Por: Alessandro
imagem de: www.arquidioceseolindarecife.org
É interessante perceber como más interpretações e ignorância costumam fazer as vezes dos fatos. Um simples notícia, ou comentário, quando cai nas graças da mídia e dos internautas ganha uma força tão grande que passa a constituir um dogma. Sempre que acompanho uma situação desse tipo, lembro-me da famosa passagem de “Admirável Mundo Novo” que diz que uma mentira repetida várias vezes torna-se uma verdade. Talvez Huxley tenha até exagerado, mas não é demais dizer que a repetição acaba por fazer com que informações falsas sejam tidas como obviedades.

Ao menos no Ocidente, a instituição que mais sofre com a desinformação é a Igreja Católica. Creio que esta não seja uma afirmação apologética, mas a constatação de um fato. Vez por outra, algum jornalista lança uma bomba que se for vista de perto não tem capacidade de explodir, mas que acaba fazendo muito barulho. Isso para não falar dos cem milhões de blogueiros e comentaristas de internet que não se cansam de elaborar pseudo-análises. Nada contra os blogueiros, afinal eu também sou um, mas contra a falta de critério acerca de certos comentários que dificilmente são desmentidos, mesmo quando claramente absurdos.

A última vítima de tal sensacionalismo é o Papa Francisco, eleito como o grande revolucionário da vez. Não que ele não tenha gestos simbolicamente fortes e não esteja tomando decisões muito importantes, mas não há no Papa nenhuma intenção em modernizar a Igreja às custas da identidade da mesma. Seguindo os passos do santo de quem tomou o nome, o desejo é sempre reconstruir, nunca demolir.

O atual Papa sofre em virtude da mesma onda de desinformação e más interpretações que tanta dor de cabeça deu a seu antecessor. Cada declaração de Bento XVI era colocada fora de contexto e fazia-se questão de dizer que ele era um inquisidor e um retrógrado, quando na realidade foi um Papa aberto ao diálogo, mas que julgava que para conversar com o outro não é necessário abrir mão de quem se é.  Com Francisco, embora a atitude seja mais benevolente, o pano de fundo é o mesmo. Resumindo: Bento XVI era criticado por motivos falsos e Francisco é elogiado pelos mesmos falsos motivos. 

Francisco merece muitos aplausos, mas por suas atitudes reais, não pelas imaginadas. Está na moda dizer que o atual Papa é contra tudo o que  a Igreja pensa e que, maquiavelicamente, vai traçando um plano para modificar a instituição multimilenar. Supostamente ele não declara suas intenções por causa dos ultraconversadores que estão sempre a atrapalhar o progresso. Embora tal história dê um enredo interessante para um filme, está bastante longe da verdade. Basta olhar a bela trajetória do Cardeal Bergoglio na Argentina para saber que o Papa Fransciso não possui uma crença diferente daquela expressa no credo da Igreja.

Dito isso, meu desejo é  tecer algumas palavras a respeito de uma declaração do Papa Francisco e os subsequentes comentários feitos sobre ela. Circulou pela internet matérias que possuíam mais ou menos os seguintes títulos: “Papa Francisco diz que ateus não vão para o inferno” ou “Vaticano contraria Papa e diz que ateus continuam indo para o inferno”. Confesso que ao ler tais manchetes ri um pouco. Pensei: parece coisa do jornal “Meia Hora”. Injustiça minha. As chamadas do jornal carioca são ao menos mais criativas.

Vamos ao que de fato aconteceu. Em uma homilia o Papa disse o seguinte:

“O Senhor redimiu todos nós, todos nós, com o Sangue de Cristo: todos nós, não apenas os católicos. Todo mundo! ‘Pai, e os ateus?’ Mesmo os ateus. Todo mundo!

“Fomos criados filhos à semelhança de Deus e o sangue de Cristo redimiu todos nós! E todos nós temos o dever de fazer o bem. E este mandamento, para que todos possam fazer o bem, eu acho, é um belo caminho para a paz. Se nós, cada um fazendo a sua parte, se fazemos o bem para os outros, se nos encontrarmos lá, fazendo o bem, e ir devagar, com cuidado, pouco a pouco, nós faremos a cultura do encontro: precisamos muito disso. Devemos conhecer um ao outro fazendo o bem. ‘Mas eu não acredito, Pai, eu sou ateu!’ Mas faça o bem: vamos nos encontrar lá”.

Confesso que não entendo porque tais palavras geraram tamanho reboliço, uma vez que não há nada nelas que fira a tão criticada ortodoxia católica. O Papa disse que ateus podem ir para o céu? Sim, disse. Disse que ação de Jesus Cristo tocou inclusive aqueles que não creem nele? Sim, disse. Disse que ateus e cristãos encontram-se na prática do bem? Com certeza. Agora, ele disse que a Igreja e inútil e que tanto faz ser ateu ou cristão? Não, não disse. 

