Por: Alessandro



Há cerca de um mês dei uma palestra cujo tema era “a virtude da compreensão”. Logo depois da palestra, estava eu em casa pensando sobre o que escreveria para o blog quando minha esposa disse: “Por que você não transforma a palestra sobre compreensão em texto? Acho que ia ser legal”. Normalmente os assuntos que trato nas palestras são um pouco diferentes daqueles que abordo quando escrevo, mas como lá em casa “palavra de esposa é lei”, resolvi tentar. Vamos lá...

A sensação de não ser compreendido é uma das maiores fontes de solidão. Dificilmente alguém se sente mais sozinho que quando, mesmo em companhia de outros, percebe que não consegue fazer-se entender. Um exemplo simples pode ajudar a tornar mais clara essa ideia: convido o leitor a imaginar-se em um país cuja língua seja completamente diferente. Deixe de lado idiomas como espanhol, italiano, francês e inglês, pois são relativamente bem conhecidos. O russo pode ser uma boa escolha, afinal até os caracteres são distintos dos nossos. Imagine-se então em um lugarejo na Rússia e deparando-se com frases como as seguintes: Днем Отца! Продажа автомобилей. Перерыв на обед.

Para piorar a situação pode ser interessante imaginar-se em situações simples como procurando uma loja ou querendo comprar um remédio sem conhecer o idioma local, sem ter alguém que saiba falar sua língua e sem ter o google tradutor por perto. Penso que poucas circunstâncias possam ser tão claustrofóbicas.

Embora no cotidiano situações como a descrita acima não sejam tão comuns para a grande maioria das pessoas, barreiras de comunicação aparecem aqui e acolá e mal-entendidos normalmente são suas principais consequências. Estas situações não ocorrem apenas em ambientes e com pessoas estranhas a nós... São usuais com aqueles que mais convivemos. Lembro neste momento de uma situação que envolveu dois amigos meus. Um escreveu uma peça para ser encenada no grupo de jovens, o que, por diversos motivos, acabou não acontecendo. Tempos depois, o outro, que tinha a peça em mãos, resolveu levar a cabo o projeto para homenagear aquele que escreveu. Resumindo o imbróglio: no meio do caminho houve certo problema de comunicação e o “produtor da peça” foi acusado de roubar as ideias do amigo.

Muitas relações importantes sofrem muito pela incompreensão. Basta pensar na quantidade de amizades rompidas e casamentos desfeitos simplesmente porque as pessoas não se entendem. Sem querer dar uma receita simples para situações complexas e sem esquecer que cada caso é um caso, acredito que a compreensão é uma virtude que pode ser cultivada, um hábito que pode ser apreendido. Hábito mais que necessário, diga-se por sinal. 

Encontrei uma boa definição de compreensão no livro “La Educación de las Virtudes Humanas y su Ebaluación”, de David Isaacs. Segundo tal autor, nas relações humanas compreender seria “Reconhecer os distintos fatores que influem nos sentimentos ou no comportamento de uma pessoa, aprofundar o significado de cada fator e adequar sua ação a essa realidade”. Para facilitar a reflexão, vamos aprofundar essa definição levando em conta suas partes.

1 – Reconhecer e aprofundar os fatores que influem em uma pessoa

Uma frase muito conhecida do filósofo Ortega Y Gasset pode nos ajudar a aprofundar esse ponto. Diz o pensador: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. Sem querer entrar em uma discussão aprofundada de filosofia, cabe dizer que todos nós somos liberdade e condicionamentos, ou seja, fazemos escolhas e recebemos influências. Todos somos livres, mas essa liberdade possui seus limites e esses limites devem ser levados em conta quando nos relacionamos uns com os outros.

Há diversas situações que afetam uma pessoa, desde as mais graves até as mais triviais. Uma pessoa que cresceu em um ambiente pouco favorável pode ter mais dificuldades para ser cordial, por exemplo. É claro que a pessoa não é condenada ao comportamento dela, mas lidar com ele será uma tarefa muito mais difícil quando as condições de formação não foram favoráveis. Ao mesmo tempo mesmo uma pessoa de fácil trato pode ficar de mau humor após uma noite mal dormida. As circunstâncias nos afetam e quem esquece isso mais cedo ou mais tarde acaba sendo injusto.

Não é incomum as pessoas agirem a partir de um duplo padrão: quando “a coisa é comigo”, desejo que todas as circunstâncias sejam levadas em conta. Quando é com o outro, “nada justifica”. Outro erro comum é eleger a própria personalidade como critério de julgamento. Explico: uma pessoa muito organizada e pouco paciente tende a julgar que ser organizada é fácil e ser paciente é difícil. Acontece que isto é uma falsa universalização, afinal as pessoas são diferentes. Isso pode parecer, e é, uma obviedade. Acontece que muitas das coisas mais importantes da vida são tão óbvias que ninguém parece prestar atenção nelas.

2 – Adequar a ação à realidade do outro

A compreensão envolve ação. Quando realmente compreendo alguém minha ação em relação a esse alguém é guiada pela descoberta que fiz. Claro que isso não significa assumir que o outro acerta sempre ou que não precisa ser corrigido, mas olhá-lo acreditando que há nele reservas de boa vontade e que não cometeu o erro pelo erro. Para explicitar tal ponto vou contar algo que vivi durante meu período de mestrado:

Eu já estava atrasado para entregar minha dissertação e não conseguia escrever. Na verdade sempre fugia do escrever. E o pior não conseguia fazer qualquer outra coisa direito, nem me divertir. Não escrevia a dissertação, mas quando me dedicava a qualquer outra atividade, sentia-me culpado por não estar trabalhando direito.

Certo dia, tive que encontrar meu orientador e dizer que não havia produzido nada. Disse a verdade, que não tinha justificativas, que não havia escrito uma linha, que não estava conseguindo. Esperei ouvir poucas e boas por aquilo. Para minha surpresa, meu orientador meramente olhou para mim e disse: “Calma rapaz, já passei por isso. Durante o doutorado fiquei sem conseguir fazer nada por meses. É normal. Você tem apenas que pensar que essa não é a obra da sua vida. Mas ela precisa ser feita.” Após aquelas palavras, voltei para casa e a dissertação foi escrita.

Só é possível compreender quem nós queremos bem. Não digo quem nós simpatizamos, mas quem queremos bem. Meu orientador desejava que eu fizesse meu melhor e me ajudou nisso. Olhar para as próprias limitações também ajuda muito na hora de compreender o outro. Raramente é compreensivo quem não faz autocrítica, afinal quem se julga perfeito dificilmente tolerará as imperfeições alheias. 

Quem não compreende, isola o outro e a si mesmo. Quando compreendemos alguém nos tornamos mais próximos desse alguém. E por nos tornamos próximos vencemos a solidão. Do outro e também a nossa. 

Bom... passei do espaço indicado para os textos do blog. E ainda faltou dizer um monte de coisas. Esse negócio de transformar palestra em artigo é bem difícil. Buscarei fazer melhor na próxima vez. Peço, por favor, que compreendam...

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia / Fundador da Oficina de Valores

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