Por: Alessandro


Últimos dias do ano. Época na qual é comum encontrar pessoas dizendo frases do tipo: “Espero que ano que vem as coisas melhorem”, “Ano que vem eu vou...”, “Que o próximo ano traga paz, amor, etc, etc”. Também é usual encontrarmos pessoas criticando tal postura, reclamando dos clichês que não mudam nada, das frases prontas, dos propósitos vazios.


A crítica tem grande fundamento. Realmente muitas palavras são jogadas ao vento. No entanto, é importante aprender a prudência de desconfiar de certas críticas que esquecem que são tão prontas quanto aquilo que criticam.  Não que estejam totalmente equivocadas, mas carregam o risco de serem hipócritas, moralistas, ou meramente destrutivas. Normalmente há grande valor em um clichê, valor que pode estar escondido pela mecanicidade da repetição, mas que não deixa de estar lá.

O réveillon é um símbolo, um ritual. Como todo símbolo expressa algo que está para além do sinal. Como todo ritual celebra algo que está para além dos gestos. O “ritual” do Ano Novo possui dois grandes momentos: despedida e saudação. A despedida diz respeito aos encerramentos e resultados: fim do ano letivo e notas escolares; balanços anuais nas empresas; términos dos campeonatos esportivos. Isso se dá progressivamente, com as “portas se fechando” uma atrás da outra, uma atrás da outra...

As coisas são encerradas para terem a oportunidade de renascerem. As despedidas geram a espera pela saudação, e esta é feita na virada do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro. O ano novo é saudado com alegria, fogos, festas.

Como componente da saudação, os fogos são um símbolo bem interessante. Normalmente utilizam-se os fogos para expressar uma alegria que não se contém. Pessoas soltam fogos, por exemplo, quando seus times de futebol vencem algum campeonato. Os fogos da virada celebram o que? Muitas coisas, entre elas que a vida continua.  Esse é um dos pontos mais belos do ano novo: separamos um dia, o primeiro dia, para ser o aniversário da história! Estamos aqui, o mundo gira, pessoas sorriem e choram. A humanidade caminha... e nós caminhamos com ela. Nesse sentido, o réveillon é uma grande festa de gratidão pelo que foi,  pelo que é, pelo que será.

Uma das grandes contribuições da tradição judaico-cristã para o mundo foi a mudança na forma de conceber a história. Para grande parte dos povos da antiguidade, a história era um ciclo eterno. Nessa concepção, tudo o que é e tudo o que será, um dia já foi. Com o judaísmo, e posteriormente com o cristianismo, a coisa mudou completamente de figura. A história passou a ser uma caminhada rumo a um objetivo. O amanhã, por mais parecido com o ontem que possa ser, nunca será uma repetição. Cada dia deverá ter seus próprios cuidados e suas próprias surpresas.  Numa história cíclica o futuro é algo velho como o tempo, numa história linear é uma aventura que tem seus riscos, mas que sempre carrega a possibilidade de boas novas.

Boa Nova! Está aí outro elemento que faz parte do que é celebrado no réveillon. O ano que nasce é nessa celebração sempre tido como uma boa notícia. Alguns podem dizer que tal “otimismo” é ingênuo, mas o fato é que a esperança é uma necessidade imperativa para o ser humano. Sem acreditar que algo melhor pode vir, a vida fica congelada. Claro que a esperança pode ser passiva ou ativa. A esperança passiva é superficial como o verniz, uma vez que não faz nada para que aquilo que é esperado aconteça. A esperança ativa compromete-se com o bem esperado e faz com que a espera não seja apenas um aguardar, mas converta-se em um buscar.

Como já foi dito e repetido nesse texto, o ritual do fim/começo de ano é composto de saudações e despedidas. Há dois tipos de despedida, o adeus e o “até logo”. Ao encerrar o ano vivemos um pouco das duas formas. Há situações que não se repetirão. Há pessoas que não mais veremos. Alguns dos adeuses são doídos e gerarão saudades, alguns são desejados e estão na raiz da esperança de dias melhores.  Para grande parte das coisas e pessoas, no entanto, damos apenas uma “até logo”, um “nos vemos ano que vem”. Esse “até breve” vem lembrar que há continuidade, que o novo contém o antigo e que muitas vezes a grande novidade será olhar com novos olhos as maravilhas que sempre estiveram lá.

As saudações também podem ser de dois tipos: formalidades ou cumprimentos. As formalidades dizem respeito aos sinais feitos apenas para reconhecer que o outro existe, mas que não iniciam nem geram relacionamentos. São o  “boa noite” dito no elevador e o aceno a alguém cujo rosto lembramos, mas não sabemos quem é.  As formalidades não são más, muito pelo contrário, são boas e necessárias, apenas não são profundas. Já o cumprimento é uma porta aberta para algo que vai além dele, para uma conversa, para um jogo, para uma disputa.

No início de ano cumprimos muitas formalidades, e é bom que as cumpramos, afinal não é por não ter uma relação profunda com algo ou alguém, que devemos adotar uma postura de indiferença.  Há, no entanto, a necessidade de saudar “o ano que vem” cumprimentando-o de forma intensa e viva. Cumprimentar, nesse caso, significa celebrar comprometendo-se. Aí entram as tão faladas promessas de fim de ano.

Os propósitos de fim de ano são a forma de nossa cultura nos lembrar de que embora nem tudo dependa de nós, temos que fazer nossa parte. Tais propósitos são uma lembrança de que a esperança deve ser ativa. Claro que durante o réveillon vivemos um ar de extraordinário e a esperança se torna mais palpável. A rotina é diferente, e é justamente aqui que entra e mensagem fundamental destas linhas: é necessário aprender a viver aquilo que celebramos.

Um dos motivos que faz com que os propósitos que fazemos não sejam cumpridos é que o ano pode ser novo, mas nós permanecemos os mesmos. Uma festa de “Ano Novo”, por mais simbolismos que traga, não realiza uma transformação mecânica nas pessoas e sociedades. Simplesmente lembra que as coisas podem ser novas, que nós podemos ser homens novos ou mulheres novas. 

Fica aqui, em meu nome e no de toda a equipe do blog, o desejo de um feliz Ano Novo a todos os nossos leitores.

Que cada um possa viver bem as essenciais despedidas e as necessárias saudações. Que a renovação realmente aconteça e que os propósitos possam ir além das palavras.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia / Fundador da Oficina de Valores

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