma tarefa. Como é fantástico acreditar que Deus aprecia tanto a companhia humana que se fez homem para estar conosco de uma maneira que só um humano poderia. É quando penso nisso que concordo com a antiga teologia franciscana da encarnação que afirma que ainda que o homem não tivesse feito a grande besteira do pecado original Deus se encarnaria.

Algo que muitos desconhecem é que há muita discussão acerca da data em que nasceu Jesus. Provavelmente não foi no dia 25 de dezembro. Já vi pessoas que quando descobriram isso ficaram decepcionadas. Para tais pessoas posso dizer que há pesquisas, como a do italiano Vittorio Messori, que afirmam que tal acontecimento pode ter ocorrido nesta data. No entanto, mesmo que a data convencional seja a real, os cristãos quando começaram a celebrar o Natal não sabiam disso. Havia um feriado em honra ao Deus do Sol. A Igreja cristianizou esta data ao celebrar o Natal neste dia.

Não conheço os meandros teológicos, nem o contexto histórico de tal decisão, mas celebro a escolha da data pelo simbolismo que carrega. Antes, as pessoas, no dia 25 de dezembro, festejavam o Sol, ou seja, a força que vence as trevas e o frio e faz com que os dias sempre sucedam as noites. Um planeta que não possuísse Sol seria algo parecido com um bloco de gelo sem vida. De alguma maneira, é o Sol que nos oferta todas as coisas vivas e sem Ele a vida não existiria.

Transformar o dia do Sol no Natal significa dizer que para além do Sol material há um Sol muito mais ardente e luminoso. E mais ainda: que este Sol armou sua tenda entre nós. Seu calor e sua luz nos tocaram e nos tocam. Sua presença comunica vida. O Sol material destrói a vida caso nos aproximemos por demais dele, o ”Sol” que se fez Menino mata a morte de todos aqueles que dele se aproximam.

Hoje nos acostumamos a ouvir falar desse Menino, cantamos até músicas em seu nome. Músicas que dizem aos pequenos sinos para baterem e que afirma que esta noite é feliz. Apesar disso, julgo que o Menino é bastante desconhecido. Desconhecido inclusive pelos que afirmam conhece-lo, mas que o colocam em esquemas ideológicos que reduzem a sua grandeza. Apesar disso tudo o Sol não se deixa conter e continua a nascer. Em uma parábola sobre este divino Garoto, C.S. Lewis disse: “Ele não é um leão domesticado”.

Outro ponto fantástico na celebração Natalina é que nela afirmarmos que Deus é uma pessoa. E pessoas nos surpreendem, não se enquadram em esquemas e nos cutucam mesmo quando não estamos prestando atenção. O Menino continua querendo brincar conosco porque saber que nosso tédio pós-moderno vem do fato de que esquecemos as melhores diversões. Diversões que só Ele pode proporcionar.

Ele nos cutuca, puxa a barra de nossas roupas. Diz para cada um de nós: “De novo!”. Este é um clamor para brincarmos de novo com Ele, não porque Ele seja mimado ou esteja chateado, mas simplesmente porque sabe que nossas vidas serão muito melhores e menos sisudas se estivermos em sua companhia.

Os cristãos ressignificaram uma antiga festa pagã e ao fazerem isso deram um significado maior a tal festa. Fico triste ao pensar que o mundo contemporâneo pode estar ressignificando uma antiga festa cristã e acabando com toda a alegria que tal celebração traz. Quando decidi escrever este texto, pensei em uma famosa música do pop rock nacional. Quero terminar trazendo um pequeno trecho desta canção e convido o leitor a interpretá-la a partir do Sol divino acerca do qual vez por outra tento balbuciar algumas palavras.

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,

Porque esperar
Se podemos começar
Tudo de novo?
Agora mesmo,

A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance,
O sol nasce pra todos,
Só não sabe quem não quer,

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só.



FELIZ NATAL A TODOS!

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores

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