Por: Thales
imagem de: hypescience.com
Sempre foi muito difícil para o homem compreender o que é Deus. Mesmo sem entrar na questão de saber se Deus existe ou não, até mesmo entender o que significa a ideia de Deus é algo bastante complexo. Deus é um ser plenamente perfeito que teria criado o universo, mas que está além de todas as coisas que conhecemos neste mundo. É onipotente, onipresente, onisciente. Não possui um corpo e é eterno. É a causa de tudo, mas nada pode afetá-lo. Ele tudo vê, mas nunca ninguém o viu.

Na verdade, Deus em muito supera a nossa capacidade de conhecer. Não somos capazes de compreender a sua essência, pois o que ele é em si mesmo nos é inacessível. Mas e ele em relação a nós? Será que é capaz de nos conhecer? Quando refletimos sobre Deus desta forma, é impossível não nos espantarmos com o fato de ser ele completamente diferente de nós. Deus não tem sentimentos como nós, não tem defeitos como nós, não sofre como nós. Por já saber de todas as coisas antes de acontecerem, ele nunca se surpreende, não se entristece, nem se alegra com nada do que acontece conosco. Será que ele pode nos ouvir? Quando clamamos por ele, será que há alguma coisa que podemos dizer para ele que seja capaz de mudar a sua vontade? E mesmo que ele nos ouça, será que ele age em nossa vida? Ou será que é indiferente a nós e a tudo que nos acontece?

De fato, há entre nós e Deus um abismo intransponível. Por isso, algumas pessoas acreditam que, se Deus existe, ele nos abandonou há muito tempo atrás. Ele teria criado o universo, causado a primeira centelha da existência, mas se afastado logo em seguida. Deus está tão longe de nós, que não faz nem sentido termos esperança de nos relacionarmos de alguma forma com ele. Se Deus é tão poderoso, tão superior a nós, porque ele teria motivo para se importar conosco? Que diferença nossa vida faz para Deus? Nenhuma...

E por mais escandalizador que isso pareça, é mais ou menos isso mesmo que o cristianismo ensina. De fato, Deus está distante demais do homem para que este possa alcançá-lo. Só que na religião cristã há uma diferença fundamental: não é Deus que se afastou do homem, mas o homem que se afastou de Deus. Em algum momento da história, o homem decidiu abandonar a Deus e seguir o seu próprio caminho, e isto teve consequências profundas para toda a humanidade. Este trágico acontecimento é narrado no livro do Gênese através da história de Adão e Eva, que pecaram contra Deus e foram expulsos do paraíso.

Porém, essa diferença não muda muito o problema: há um enorme abismo entre nós e Deus, e não é possível para nós o ultrapassar. Não temos a capacidade de nos relacionar com Deus, de voltar a viver perto dele. Não faz sentido nos perguntarmos se Deus existe ou não: se não é possível estarmos com ele, isso não importa. A religião também não faz sentido, pois Deus não nos é acessível... Não faz sentido acreditar na felicidade, pois o único capaz de nos fazer felizes, está para sempre escondido de nós...

Pensando sobre isso, podemos nos perguntar: e se Deus fosse um de nós? E se fosse capaz de sentir o que nós sentimos, de pensar como nós pensamos, de sofrer como nós sofremos...? Se ele pudesse sorrir, brincar, falar? Se ele conhecesse a nossa vida como um de nós, ele não estaria mais tão longe, não seria mais indiferente. Se ele tivesse pisado nesta mesma terra, saberia exatamente quais são as nossas lutas, as nossas fraquezas. Se tivesse família e amigos, saberia o quanto precisamos estar próximos àqueles que amamos, e o quanto dói perdê-los... Se Deus fosse um de nós, ele poderia nos ouvir, nos responder, nos abraçar, nos acolher... Se Deus fosse um de nós, nossa história seria também a história de Deus.

Tenho uma importante notícia a dar: esse “se” não é apenas uma hipótese, mas é uma realidade. Deus, de fato, é um de nós, uma pessoa humana de carne e osso, e seu nome é Jesus de Nazaré. Em um momento histórico preciso, num local determinado, Ele nasceu. E o nascimento de Deus teve um impacto tão profundo na história da humanidade que nós dividimos os anos em antes e depois deste acontecimento... Jesus Cristo é a resposta gloriosa de Deus ao afastamento do homem. Se nós não podíamos mais, com nossas próprias forças, voltar para Deus, Deus mesmo se fez homem para trazer a humanidade novamente para próximo dele.

Mas por que Deus quis se fazer homem? Por que Ele desejaria assumir a nossa condição, se é onipotente, perfeitíssimo e infinitamente superior a nós...? Bem, Deus é isso tudo, mas Ele nos ama. Por amor, Ele quis salvar o homem da tristeza de estar longe dele. Deus queria nos curar, e o que não é assumido por Deus não é redimido no homem.

O Natal é a festa desta notícia: Deus está conosco! Celebrar o Natal é fazer reverberar hoje as palavras do anjo que um dia disse aos pastores de Belém: “Não tenhais medo, eis que vos anuncio uma notícia que será fonte de alegria para todos: hoje vos nasceu um salvador!”. Não devemos ter medo! Não estamos sozinhos! Deus mesmo está conosco! Que festejemos o Natal exatamente como fizeram aqueles pastores: sigamos com nosso coração para Belém. Vamos com grande pressa visitar o menino que é a manifestação de Deus. Ele é um de nós, nos ama, e está a nossa espera.

Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia - UFRJ / Oficina de Valores

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