Por: Larissa
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Começo por um lugar comum, mas que é uma grande verdade: vivemos num tempo cuja mentalidade reinante é cheia de conceitos distorcidos, ao mesmo tempo em que todo mundo sai por aí dando conselhos e erigindo como regras de vida a própria opinião, ou aquela que se ouviu por aí e achou “pra frente”. Uma dessas é aquela que diz que algo “não pode ser errado se te faz feliz, bem como não pode ser certo se te faz triste”.


Quando me foi proposto esse tema, vi perfeitamente essas palavras saindo da boca de Lord Henry, personagem de O retrato de Doryan Gray, de Oscar Wilde. Tal personagem, arauto de máximas que o que tem de sedutoras, o tem de macabras, dizia exatamente isso, só que com palavras mais sutis: “O prazer é o teste da Natureza, seu sinal de aprovação. Quando nos sentimos felizes sempre somos bons, mas quando somos bons nem sempre nos sentimos felizes”.

Bem, o que me proponho nesse texto é desafiar tal proposição e tentar imaginar o que seria de uma vida se seguisse tal máxima. (Para quem conhece a história, o fim já está anunciado...).

Primeiramente, tenho aprendido com um grande professor a tomar muito cuidado quando se aceita uma pergunta ou um debate, porque pode ser que a pergunta ou a proposição não possa ser respondida, simplesmente por estar formulada de maneira errada. Seria necessário antes corrigi-la para, enfim, respondê-la. Temos um aqui um excelente exemplo de tal caso. 

Vejamos: esse é um pensamento típico do hedonismo, doutrina segundo a qual o prazer é o maior bem que se deve buscar. Desacreditando-se da felicidade sob uma ótica transcendente, o fim da vida nada mais é que buscar o prazer. Junto a isso, vem crescendo cada vez mais uma incompreensão do verdadeiro papel da moralidade, sendo essa entendida como a - literalmente - “desmancha prazeres”, com suas proibições abusivas e desnecessárias e não mais como as balizas que ajudam no caminho para a felicidade.

Dito isso, creio que o grande problema de semelhante conselho é a distorção dos pares “felicidade”/ “tristeza” e “certo”/”errado”.  Ora, o que acontece aqui é exatamente uma pseudo-oposição entre moral e felicidade,  como se o critério para julgar uma ação fosse a sensação que ela causa. Ou seja, o certo e o errado estariam fundamentados no prazer e na dor. O que na prática conduziria a um relativismo selvagem, uma vez que não existiria nada além da minha vontade: certo seria aquilo que me apetece, uma vez que minha vontade está voltada para aquilo que me agrada.

Felizmente, embora muitos queiram viver de tal modo, as coisas não são bem assim, uma vez que existe algo chamado “natureza humana”; de acordo com essa, o certo e errado são muito mais que uma mera imposição feita por um grupo de pessoas ou determinada cultura - a natureza possui elementos que lhe são intrínsecos. Fazer o bem e evitar mal é mais natural que o buscar o prazer e fugir da dor. Essas realidades podem se misturar, mas não devem ser confundidas! Ser feliz é uma coisa, sentir prazer outra. A verdadeira realização está nas escolhas que se faz ao longo da vida. Escolher uma vida salpicada de bons momentos que nada custam é bem diferente de construir a felicidade.

No mais, o certo e errado não estão no meu gosto, mas naquilo que me faz mais humano, melhor, aquilo que corresponde ao que sou chamado a ser, o mais perfeito que me for possível. Se o certo estivesse no que apetece, que se diria de uma mãe que se levanta no meio da noite para alimentar seu filho pequeno ou de um pai que abandona sua família por um affair?? O bem traz consigo uma felicidade que está para além do prazer, bem como o erro causa uma tristeza que é muito mais angustiante que qualquer sacrifício ou esforço. Por isso, responderia ao Lord Henry que quando somos bons sempre nos sentimos felizes, mas uma felicidade que está para além do agradável.

Ser feliz dá trabalho, custa! A felicidade não é algo que se improvisa! O sacrifício não deve ser olhado com medo ou pessimismo, mas com bons olhos e muito garbo: se quero a felicidade, devo abraçar certas coisas e abrir mão de outras. Que poderia construir uma pessoa que só buscasse bons momentos? Provavelmente não poderia ter um estudo, uma profissão ou uma família bem sucedidos, uma vez que tais realidades são tanto mais custosas, quanto mais excelentes. Quanto mais alta a meta, maior é o custo! Pergunte a um verdadeiro atleta o que ele prefere: o descanso ou o prêmio? Porque atirar para todos os lados qualquer um faz, agora acertar o alvo é pra quem tem mira.

E aos rebeldes que veem no erro a alegria e no acerto um tédio, só me resta uma triste constatação: quem busca fazer da vida um mar de rosas, acaba por se afogar em um vale de lágrimas...


Larissa Nóbrega
Professora de Filosofia - Oficina de Valores

1 comentários:

Binho Kraus disse...

Bom, não tenho mais face, então tenho que comentar por aqui. hehehehe
Maravilhoso Larissa. Quando te propus este tema, já esperava um belo texto, mas você me surpreendeu mais uma vez. A abordagem foi certeira e as colocações precisas... quero destacar duas partes que pra mim foram centrais. No quinto parágrafo você diz: "esse é um pensamento típico do hedonismo, doutrina segundo a qual o prazer é o maior bem que se deve buscar. Desacreditando-se da felicidade sob uma ótica transcendente, o fim da vida nada mais é que buscar o prazer".

Depois, no penúltimo parágrafo, arremata: "Quanto mais alta a meta, maior é o custo! Pergunte a um verdadeiro atleta o que ele prefere: o descanso ou o prêmio? Porque atirar para todos os lados qualquer um faz, agora acertar o alvo é pra quem tem mira".

AS pessoas optam por um pensamento edonista por um modismo vigente nos dias de hoje, e se esquecem que essa postura é extremamente egoísta. Afinal o que "me dá prazer" pode ser a causa da tristeza de outros, mas dane-se, afinal eu to feliz! Só que esse é um jogo de dois lados... podemos ser vítimas da busca de prazer de outros, e sofrermos com isso também.

Formidável Larissa. Parabéns!!!!

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