Por: Alessandro
imagem de: www.taringa.net

No pouco tempo de existência deste blog, já dediquei dois textos à obra de Roberto Bolaños. Em um refleti sobre uma famosa frase do Seu Madruga e no outro sobre um episódio de Chaves (clique aqui para ler os textos). Faltava um sobre sua segunda criação mais famosa, o Chapolin Colorado. Confesso minha predileção pela série do menino que dormia no barril. Em minha infância e início da adolescência a série do Polegar Vermelho funcionava como uma introdução de luxo. Muito boa, mas apenas preparava para o que vinha depois.
 
Com o passar dos anos, no entanto, acho que tenho feito mais justiça à série do herói atrapalhado. Faz muito tempo que não vejo um só capítulo, mas, vez por outra, lembro-me de sequências que julgo geniais. Chego a pensar que se voltar a assistir as duas séries, talvez minha ordem de preferência seja alterada.

Não pretendo hoje comparar os dois programas, nem elogiar um em detrimento do outro. Para que meu objetivo fique mais claro, vou contar como cheguei à ideia central deste texto. Como já disse outras vezes aqui no blog, amo histórias em quadrinhos. Gosto tanto que leio milhares de páginas por mês dos gêneros mais variados. Tenho, no entanto, um gosto especial por quadrinhos de super-heróis. Sei que soará infantil, mas considero as aventuras que li nos quadrinhos importantes para a formação de quem sou. Já li várias críticas às histórias de super-heróis, mas o que permanece no meu imaginário são personagens que buscam fazer o que é certo e aprendem que grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Recordo-me de uma situação quando, já adulto, vi algumas pessoas dizendo que roubavam revistas em quadrinhos do Super-homem na banca de jornal quando mais novos. Confesso que a criança dentro de mim reclamou. Mas como? Simplesmente não fazia sentido ser fã do Superman e roubar uma revista para ler suas histórias, afinal a lição passada pelo “Homem de Aço” é que todos devem viver de acordo com a verdade e a justiça.
 
Como várias pessoas sabem que gosto de quadrinhos, vez por outra alguém puxa assunto comigo dizendo o seguinte: “O herói que mais gosto é o Batman porque ele é o único que não tem superpoder. É o mais humano de todos!” Bom, o homem morcego não é único herói sem poderes, há diversos outros, mas não há como negar que ele é o mais famoso e que também é muito inspirador.

Bruce Wayne, o Batman, é um atleta de nível olímpico em diversas modalidades, é versado em várias ciências e um dos homens mais inteligentes do planeta. Isso sem falar no fato de que é o maior detetive do mundo. Batman é um símbolo do potencial humano. Fácil ver porque tem tantos fãs.

Esses dias, refletindo sobre questão da humanidade do Batman, pensei que ele, embora seja um grande símbolo de excelência, pode não ser o maior ícone de heroísmo. Explico: embora tenha vivido uma grande tragédia, Bruce Wayne possuiu todos os recursos para tonar-se um herói. Uma grande fortuna, um mordomo que fez as vezes de pai, os maiores mestres do mundo. Se Batman for o modelo de heroísmo, esse é acessível a poucos.

Coloquei-me a pensar em quem seria, dentre todos os heróis fantasiados, aquele que mais inspiraria o homem comum a ser herói. Rapidamente cheguei a uma conclusão estarrecedora. O maior exemplo de herói não é ninguém menos que o Chapolin Colorado. Mesmo que em dois ou três capítulos de sua série ele use as pastilhas encolhedoras e a corneta paralisadora, podemos dizer que, assim como o Batman, ele não tem superpoderes. Mas ao contrário do defensor de Gotham City, o Polegar Vermelho não simboliza a excelência dos seres humanos, mas seus limites. Para ter uma ideia clara desse ponto, basta lembrar da famosa abertura que, para apresentar o Chapolin, trazia os seguintes dizeres: “Mais ágil que uma tartaruga, mais forte que um rato, mais inteligente que um asno. Ele é o... Chapolin!”

Nosso desastrado herói não é dotado de grandes talentos. Não é um gênio, não é habilidoso e nem forte. Em vários episódios percebemos que ele é até um pouco covarde. Há, no entanto, algo que o Chapolin possui em alto grau: a capacidade de aparecer sempre que alguém clama por socorro. Oh, e agora, quem poderá me defender? – nunca em sua série essa pergunta, que no fundo é um pedido, ficou sem resposta.

Toda a obra de Roberto Bolaños é permeada de valores morais e religiosos. No caso do Chapolin, é desenhado um personagem que, apesar de todos os seus limites, recusa-se a ficar parado quando alguém necessita de ajuda. O Polegar Vermelho é alguém cheio de fraquezas, mas que não deixa que elas o impeçam de ser bom e fazer a diferença no mundo.

Nunca conheci ninguém que se identificasse com o Chapolin. Nele vemos o que temos de mais fraco e ridículo. Exatamente por isso, nele encontramos o maior símbolo de heroísmo. Nele a responsabilidade não é decorrência do poder. Ele simplesmente se importa. E, por se importar, faz tudo que lhe é possível para ajudar.
O Chapolin nos ensina que o heroísmo, mesmo que não seja algo fácil, é acessível a todos. Nele, nossos limites são exagerados para que fique claro que nenhum de nós tem desculpa. Ser herói não tem a ver com poder, mas com compromisso. Compromisso com os que necessitam de nós e com valores que não podemos negociar.

Ninguém é fraco demais para dizer que não há nada que possa fazer. Talvez o que venhamos a realizar não seja lá grande coisa, mas convém lembrar que a distância entre o nada e alguma coisa é absoluta. Cabe também não esquecer que o heroísmo não consiste em fazer coisas grandiosas, mas em não deixar de fazer aquilo que está ao nosso alcance. E, por mais que não pareça, isso é muito.

Quando o que fazemos parece fazer pouca diferença é importante lembrar do que sempre disse o Chapolin: Palma, palma, não priemos cânico! Grandes mudanças não ocorrem da noite para o dia e os heróis, mesmo os maiores entre eles, não vivem apenas de grandes feitos.

Admito que nunca havia visto o Chapolin como um personagem inspirador. Simpatizava com ele na infância sem saber porque. Hoje vejo que não era apenas por ele ser engraçado. Em sua ficção, Bolaños nos apresentou um dos maiores heróis e um grande exemplo. Só posso encerrar dizendo: Sigam-lhe os bons!

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia

Fundador da Oficina de Valores

2 comentários:

Juliana Benevides disse...

Maravilhoso!!! Rs
Grandiosidade nas pequenas coisas, fazer o que devemos fazer é o mais difícil e belo dos trabalhos.
Parabéns Alessandro, ótimo texto como sempre!

marcio valentin disse...

Magnífico texto.

Postar um comentário