Por: Alessandro


(Imagem de: www.donagiraffa.com)


Anos atrás, dava aulas de sociologia no Ensino Médio em algumas turmas nas quais só estudavam adultos. Uma das coisas mais legais em turmas assim é que a proximidade é quase instantânea, os vínculos se formam muito rápido. Em algumas aulas, é necessário botar freio no papo pelo risco de o conteúdo não ser dado. Em um destes
papos descobri que dava aulas para um casal que tinha quatro filhos e que voltou a estudar para mostrar para eles que a formação escolar era importante.

Certo dia, quando cheguei à escola, esse casal se aproximou de mim e contou o drama que estavam vivendo com um de seus filhos. A situação era mais ou menos a seguinte: os pais haviam sido chamados ao colégio do filho porque o garoto de 16 anos estava faltando muito. Eles foram surpreendidos com a informação e, quando foram investigar, descobriram que o rapaz faltava para ficar mais tempo com a nova namorada. Após certo tempo, o garoto saiu de casa e foi viver na casa da moça, que era alguns anos mais velha que ele.  Como se isso não fosse problema suficiente, a mãe da namorada criticava qualquer tentativa dos pais de fazer o filho voltar para casa e para a escola.

Os pais não deixaram de tentar e, em certo momento acionaram o conselho tutelar. Quando isso ocorreu, eles conseguiram pegar uma carta na qual o casal de namorados deixava claro que haviam feito um pacto de suicídio. Caso eles fossem separados, tirariam as próprias vidas.

Confesso que após ouvir a história fiquei bastante preocupado e, algum tempo depois, procurei meus alunos para perguntar como a situação havia se resolvido. O diálogo foi mais ou menos o seguinte:
- Como está a situação do filho de vocês?
- Graças a Deus, conseguimos trazer ele para casa.
- E a namorada?
- Acredita que ele já arranjou outra?

Não consegui deixar de rir da situação junto com eles , mas quando voltava caminhando para casa fiquei pensando em como o caso daquele casal de namorados representava, como uma espécie de “Romeu e Julieta Pós-moderno”, a situação do amor hoje. Os laços duram pouco, têm dificuldade em sobreviver ao tempo, mas são vividos como uma intensidade que beira a patologia.

Há diversos estudos interessantes sobre o amor contemporâneo. Penso rapidamente em Giddens, Bauman, Lipovetski e Luhman. Todos eles, embora por caminhos diferentes, parecem concordar que vivemos em uma era de laços frágeis, uma época que se opõe aos projetos amorosos que duram “até que a morte os separe”.  As relações são curtas, cada vez mais curtas. Há algum tempo li uma pesquisa que dizia que os relacionamentos afetivos entre adolescentes tem uma duração média de três meses. Para quem pensar que isto é algo típico dessa fase, cabe dizer que as estatísticas acerca da duração dos casamentos também não são muito animadoras.

Quando ampliamos a esfera dos relacionamentos para além dos namoros e casamentos, há também sinais de preocupação. Não é pequeno o número de pessoas cujas principais relações são virtuais e que, nos momentos em que ficam sem computador sentem o drama da falta de laços reais. Além disso, vários dos espaços de interação para as crianças somem cada vez mais depressa. Chegou o tempo em que a rua está deixando de ser o espaço de brincadeiras e que cada vez mais desaparecem os campinhos. As famílias estão cada vez menores e o tempo de convivência diminui. Os laços entre pais e filhos também estão um pouco precários. Há pouco tempo ouvi sobre um casal que durante a semana praticamente não via os filhos em virtude da correria do trabalho e que, no fim de semana, contratava uma babá para ficar com o garoto. Eles precisavam dormir até mais tarde e tinham outras ocupações.

Diante do quadro contemporâneo, a conclusão de muitos pensadores é que o amor se tornou impossível. Pelo menos o amor permanente e altruísta. O egoísmo venceu. Isso, é claro, não significa que mataremos uns aos outros e nem que desejamos mal para ninguém. Significa apenas que cada um busca tocar a vida tendo o próprio bem estar como meta principal e  que o outro, de alguma maneira, acaba sendo sempre percebido como um meio, não um fim em si. Isso faz  com que as relações sejam efêmeras, embora não desprovidas de intensidade. O caso dos namorados relatado acima fala bem disso: eram capazes de morrer em nome do amor, só não eram capazes de fazer com ele permanecesse. Tinha data de validade.

Não sou um profeta do apocalipse, mas ao mesmo tempo não consigo deixar de olhar os sinais dos tempos. Amar está mais difícil porque não somos educados para o amor, mas para uma espécie de egoísmo narcisista.  Este estilo de vida é vendido como o segredo da felicidade e uma grande libertação, mas é exatamente esta forma de viver que cada vez mais gera um mundo onde todos têm muitos contatos, mas cada vez menos relacionamentos. A sensação de solidão é absurda. Uma solidão que parece não ter remédio, a não ser algumas breves distrações.

Continuo achando o amor possível. Acho isso não porque os teóricos me disseram, mas porque ainda consigo vê-lo em muitos ao meu redor. Em uma esposa dedicada que cuida do esposo, em pais que se sacrificam pelos filhos, em amigos que provam cotidianamente que amizade é mais que farra. O amor é possível, mas é contracultural.

Pode parecer paradoxal afirmar a crise do amor quando as comédias românticas fazem tanto sucesso e as canções de amor tocam sem parar. O ponto é que nunca pararemos de falar sobre o amor, afinal necessitamos dele. Como um sedento em um deserto necessita de água, necessitamos que alguém nos perceba e nos diga “Tu” de uma maneira que nos permita perceber que significamos muito. O amor nunca deixará de ser pedido, mas pode deixar de ser ofertado. A crise do amor é de oferta, não de demanda. Não consigo pensar em ninguém que fale contra a fidelidade que alguém lhe oferece, mas conheço muitos que afirmam não ser necessário ofertar a fidelidade. É claro que a conta não fecha.

O amor é necessário. Não se reduz aos discursos. É vivo quando praticado.
O amor é uma força salvadora. Resgata da morte e promove a vida. Vence a solidão e fomenta companhia.
O amor gera sorrisos e faz rolar lágrimas. Promove abraços e a “puxões de orelha”.  Traz as maiores felicidades e grandes dores.

Dizem por aí que ele é impossível e eu, como já disse, discordo. Mas mesmo que essa fosse toda a verdade, desafiar o impossível nunca foi um problema para quem ama. Que assim seja comigo. Que assim seja com você.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Fundador da Oficina de Valores

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