Para entender melhor o que o Papa disse basta ter uma pequena compreensão da doutrina católica. Para os católicos, a fé é importante para a salvação na medida em que um mapa (ou GPS) é importante para sabermos os caminhos em uma região que não conhecemos. E não apenas isso, a fé põe o homem em relação com Deus e, é claro, essa relação é fundamental. Isso não significa, no entanto que todos os que não creem serão jogados na danação eterna. Uma pessoa pode não crer por diversos motivos: porque não conhece, porque teve experiências ruins com cristãos, porque não consegue enxergar verdade naquilo que é proposto. Deus seria muito injusto se simplesmente rejeitasse tais pessoas. No caso daqueles que não creem por motivos invencíveis, qual o caminho da salvação? O Papa colocou muito acertadamente: a prática do bem. Ou em outras palavras: a vivência do amor e a busca sincera da verdade.

Reconheço que a doutrina cristã do inferno fere muito a sensibilidade moderna. C.S. Lewis chegou a dizer que se pudesse a arrancaria do cristianismo. Não podia, no entanto. Penso, contudo, que grande parte da revolta se dá pela falta de compreensão do que a Igreja afirma nesse caso. O inferno não é a marca da ira de Deus, mas de seu respeito. Para a fé cristã, Deus criou o homem livre e, ao fazer isso,  correu o risco de que este o negasse. O inferno é este grande “não quero você”. Um não que o criador humildemente respeita, mesmo desejando que a coisa fosse de outra maneira. No inferno Deus não pune, Deus faz falta.

Dizer que um ateu, ou uma um pessoa que creia em uma coisa diferente da fé cristã, pode ir para céu significa simplesmente dizer que uma pessoa pode dizer uma espécie de sim inconsciente a Deus, mesmo que não tenha conhecimento daquilo que os cristãos chamam de revelação. Vale lembrar que conhecimento, em hebraico, tem uma conotação de “fazer a experiência”.  Dizer isto não é uma revolução,  uma vez que faz parte da tradição católica. Isso também não significa afirmar um grande “tanto faz” religioso. O Papa continua acreditando que o catolicismo é o melhor caminho, apenas disse que aqueles que vivem bem a humanidade caminham por algumas de suas pedras.

Dito isso, afirmo que toda pessoa tem o direito de discordar do catolicismo e de achar qualquer ponto da doutrina cristã um absurdo. A própria Igreja grita isso em voz alta quando fala que a liberdade religiosa é um direito inalienável. No entanto, para discordar é preciso minimamente conhecer. Penso que seria ridículo alguém dizer que o Rio de Janeiro não fica na Região Sudeste sem ter noção do que são os pontos cardeais ou  nunca ter olhado um mapa do Brasil. Mais ridículo ainda seria querer alterar tal mapa jamais visto, dizendo que o Rio de Janeiro deveria  ir para o sudeste quando ele desde sempre esteve lá. Parece que muitos desejam que a Igreja Católica mude radicalmente sem saber direito para onde, outros celebram mudanças que na verdade são afirmações do que sempre foi. Tragicômico paradoxo este de querer alterar algo de que não se tem a mínima noção do que seja.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia / Fundador da Oficina de Valores




2 comentários:

Pedro Cross disse...

Texto que deveria ser reproduzido e colado na parede de todas as paróquias! Alessandro amigo, você nos brindou com uma reflexão bastante coerente, ainda assim, gostaria de levantar uma única questão. Acho eu que Francisco tem sido sábio em escolher sobre o que fala. Nesse aspecto têm se diferenciado de seus antecessores. A doutrina da Igreja é vasta e versa sobre quase todas as coisas do mundo e do Reino. Francisco tem escolhido falar sobre o que une e não sobre o que separa, tem buscado ao meu ver um retorno a "anunciação" do Cristo. Espero que assim continue e que de Trento sobre apenas migalhas. Abraço fraterno!

Alessandro Garcia disse...

Salve Pedro, sinceramente acho que essa posição de que ele fala apenas sobre o que une é unilateral demais e não leva em conta todas as declarações. O Papa fala sobre missionariedade, sobre levar pessoas à fé católica. é claro que ele está disposto a dialogar (o que o Papa Bento XVI também estava), mas não o vejo abrindo mão de identidade católica legada por Trento. Sério mesmo...Caso ache algum texto dele que aponte para esse lado peço que me envie. Li o livro de diálogos dele com o Rabino Abraham Skorka e percebi justamente o contrário.

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