Por: Rodrigo Moco



(Imagem: www.espaçointegracao.com.br)

No dia 02 de Abril comemora-se a data da conscientização mundial do Autismo. Curiosamente no dia 02 de Abril de 2012, sem sequer imaginar a importância da data, eu iniciava um estágio no qual eu recebi a incumbência de acompanhar um menino diagnosticado com Autismo.

 Atualmente o termo designado para tal é Transtorno do Espectro Autista (TEA) para englobar o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação. Não vou me ater a essas distinções, se houver interesse por parte dos leitores, posso fazer isso em outro texto posteriormente. A questão é:
para mim, tudo isso era uma grande novidade. Apesar de ter lido sobre o assunto durante os estudos na faculdade nunca havia convivido com a realidade da patologia. Daí surgiram alguns (muitos) desafios que me mostraram quanto o Autismo tinha a me ensinar. 

O primeiro desafio enfrentado foi a Inclusão. Muito se ouve falar em inclusão no nosso sistema educacional, mas pouco se sabe sobre o seu real objetivo. Incluir não é adaptar o aluno com necessidades especiais ao contexto escolar, mas adaptar todo o contexto escolar ao aluno com necessidades especiais. É ter a capacidade de lançar sobre a pessoa um olhar diferenciado e adentrar a realidade dela, oferecendo a ela, assim, melhores condições de aprendizagem e desenvolvimento. Enquanto a Inclusão não for isso, o trabalho realizado nas escolas será somente demagógico. 

O segundo desafio foi compreender o Autismo! O transtorno é marcado por três características fundamentais: inabilidade para interagir socialmente, dificuldade no domínio da linguagem para comunicar-se ou lidar com jogos simbólicos, padrão de comportamento restritivo e repetitivo. Dentre as muitas definições a respeito, uma foi a que mais me marcou, um autor diz que: "o Autismo representa uma cegueira mental, na qual o autista se torna incapaz de enxergar os conteúdos presentes na própria mente e também os conteúdos externos, nesse caso recebido de outras pessoas. Fazendo assim com que ele viva num universo muito particular”. 

O terceiro e maior desafio foi compreender o Autista! O Autismo é predominante em homens; embora haja casos de meninas diagnosticadas com a patologia, a incidência entre os homens é muito maior, e é carcaterístico do transtorno manifestar-se de forma subjetiva, o que significa que não existem dois autistas iguais. Em cada pessoa o autismo se manifesta de uma forma diferente, e isso nos mostra o quanto estamos longe de reduzir o ser humano a teorias. No caso que acompanhei, algumas características foram por mim observadas: 1 – O mundo externo para eles é ameaçador, lidar com as pessoas é perigoso, sair da zona de segurança é arriscado. Por isso os padrões repetitivos, qualquer mudança gera medo; 2 – Postura egocêntrica - o outro é um meio para alcançar o que eu quero. Esse ponto é interessante. O autista, em alguns casos, não consegue enxergar o outro como uma pessoa, mas simplesmente como um objeto. No meu caso, o garoto que eu acompanhava nunca me olhava ou se voltava para mim, exceto quando ele precisava de algum objeto que estava no alto e que ele dependia de mim para alcançar; 3 – O autista não se comunica. A primeira vista pode parecer que é por falta de interesse, mas na verdade é por falta de habilidade. Ele não se comunica porque não sabe, e não simplesmente porque não quer. Para que um relacionamento seja estabelecido com um autista é necessário conhecê-lo bem e procurar estabelecer uma nova forma de comunicação.

Posso dizer que aprendi muito com o estágio. Depois tive a oportunidade de trabalhar com outro autista com características completamente diferentes das do primeiro. Novamente enfrentei desafios, desta vez de outras ordens, e continuei a crescer com a experiência. Os trabalhos frutificaram e com as limitações que tínhamos nos trabalhos com os dois casos houve avanço, houve melhora. Mas o ponto em que quero tocar no texto de hoje, que é o que julgo interessante para o grande público, é que nós todos sofremos de autismo.

Declaração polêmica, porém não menos verdadeira por isso. Pensemos nas características: Dificuldade em nos comunicarmos, fechamento a mudanças porque consideramos o mundo ameaçador, enxergar o outro somente como objetos para a realização das nossas vontades. A nossa sociedade atual padece do que podemos chamar “Autismo existencial”.

Quais são os nossos desafios para combatermos esse mal? O primeiro é sem dúvidas reconhecermos que há muito não nos comunicamos, não interagimos; e não é simplesmente porque não queremos, mas porque perdemos a habilidade, e aquisição de habilidades requer treino, requer dedicação. Retomar os diálogos e estabelecer formas de comunicação é fundamental para que possamos nos relacionar bem, com menos desconfianças, menos julgamento e mais amor. O segundo é assumirmos que é preciso mudar, não dá para ficarmos presos nos nossos padrões fixos de comportamento tendo medo das mudanças. Viver é como andar de bicicleta: se parar, você cai. Repensar nossos hábitos e posturas é saudável até.  Reciclar-se é preciso, a vida pede isso. 

Por último, mas não menos importante (e esse eu julgo o principal ensinamento do Autismo): cada pessoa é única. Nada melhor (aqui entendemos o melhor não como algo bom, mas esclarecedor) do que uma patologia que se manifesta subjetivamente, ou seja, de uma forma diferente em cada pessoa, para nos lembrar de que cada pessoa é um universo muito particular. Reconheço com pesar que nos falta a capacidade de olhar para o outro e enxergar uma vida, perceber que quando tocamos alguém, tocamos uma história, cheia de alegrias, de conquistas, dor, lágrimas, segredos, sonhos e anseios. O outro é  mistério, um agradável mistério a ser explorado,  e nos contentamos em tratá-lo apenas como meio para alcançar o que queremos. É preciso ter interesse pelas pessoas, conhecê-las a fundo, saber quem são, olhar de uma forma diferenciada. O outro precisa desse olhar, nós precisamos desse olhar. A cura do Autismo, do nosso Autismo, passa por um caminho de sair da escuridão de si para encontrar-se à luz do outro. 


Rodrigo Moco
Estudante de Psicologia - Oficina de Valores 

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