Por: Alessandro


O Big Brother Brasil está no ar. Durante alguns meses este programa será comentado, discutido e criticado nas rodas de conversa e nas redes sociais. Milhões de comentários serão feitos e paixões serão despertadas. De um lado temos os fãs do programa e do outro seus detratores. Estes últimos julgam que a audiência do programa é composta por uma plebe alienada; já os fãs rebatem dizendo que os críticos são pseudo-intelecutais que querem apenas aparecer.

Não costumo participar destes debates na internet simplesmente por não julgar o assunto interessante. Deixo claro desde o princípio que não gosto do programa, contudo não julgo que ficar debatendo com seus telespectadores seja uma atividade empolgante. Resolvi, no entanto, abrir uma exceção à minha postura de deixar de lado e escrever alguns comentários.

Não me considero um intelectual. Muito pelo contrário, amo a cultura Pop. Coleciono revistas em quadrinhos, acompanho séries televisivas e adoro desenhos animados. Não estou aqui para dizer, embora isso faça certo sentido, que o Big Brother não acrescenta nada. Não assumo a posição que os únicos programas interessantes são os jornais e que os únicos filmes importantes são documentários. Julgo o entretenimento e o lazer algo fundamental ao ser humano. Desde as cavernas inventamos jogos e contamos histórias. Também quero deixar claro que não acho alguém pouco inteligente ou “sem cultura” simplesmente por assistir o BBB.

Acontece que não consigo me divertir assistindo a disputa entre “brothers e sisters”. Eu tentei. Juro. Acompanhei a primeira edição do programa e assisti a outras “esporadicamente”. Acho que foi na quarta que desisti por completo. E olha que desistir do Big Brother pode significar ficar excluído das conversas no ambiente de trabalho/estudo e ser taxado de intelectualóide. Sendo bastante sincero, tenho dificuldades em entender como tal programa gera tanta audiência.

Sem querer generalizar, penso que grande parte do sucesso de programas com o formato do Big Brother deve-se à geração de uma falsa esperança. Acredito que diversas pessoas que assistem ao programam projetam-se nos participantes. Anônimos são lançados às raias da fama e da fortuna da noite para o dia. E o mais extraordinário é: Poderia ser eu! Poderia ser você.

O título da atração faz referência a um livro genial de George Orwell, 1984. Acredito que diversos paralelos já tenham sido feitos com o “Grande Irmão” que a tudo e a todos observa. Penso que há outro elemento do livro que pode ser comparado ao programa que tantos assistem: a loteria! No livro de Orwell, grande parte das pessoas vive uma vida miserável, mas carregam a esperança que do dia para noite, talvez, tudo possa mudar. Penso que este grande talvez ilusório seja parte do segredo do sucesso de tal programa.

Outra característica do BBB que julgo importante para a geração de “Ibope” para o programa é que ele é de fácil acesso. Perdeu o episódio anterior? Não tem problema, afinal não há um enredo a ser seguido. Além disso, pequenos resumos dizem sempre quem são os fofoqueiros e quais casais estão se formando.

Talvez existam aqueles que curtam o Big Brother por julgarem que tal programa realmente narre o cotidiano de pessoas comuns trancafiadas. Estes talvez enxerguem o BBB como uma comédia de costumes e um laboratório social. Não penso que assim seja. A situação criada é completamente artificial e o perfil dos participantes é selecionado a dedo. Percebam que entra edição, sai edição os participantes e as posturas do “Brothers” continuam muito parecidas. Não vemos pessoas com bandeiras religiosas, políticas, morais ou estéticas. Pelas edições anteriores dá para saber o que esperar das próximas cem.

As razões que apresentei são apenas algumas que me fazem não curtir tanto o programa tão amado por milhões. Há, no entanto, uma outra, a principal, que até agora não revelei. O Big Brother vai contra os meus valores. Penso que dificilmente alguém que acredite na igualdade entre todos os seres humanos gostaria, por exemplo, de um programa que promovesse o racismo. Por mais que fosse bem produzida, tal atração simplesmente não teria graça. Minha reação ao Big Brother possui raízes semelhantes.

Embora faça muito tempo que não assisto o BBB, algumas características intrínsecas ao programa muito me incomodam. A primeira é que a vitória é consequência da eliminação do outro. Claro que em boa parte dos esportes e jogos um sai vencedor. Nestes casos, no entanto, a lógica é diferente. No Big Brother não me parece haver mérito em jogo, ou mesmo um jogo. Vejo apenas uma disputa por despojos ou uma luta na qual não há irmãos de armas e onde o individualismo egoísta reina. Alianças são temporárias e, em última instância, todos são rivais.

O livro, convertido em filme, Jogos Vorazes apresenta um extremo de tal visão de mundo. Os Jogos Vorazes do título nada mais são que um reality show onde o campeão é aquele que conseguir sair vivo. Ou seja, por mais que alguém seja seu amigo, em última instância ele irá matá-lo para atingir o objetivo da fama e do dinheiro. Claro que o filme é uma caricatura, mas penso que explora bem a triste lógica do “só pode haver um”.

O “vale tudo” me incomoda muito também. Como exemplo, lembro dos casais que são formados simplesmente porque os participantes sabem que isso aumenta as chances de permanência na “casa mais vigiada do Brasil”.

O que acima de tudo me incomoda no BBB é a mensagem de que tudo tem um preço. Penso que a intimidade de uma pessoa é um de seus bens mais sagrados. Deve ser insuportável ir ao banheiro sabendo-se filmado, por exemplo. Penso em como deve ser cantar errado uma música e ter a consciência que será tido como chacota. Tudo isso, entretanto, é feito pela possibilidade de tornar-se rico. Qual o preço da tua intimidade? Parece que, para muitos, gira em torno de 1,5 milhão de reais.

Não poderia encerrar este texto sem contar o caso de uma senhora muito simpática que conheço há alguns anos. Essa senhora, certa vez, pagou o “pay per view” do Big Brother. Em uma tarde, sentou em sua sala para ver o programa e passou quarenta minutos vendo um homem deitado parado. Neste tempo ela ficou esperando para ver o que aconteceria, se algo seria mostrado. Por fim, ela percebeu que o sinal estava com um problema e que a imagem havia ficado congelada. Penso que este caso real serve com uma metáfora para vida de muitos que ligam a TV em uma emissora e assistem um programa por pura inércia, sem realmente gostarem dele ou terem uma real diversão assistindo.

Bom, disse o que gostaria de dizer. Volto agora para minha habitual postura de silêncio sobre o Big Brother. Julgo haver coisas mais interessantes para fazer.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores  

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