Por: Moco
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Participo da Oficina de Valores mais ativamente desde o ano de 2007. Desde então já tive a oportunidade de fazer um bom número de palestras nas escolas e de contribuir nos encontros e atividades voltados para os jovens que este projeto e outras iniciativas promovem. Um fato mais do que comprovado é que sempre ao lançarmos uma proposta voltada para o “sentido da vida” ou sobre a “felicidade”, que são temas pertinentes e muito
abordados dentro do contexto do nosso trabalho, uma das maiores oposições que encontramos diz respeito à família. Respostas do tipo: “você diz isso porque não conhece a realidade da minha casa!” por parte dos jovens, ou “junto com vocês é uma beleza, mas em casa não lava um copo pra ajudar!” por parte dos pais, são muito comuns.

A explicação para isso é bem simples: a família é a primeira experiência de socialização de qualquer pessoa, e pelo fato de ser um espaço onde a convivência é constante e direta as pessoas se revelam com mais facilidade, o que quer dizer que a família é o espaço no qual as pessoas se mostram como realmente são, sem máscaras, sem esforço por se demonstrarem mais agradáveis por qualquer que seja a motivação. A família é talvez o único espaço onde não precisamos conquistar o amor das pessoas, o respeito e a admiração. Não necessitamos de nenhum pequeno esforço para sermos aceitos, porque ali literalmente “estamos em casa.” E isso é muito bom, nada como estar em casa.

Um outro aspecto relevante para se pensar as relações familiares é explicado pela psicologia da seguinte forma: quando encontro no outro um defeito que eu tenho, aquele defeito me incomoda intensamente. Inevitavelmente, seja por questões genéticas, seja devido à convivência, pessoas que fazem parte da mesma família adiquirem hábitos, características e trejeitos parecidos e sem dúvida comportamentos que geram incômodos mútuos. Quando você convive com uma pessoa semanalmente e ela tem um detalhe no jeito de falar que te incomoda, provavelmente você vai achá-la chatinha. Quando a convivência com uma pessoa com o mesmo defeito é diária, você vai considerá-la bem chata! Quando a pessoa divide o mesmo lar com você, ela se torna insuportável!

Chegamos ao cerne da questão. As relações familiares diferem-se de qualquer outro tipo de relação, porque elas mais do que quaisquer outras nos deixam marcas profundas. Uma coisa é você acompanhar um debate acerca do divórcio, outra coisa são os seus pais se divorciarem. No meu ciclo de amigos de infância eu era o único que tinha os pais casados, todos os meus amigos tinham pais divorciados. Eu não entendia muito bem como funcionavam as relações familiares, mas achava legal ter duas famílias como eles tinham, sentia um pouco de inveja da expectativa que eles nutriam de encontrar o pai que não viam há muito tempo. Eu pensava: “poxa, vejo o meu pai todo dia, e é sem graça”. E sempre desejei que os meus pais se separassem, porque considerava que seria muito mais divertido pra mim. Acontece que um pouco mais velho, com um pouco mais de entendimento, acompanhei algumas discussões dos meus pais e morri de medo de que a decisão tomada por eles fosse a separação, ou seja, quando foi comigo, o calo apertou. Sem falar que consegui entender melhor as implicações que os divórcios dos pais dos meus amigos de infância tiveram sobre as suas respectivas vidas e percebi que não era legal.

O divórcio é uma questão familiar importante que precisamos pensar. Afinal de contas, ninguém casa para separar-se e este momento é sempre um drama. É ruim em primeiro lugar porque, dependendo da forma como o divórcio for trabalhado pelos filhos, pode gerar neles uma sensação de culpa: “meus pais eram felizes até eu nascer”. Esse é um sentimento que não raramente é experimentado pelos filhos. Uma segunda consequência objetiva (e essa foi a que vi mais latente nos amigos de infância), os irmãos mais velhos precisam assumir o papel de “pai” na casa. Meus amigos, com 13, 14 anos, cuidavam dos irmãos mais novos como se fossem filhos, enquanto a mãe precisava ir trabalhar, etc. Por último, há a triste concepção de que não dá para ser feliz em um relacionamento, a ideia de que os relacionamentos existem para terminar.

Notem, eu não estou dizendo que os casais que encontram dificuldades no casamento não têm o direito de serem felizes e procurar encontrar soluções caso as dificuldades com o cônjuge sejam maiores do que as alegrias. É claro que acredito que as pessoas mereçam ser felizes. Mas a questão que merece um melhor tratamento é anterior a essa: por que temos tantos divórcios hoje? Por que casamentos duram tão pouco? Só respondendo a essas perguntas é que teremos melhores conclusões acerca do tema. A meu ver, a resposta é bem simples, é daquelas coisas que é fácil falar, mas não tão fácil colocar em prática. As fases anteriores ao casamento precisam ser mais bem vividas: um melhor amadurecimento afetivo quando se está solteiro, um namoro bem vivido, pois o namoro é o tempo de se perguntar: “será que é essa pessoa?”. O casamento é o ato da resposta definitiva: “sim, é ela que eu prometo amar pra sempre!”. Talvez a grande causa dos divórcios seja que os casamentos são encarados como namoro, porque, no fundo, nossos adultos têm a maturidade afetiva de um adolescente.

O divórcio lança as bases para outra grande questão. É possível ser feliz apesar das dificuldades que encontro em minha família? E essa é uma questão que deve ser considerada por vários pontos de vistas, um muito importante é do daqueles casais (e pais!) que pretendem se divorciar. Considero uma pergunta dificílima, até porque as dificuldades podem ser de diversas ordens e devem ser pensadas caso a caso. Em linhas gerais, eu me arriscaria a dizer que sim. É preciso procurar em nós mesmos o que podemos mudar para melhorar a nossa família, pois acredito verdadeiramente que na mudança de atitude não há mal que permaneça inalterado. Quem muda provoca, quem muda incomoda, e esse incômodo gera mudanças no contexto, por pior que este contexto seja. 

As dificuldades familiares obviamente não se restringem ao divórcio. No entanto, há certos caminhos de solução, eu creio, que se apliquem a todas elas: a busca pela conquista daquilo que já é nosso, oferecer o melhor àqueles que são os reais melhores amigos, oferecer amor àqueles que nos oferecem amor gratuito, sacrificar-se por aqueles que não exigem o nosso sacrifício para nos aceitarem. Não importa qual seja a realidade da tua família, volte pra ela e sinta-se em casa.

Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

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