Por: Moco

Quem nunca teve um amigo em um determinado momento da vida? A experiência de amizade normalmente se inicia com os familiares na infância, é ampliada com os coleguinhas de escola e os companheiros de brincadeira e se encaminha para a adolescência e fase adulta, como uma consequência do fato de certos interesses serem compartilhados, ou meramente graças a uma identificação. Se você não tem pelo menos um amigo que
representa cada uma dessas etapas, garanto que, sem muito esforço, você é capaz de se recordar de algum amigo feito em ao menos uma delas.

O motivo de trazer à tona uma reflexão sobre este assunto é que, por mais que a amizade seja uma experiência tão bela, às vezes ela é colocada em segundo plano diante dos nossos compromissos e afazeres. Nos dias de hoje, com a popularização das ‘redes sociais’, parece que o que mais importa é ter uma grande quantidade de amigos: quanto mais “amigos”, mais popularidade e quanto mais popularidade, melhor. Mas será mesmo que essa lógica faz sentido? O que significa, de fato, ter amigos? E mais importante ainda: o que é ser amigo? Vejamos algumas características essenciais da amizade que talvez nos ajudem a encontrarmos respostas para estas questões, e também algumas sugestões práticas que podem ser úteis para a construção de nossas amizades no dia-a-dia.

“Nem tudo que reluz é ouro”

Ao longo de nossa vida, conheceremos uma infinidade de pessoas. Muitas delas se aproximarão de nós, mas poucas, poucas mesmo, se tornarão de fato nossas amigas. A todo o tempo estamos desempenhando papéis: o papel de profissionais, estudantes e tantos outros que decorrem dos nossos dons ou de outras ocupações que temos. Isso significa que na maior parte do tempo as pessoas se relacionam com o que fazemos e não com o que somos, e isso é natural. No caso de um músico talentoso, por exemplo, muitas pessoas certamente o admiram por seu talento e suas capacidades, e se aproximam para usufruir do seu dom. Mas e se aparecer outro músico que se destaque mais? Ou mesmo se, por algum motivo, ele tenha que interromper suas atividades musicais? Será que aqueles que se aproximaram dele apenas por admirarem a sua capacidade continuarão ao seu lado?

O que define a amizade é um convite a partilhar a vida! Mais do que se importar com o que o outro tem a oferecer, é importar-se com quem outro é. Fazer amigos é perceber, no meio de uma multidão, pessoas com as quais há uma identificação verdadeira e uma reciprocidade que nos dá a garantia de que ali encontramos um porto seguro.

Verdadeiros amigos nunca decepcionam, certo?

Errado! Se você nunca se decepcionou com um amigo, aguarde... sua hora vai chegar! Nós nos relacionamos com pessoas, e as pessoas — todas elas! — são lotadas de qualidades e defeitos. O que quer dizer que provavelmente, em algum momento, você vai ser vítima de alguma mentira, fofoca, traição, ou algo desse tipo, vindo por parte de pessoas que você confia.

Notem que não afirmo isso num tom pessimista. Pelo contrário: isso é reconfortante. Se na amizade não houvesse espaço para decepções, nós não poderíamos ter amigos. Não tanto porque seria difícil achar alguém que nunca nos decepcionasse , mas sim porque, em algum momento, nós mesmos acabaríamos por decepcionar os outros. Além disso, as decepções, por piores que sejam, trazem benefícios para os dois lados: para o que erra, a graça de encontrar a misericórdia presente no amigo que perdoa; para o que perdoa, a maravilha de ver que o amigo é maior do que o erro que cometeu.

Amigos precisam discordar

Esse ponto é fundamental! Temos a falsa sensação de que ser amigo é apoiar o outro em todas as decisões e tomar as suas dores sempre. Me lembro de uma comunidade do falecido Orkut que dizia: “Amigo que é amigo chega de voadora.

Em certo sentido, isso é verdade: os amigos devem apoiar-se e defender-se quando necessário, mas só quando a razão disser que sim. Do contrário, precisam discordar e corrigir-se! Apoiar o outro numa decisão que você não acha correta não faz de você amigo, mas um bobo que mima! A pedagogia da vida nos ensina que precisamos aprender a ouvir “não”, e quando isso não ocorre, nós simplesmente perdemos a noção dos limites. A mesma máxima aplica-se a amizade: quando não há repreensões, correções e chamadas de atenção, os limites são perdidos e os amigos passam a simplesmente alimentar os defeitos uns dos outros.

Procure seus amigos 


Diálogo comum de amigos que não se veem há algum tempo:

— Tá sumido hein?

— Você que está!

— Mas você não me procura mais!

— Você também não...

Isso acontece por um motivo simples: somos carentes por definição. Queremos ser lembrados e reconhecidos. Que sensação boa é aquela provocada pela chegada de uma mensagem de texto no celular, uma ligação recebida, a alegria de saber que alguém de quem gostamos esteve nos procurando... Quem não valoriza isso? Todos nós, e é justamente por isso que muitas vezes nós nos esquecemos de procurar nossos amigos. Não porque não nos lembramos deles, ou porque nos importamos pouco, mas porque no fundo, gostaríamos que eles nos procurassem! Só que eles passam pela mesma situação. Como quebrar o paradoxo? Procurando! Deu saudade? Não espere a ligação ou a mensagem no celular: ligue ou envie você mesmo! Está passando por um momento difícil e quer conversar? Não espere que te perguntem: chame alguém de confiança e partilhe!

A amizade precisa ser cultivada para permanecer viva, lembrando a simplicidade e a beleza descritas por Exupéry, em O Pequeno Príncipe: “Foi o tempo dedicado a tua rosa que a fez tão importante”.

“Quem encontrou um amigo, achou um tesouro”


C.S. Lewis diz que a amizade nasce quando temos aquela sensação de “O que? Você também? Pensei que eu fosse o único”. É encontrar no outro algo que acreditamos que deveria estar em nós. Justamente impulsionados por isso é que passamos a nutrir o desejo de estarmos próximos a esta pessoa. É como Aristóteles já identificava: dois amigos são uma só alma em dois corpos.

A amizade tende a ser menos valorizada por nós, pois não é um amor biológico como é, por exemplo, o Eros, que é a atração apaixonada entre o homem e a mulher. De fato, a amizade não é, assim como tantas outras coisas, necessária para a nossa sobrevivência. Ela é, porém, uma das coisas que dá valor a nossa sobrevivência! O livro do Eclesiástico diz que a amizade verdadeira é um remédio de vida e imortalidade. Quer viver bem? Tenha amigos e seja você também um bom amigo! 

Rodrigo Moco
Estudante de Psicologia - Coordenador da Ofcina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário