Por: Joyce
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Eu sempre fui uma pessoa supersticiosa. Não exageradamente, não deixava de viver normalmente por isso nem arrumava briga se alguém passasse a vassoura no meu pé. Mas era. No meu vestibular, por exemplo, fui vestida de branco todos os dias de provas. Um dia passei, etc. Tinha várias manias.

Mas a questão principal disso é: a cor que eu visto tem esse poder? Falando em termos de réveillon temos o ano, uma marcação arbitrária de calendário baseada muito mais ou menos no ciclo do nosso planeta em relação ao Sistema Solar, não passa de um número. Sim, somos rodeados deles, dos ciclos, das datas. Mas colocar tal cor de roupa, comer uva, como isso me ajudaria a passar melhor os próximos 365 dias que virão? E se for ano bissexto, o tal ritual deixa de valer no dia 30 de dezembro porque só valia pra 365 dias? E se for considerado o movimento de translação da Terra em relação a outros elementos do cosmos? Neste exato momento você está passando outro tipo de réveillon com (insira aqui a roupa que está usando) e nem sabe.

Não quero ofender a crença de ninguém, mas me refiro a quem acredita em Deus - acreditando Nele, onde é que está o sentido de que colocar a bolsa no chão faz você ficar pobre? Que varrer o pé não deixa casar? Que vestir preto na virada é terrível? Acreditar em Deus é saber que não há força mais poderosa que Ele e, por isso mesmo, não faz sentido atribuir um poder a mais a elementos e movimentos tão aleatórios.

Entendo que muita gente associa energias de cores, mas, enquanto cristã, acho muito fraquinho ficar defendendo que o branco traz paz. Vamos raciocinar: é uma cor. Culturalmente, o branco foi associado à noção de tranquilidade, da mesma maneira que o rosa  foi associado à noção de feminino. Aí você vem me dizer que veste a cor x para atrair tal coisa pro seu ano sendo que você está se baseando em uma noção culturalmente formatada e, além disso, está depositando sua fé e esperança de um ano bom e produtivo numa roupa de baixo. Repito, essa postagem faz sentido se você acredita em Deus - minha hipótese aqui é que não faz sentido acreditar que não deixar o chinelo virado vai salvar a vida da sua mãe quando existe algo maior que toma conta de você. E se você não acredita em Deus e pensa que a roupa rosa vai te trazer o amor em 2014, bom, tá fraquinho, né? Quer dizer que naquele segundinho em que os calendários viram a cor que você usou vai definir todo um movimento energético positivo para que a pessoa ideal te encontre e te faça feliz nos próximos 365/ 366 dias? 

Não cola, desculpa.

E ainda tem que lembrar do horário de verão, hein! Vai acreditar em qual versão da virada de ano?

Quem acredita em uma divindade superior não pode depositar nesses rituais sua fé: sua felicidade de um ciclo (um ano, uma faculdade, um namoro, um emprego) não está baseada em uma ideia sem nenhum fundamento empurrada pra você.

Vamos acreditar naquilo que realmente vale a pena. Ou você acha que, existindo Deus, ele deixaria que a cor rosa ou roxa seria o grande definidor do seu ano? Você acha que aquilo que ficam inventando por aí de vassoura atrás da porta realmente faz algum sentido real? Você acha que eu passei no vestibular porque eu vesti branco? No ano anterior eu fiz a mesma coisa e, bom.

Acreditar em Deus demanda muito mais esforço que qualquer tipo de batida na madeira. Sei que é muito mais fácil depositar na cor da roupa a responsabilidade que é nossa -  a de trabalhar e fazer as coisas acontecerem. Muita gente se afasta de Deus ou muda um pouco o rumo exatamente porque as coisas não ficam fáceis. Quantas e quantas vezes já ouvi sobre o tal do "sentir-se bem"... nem tudo que te faz sentir bem é bom... eu, como convertida há não muito tempo, vejo que muita gente não quer olhar pra dificuldade que é seguir uma fé e corre pra algum caminho que satisfaça melhor a preguiça ou alguma disposição pra outros caminhos que lhe parecem melhores, mais fáceis, mas "abertos". Veja bem, não estou chamando pessoas de outras realidades religiosas de preguiçosas, mas me parece bem mais tranquilo seguir o caminho do sentir-se bem ao invés de, de fato, enfrentar uma proposta mais consistente ou difícil.

Acho que nem é o caso, mas já faço uma pequena "defesa": se você acredita em rituais diferentes dos meus, não precisa fazer um comentário enorme me xingando! Conheço muita gente que tem como preceito da fé o sacrifício de animais, por exemplo, e quem sou eu pra julgar. Sei também, depois de bastante tempo com Estudos Culturais, que pra quem crê, é crença; pra quem não crê, é superstição. Então se o que eu chamei de mandinga é a base mais cara da sua vida, me desculpa! Meu texto está mais direcionado pra os crentes em Deus que se apoiam nessas superstições, ok? Não briguem comigo. Não briguem com os coleguinhas da escola. Não pise na grama. Não chore, vai dar tudo certo.

Comprou uma roupa branca linda e achou que meu texto faz sentido? Sua casa tá cheia de comigo-ninguém-pode? Colocou a lentilha de molho desde ontem? Usa a roupa! Deixa a planta lá! Come a lentilha, jogar comida fora não pode, gente! A questão não é o que a gente faz, nesses casos, mas a fé que a gente deposita em objetos que não são mais que isso.

Que a  nossa  fé e  nosso Senhor  Jesus Cristo  nos  guiem e iluminem  para  que  qualquer ciclo que desejemos caminhar seja sempre um sonho de Deus!

Joyce Scoralick
Mestranda em literatura - UFJF  / Oficina de Valores

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