Por: Anderson
imagem de: www.umsoi.com
Santo Agostinho, em A cidade de Deus (XIX, 3), define a moral como Ars agendæ vitæ, ou seja: “a arte de conduzir a vida”. A moral seria, portanto, segundo o filosófico santo, a arte de viver bem, de viver como deve viver um ser humano. Esta afirmação está contida no (e empresta título ao) livro de Juan Luis Lorda (Moral, a Arte de Viver, publicado entre nós pela Editora Quadrante, que sempre nos apresenta autores e textos muito proveitosos à reflexão de cristãos e de não-cristãos). “Este, diz o texto promocional da editora, é o ponto de partida de uma reflexão clara e ordenada, que mostra como todos os aspectos da vida humana – o relacionamento com Deus, com os outros e com as coisas, a conjugação de bens e deveres, as fraquezas e os heroísmos – têm a sua dimensão moral.”

Entretanto, mais do que uma simples (embora oportuna) indicação de leitura, este meu texto pretende tratar de alguns aspectos relacionados à moral e que têm inquietado meus pensamentos – e até questionado minhas próprias atitudes –, sobretudo agora que tenho atuado diretamente na área da educação, atividade que vejo permeada tanto de um grande senso de responsabilidade quanto de tamanha e crescente perplexidade.

Outra afirmação que muito me agradou no referido livro é a seguinte: “Costumamos ter uma ideia bastante vaga do que vem a ser a moral. A uns parece um jogo de prêmios e de castigos, a outros um conjunto de regras e proibições, ou ainda uma questão de bons sentimentos”. O quanto isto é verdadeiro! Quanto de desconhecimento envolve o que seja, na verdade, a moral. Está presente, senão no discurso, nos atos concretos de diversos autores contemporâneos, uma espécie de “rejeição prévia” ante o próprio conceito de moral, como se fosse algo de que se devesse fugir, por demais pernicioso.

Vejo este como o fruto mais danoso de nossa história, apenas recentemente saída de uma condição de totalitarismo político: como a ditadura militar tende sempre a se utilizar de uma falsa postura moralizante para corroborar seus desmandos despóticos, é natural que uma geração provinda desta realidade de exceção rejeite a moral; ela seria uma forma de controle indesejável, uma arma hipócrita de manutenção do poder, ou ainda uma espécie de “cortina de fumaça do bem” com que se pretendia ocultar o mal que, na verdade, impulsionava os atos mais violentos e indignos.

Contudo, não é difícil concluir que esta visão, digamos, preconceituosa da moral, vem trazendo muitos prejuízos à formação de nossa sociedade – e refiro-me especificamente aos jovens, que constituem seu imediato futuro. É, por exemplo, fremente e recorrente a discussão, nos âmbitos educacionais, sobre a questão da “falta de limites” que caracteriza as novas gerações. Não seria isto uma consequência evidente do abandono da moral, enquanto moderadora – e atentem que não digo “modeladora”, como se poderia temer, por esta mesma noção deturpada que venho apresentando – da nossa ação formativa?

Quando as famílias, em sua atual e incontestável desestrutura, abre mão de um ponto de vista moral (e já nem faço menção à perspectiva religiosa!) para mediar suas escolhas e valores, o resultado natural é que seus rebentos nasçam e cresçam sem alicerces seguros em que basear suas vindouras decisões e opções. E eis que se instaura o caos da incerteza, da falta de expectativas, da desesperança, enfim. Estarei pintando um quadro cínico e pessimista em excesso? Ou realisticamente apresento aquilo que nossos olhos veem, mas custam dialeticamente a crer? 

O mais assustador é que, ao rejeitarmos qualquer forma de moral como possível indicadora de caminhos de bem viver, resta-nos apenas lançar mão de um reiterado autoritarismo como paliativo para as situações conflitantes que a comentada “falta de limites” traz consigo. Creio que nenhum educador ou outro profissional das escolas poderá contestar quando aponto: muitas vezes, a única linguagem que parecem entender estes educandos, criados nesse lamentável contexto de ausência de limites, é a linguagem da punição; já nada se consegue deles com argumentos e diálogo; e a verve repressora reaparece como única arma eficaz de um corpo docente despreparado para suprir a educação que a família, enquanto instituição eminentemente formadora, abdicou de oferecer.

Não estaremos, assim, recaindo no mal mesmo de que pensávamos nos livrar ao relegar a moral ao plano dos malefícios da humanidade? É preocupante pensar que talvez estejamos criando e educando nossos filhos, não para uma liberdade responsável – em que cada cidadão compreende e cumpre seus deveres sem deixar de lutar pelos seus direitos – mas, ao contrário, educando-os para o medo e a revolta, já que os reprimimos por absoluta falta de competência para formá-los para o bem.

Quem sabe uma volta à compreensão da moral como essa arte de conduzir bem as nossas vidas nos ajudasse a desfazer esse (aparentemente insolúvel) impasse? Quem sabe reencontrássemos aquilo que realmente desejamos ser e fazer, “para além das miragens com que a nossa ignorância, a nossa fraqueza ou a pressão do ambiente tantas vezes nos iludem”, como conclui Lorda.

Anderson Dideco
 Colaborador do blog - Pastoral da Comunicação - Paróquia de Cascatinha

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