Por: Levi
Homens vestidos de palhaços, pierrôs e arlequins correm com armas em punho atrás de um homem que ostenta uma coroa, manto vermelho e em uma das mãos carrega uma chave dourada! Os homens atiram, em lances acrobáticos o homem de manto consegue ir desviando-se das balas!

Por entre corredores estreitos, pulando lixeiras, e passando por baixos de varais de roupas íntimas, o homem de manto vermelho se desdobra para se desviar das latas e não pisar nos gatos; portas se abrem, janelas são levantadas, certo burburinho vai tomando conta dos becos nos primeiros raios de sol que tomam as ruas!

-Pare Rei Momo, devolva as chaves da cidade! Maldito!!!!

Esses gritos despertam os menos atentos que voltam seus olhares para a cena pouco peculiar.

Esbaforido, o agora Rei Momo sem titubear continua sua fuga cinematográfica, alcançando a calçada da rua de uma grande cidade!

Os palhaços, pierrôs e arlequins não cessam de atirar contra o Rei, a população assiste atônica à cena, alguns esfregam os olhos, se entreolham e não conseguem colocar em ordem os pensamentos.

Nesse momento o Rei Momo atravessa entre os carros e ônibus e, em uma jogada de sorte, o sinal se abre e a ferocidade dos motoristas não permite que os algozes consigam dar continuidade à perseguição; do outro lado da rua, uma porta se abre e o Rei é puxado vorazmente para dentro, tudo ficara encoberto pela fumaça dos escapamentos e pelas dezenas de caminhões e ônibus que seguem o fluxo.

Dentro da padaria “Mardi Gras”, rapidamente, o Rei é levado para os fundos da loja, por uma tensa atendente. No fundo da loja, um rapaz guia o Jovem Rei até uma porta que dá em uma rua onde um carro preto está de portas abertas.

O Jovem Rei é levado para dentro do carro.

- Vejo que conseguiu! - diz a voz que guia o carro.

Com movimentos rápidos e precisos o motorista vai se afastando da cidade.

Sorridente, o jovem Rei diz:

- Sim, meu caro Carnis Valles! Talvez não como o planejado. Espero que todo esse sacrifico valha a pena!

- Valerá, jovem Rei! Sem as chaves douradas não haverá essa festa profana e todos poderão viver verdadeiramente o que é o Carnaval!

- Como eu fui me meter nessa loucura? - esbraveja o jovem Rei Momo!

O motorista então se lembra do dia em que encontrou o Jovem Príncipe caído em uma sarjeta.

Naquele dia Carnis Valles levou o jovem para sua casa, pois seria vergonhoso que o herdeiro fosse visto em tal condição. Cuidou do ainda menino que, ferido, ao acordar perguntou o que fazia na casa de seu motorista.

- Eu encontrei você caído bêbado e todo sujo!

- Que maldição é essa Carnis Valles de que os membros da minha família são acometidos sempre quando se aproxima essa festa? - indaga o jovem.

- Meu jovem, isso tudo é porque vocês deixaram que se perdesse o verdadeiro sentido! Meu jovem Príncipe, está em suas mãos poder fazer com que esse período que se inicia seja uma preparação para a Quaresma!

- Eu quero mudar, o que devo fazer Carnis Valles?

- Você deve crescer em sabedoria e santidade! Vivendo cada etapa sadia da vida! Quando a hora chegar, eu o chamarei! - foram as palavras proferidas por Carnis Valles.

E anos depois, quando o Jovem Príncipe completou 30 anos e alcançou o título de Rei Momo, o plano foi acionado!

Centro da cidade, dia da entrega das Chaves da Cidade para o início das festas! Algumas horas antes de o jovem Rei entrar correndo na Padaria “Mardi Gras”.

É fevereiro, as ruas estão cheias, ondas de calor tomam o asfalto, as buzinas soam como gritos, as vozes se confundem, os tambores ressoam nos barrocões, faíscas retocam os últimos carros alegóricos, as fantasias penduradas em cabides pelas paredes, as passistas ensaiam os últimos movimentos, a coreografia está refinada!

Em um canto, com olhar perdido dentro de uma roupa real segurando uma chave dourada está o jovem Rei Momo; seu olhar está distante, parece fitar o além, de seu semblante tira-se uma preocupação qualquer.

O prefeito então passa a palavra para o Jovem Rei:

- Boa tarde, meus súditos! Melhor: boa tarde, súditos de um Rei Eterno. Hoje o dia que inicia é um dia em que a Graça pode tocar cada um de vocês, essa época que se aproxima não é o tempo dos exageros, é o tempo de se preparar, um tempo de despedida. Durante o período que virá, que é a Quaresma, devemos estar prontos para viver em oração, em que fazendo abstinências estejamos sempre preparados! Os excessos cometidos durante esse período deixam profundas marcas. Muitas cicatrizes são deixadas nesse período por relacionamentos imaturos, uso de drogas, excessos na bebida... Quantos erros são cometidos porque não há limites, muitos se perdem em um momento que deveria ser de profunda riqueza! Devemos no converter!

As palavras do jovem Rei iam tocando os corações de alguns, outros achavam graça, muitos não entendiam e alguns se enfureciam, entre eles, o Prefeito, que em um gesto simples mandou que seus seguranças, disfarçados de palhaços, pierrôs e arlequins, tomassem as chaves douradas do Jovem Rei e o retirassem do palco. Em um movimento friamente calculado, o Jovem Rei derrubou os palhaços, pierrôs e arlequins! O povo riu! E ele começou a correr... e o resto da história a gente já contou!

Marcos Levi
Historiador - Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário