Por: Alessandro
imagem de: historiaparaencantar.blogspot.com.br
Uma das coisas mais prazerosas nos encontros com amigos antigos é relembrar velhas histórias. Essas histórias podem ser narrativas de situações difíceis das quais escapamos por um triz, casos cômicos, ou ainda aventuras tão absurdas que testemunhas são necessárias para comprovar a veracidade do relato.  Lembro, por exemplo, da vez em que
um amigo resolveu jogar dados para provar que era mais inteligente que um cachorro. Também me vem à mente a vez que o ônibus que levava o grupo que eu participava para um encontro de jovens não conseguiu chegar ao local e nos deixou “próximos” ao sítio. Resumo da situação: quarenta pessoas perdidas a noite em um local sem luz elétrica e sem avistar o menor sinal de civilização. Mais aventura impossível.

Tenho que me segurar para não encher o texto de exemplos, afinal uma das características de muitas das histórias passadas que não cansamos de contar é que elas só têm graça para aqueles que as vivenciaram. Claro que nem todas são assim, mas por vezes é difícil separar. Além disso, o texto não pretende ser uma exposição de “causos”.

Um ponto interessante de tais histórias relatadas por amigos é que normalmente elas remetem a um tempo quase mágico, em que aventuras eram vividas, desafios superados e peças engraçadas faziam parte do cotidiano. Em outras palavras: eram os bons e velhos tempos.  A distância com o passado faz com que mesmo os elementos menos glamorosos sejam celebrados. Brigas “sérias” por causa da escalação dos times para a “pelada” são motivos de risos. Rivalidades são lembradas como passos na construção de laços. O olhar retrospectivo oferece uma percepção de totalidade que permite que mesmo aquilo que era menos agradável ganhe um novo sentido. Quanto cansaço que foi causa de reclamações, hoje é tido como motivo de orgulho. Quantas situações cotidianas, que na época não pareciam tão importantes, hoje despertam saudades.

Claro que em toda vida há momentos mais difíceis e outros mais agradáveis. Há situações que parecem que estão testando nossos limites e que rezamos para passarem logo. Mesmo sabendo de tudo isso,  defendo que os bons e velhos tempos, por melhores que tenham sido não constituem um paraíso perdido. E isso por três motivos. O primeiro é que os bons tempos, como já foi dito, tinham seus problemas. Nós é que hoje não damos tanta bola para eles ou os encaramos de outra forma.

O segundo e mais forte motivo para que  “aquela época boa” não seja um  paraíso perdido é simplesmente que ela não foi perdida. Viktor Frankl diz que “ter sido é a forma mais segura de ser”, ou seja, o vivido não se perde, é incorporado. Em mim estão todas as piadas contadas, lágrimas derramadas, aventuras vividas, derrotas sofridas e vitórias alcançadas.

Além disso, os bons tempos não se perdem quando  decidimos que eles não serão apenas os velhos. A memória é tesouro, mas se vivemos apenas nela, pode tornar-se uma prisão. Aquele que deixa de viver o hoje porque ele não se compara às glórias de antes, está escolhendo não ter mais glória alguma. Ter sido pode ser a forma mais segura de ser, mas ainda assim é uma forma incompleta.  É no presente que o concreto da vida se realiza. E engana-se quem acha que viver no passado é monopólio das pessoas com mais idade. Não é incomum encontrar jovens que julgam que o melhor da vida já passou.

Hoje vivemos tempos que um dia serão “os velhos”.  Se os vivemos bem, serão também “os bons”.  As lembranças dos  tempos de antes são fontes de ânimo e abertura. Saber que no passado o cotidiano, por mais que na época não soubéssemos, era extraordinário  deve indicar que o dia-a-dia atual provavelmente contém grandes riquezas para as quais podemos estar cegos.

É bom saber que temos histórias para contar. Melhor ainda saber que continuamos vivendo uma grande história. Quando lanço um olhar para minha vida percebo que tive sim vários bons e velhos tempos:  o tempo de brincadeiras na rua com hora estipulada para voltar  para casa; as incontáveis vezes que subi a ladeira correndo depois da escola para comer o almoço preparado por minha mãe; as noites viradas vendo desenho animado com meu irmão; a época de aproximação progressiva com meu pai...

Saindo um pouco do âmbito familiar, posso dizer que lembro com gosto de quando comecei a ler revistas em quadrinhos e por não ter dinheiro para comprar todas, formei uma sociedade com dois amigos. Bons tempos nos quais os gibis comprados eram compartilhados no fim do mês.   Como me esquecer  de quando quase todos os garotos de minha turma de escola jogavam xadrez? Chegávamos antes e saíamos depois das aulas. Tínhamos tabuleiros pequenos debaixo da mesa. Ouvimos uma repreensão da diretoria porque quando um professor chegava em sala sempre nos encontrava jogando. Que alegria saber que a brincadeira de moleques depois virou um projeto do colégio. Ah...não posso falar da escola sem recordar dos grandes empreendimentos para as feiras de ciências.

Há ainda a época da formação do grupo de RPG. Gostávamos tanto de contar e recontar histórias que nos reuníamos todos os sábados e domingos. E ai de quem faltasse! Rimos, jogamos, brigamos. Bons tempos! Como não lembrar  do começo da participação na Igreja, do primeiro encontro de jovens, dos amigos que fiz nos grupos que participei? Caramba, comecei até a dar palestras! Só tenho sorrisos quando recordo dos retiros que fiz e daqueles em que ajudei a organizar. Isso para não falar das pessoas que busquei ajudar e que tanto me ajudaram.

A Universidade! Bons tempos! Ciências Sociais na UFRJ. Conheci um monte de gente que pensava totalmente diferente de mim. Grandes embates de ideias, situações engraçadas 
que vou levar para sempre, leituras de grandes autores, almoços nos quais falávamos de Max Weber. Não dá para colocar em palavras as saudades que sinto.  Depois das ciências sociais, aprofundei o contato com a filosofia, coordenei um projeto na Igreja que muito me marcou, fiz novos amigos.  Ah... e um ponto muito especial: conheci e comecei a namorar aquela que viria a ser minha esposa. Velhos tempos, grande tempos. Tempos que não voltam mais.

Disse no início que não iria falar tanto sobre meu passado. Acabei não resistindo. É difícil escrever um texto como esse sem dar vazão à memória. Peço desculpas ao leitor que provavelmente não tem tanto interesse nas peripécias da minha história. De qualquer maneira, ao narrar um pouco minha vida quis dizer que na abertura ao hoje está a possibilidade de viver diversos bons tempos. Tempos diferentes e que por isso trazem novas riquezas.

Antes de encerrar, partilho que este texto foi para mim um exercício de memória que despertou muita gratidão. Gratidão pelo vivido e por aqueles que comigo viveram.  Se algo parecido acontecer com o leitor, terei alcançado boa parte do meu objetivo. No entanto, não o alcançarei por completo se gerar apenas um olhar para o passado. Alguém certa vez disse que recordar é viver.  Quem falou isso com certeza enunciou uma verdade, mas uma verdade incompleta. Afinal, recordar é sim viver, mas ficar apenas nas lembranças é desistir da vida.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia / Fundador da Oficina de Valores

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