Por: Joyce
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É claro que falar sobre depressão é fácil. Basta digitar essa palavrinha no Google que, entre alguns artigos de geografia, a gente acha um monte de informação útil, relatos e conselhos. É fácil porque tem muita coisa disponível: dizem por aí, inclusive, que o tal do spleen (quem lembra de estudar romantismo?) que já foi o mal do século (lá no XIX) voltou com força total no XX e no XXI como depressão: renovação ou evolução dessa coisa de estar mal, da melancolia, do desassossego em relação à vida em geral. É fácil falar de depressão porque a gente sabe o que é ficar triste, e certamente já usou a palavra “deprê” ou algo parecido pra falar de si mesmo. É fácil falar de depressão – bom, nem sempre.

O caso é que muitas vezes a pessoa que tem depressão não fala sobre isso. É como quem tem uma dorzinha, não divide com ninguém, e acaba achando uma úlcera. Aquele sentimento fica lá e ninguém dá a devida atenção. Um pouco pode ser por vergonha, medo, acreditar que é uma fase que passa sozinha ou, eu arrisco, até pela crença e o hábito de que os sentimentos não devem ser valorizados (vide: vida de hoje). O problema é que a depressão não é só um sentimento: é um desequilíbrio mental (que nada tem a ver com “loucura” clínica) que provoca sensações, comportamentos, pensamentos – ruins.

Assim, muita gente sofre calada porque acredita que estar triste sempre, pensar na morte, ter ataques de ansiedade, estar desmotivado para tudo é normal. Há a diferença fundamental entre aquilo que é normal e comum: comum até é; infelizmente os casos de depressão estão aumentando. Mas normal, se definirmos normal como algo desejável e equilibrado, não é. E procurar um psiquiatra, então, nem se fala, já que há todo o preconceito sobre doenças mentais. Só essa expressão aí já dá um calafrio, né? As pessoas não têm problema nenhum em consultar um nefrologista na hora da crise renal. E se seu cérebro precisa de ajuda?

Eu mesma passei por isso. E não, na época não foi fácil falar de depressão. A minha manifestação dessa doença, em particular, se dava de forma bastante física, causando náuseas, sensação de desmaio e pânico. Não há como explicar a sensação de que se vai morrer: seu cérebro te faz acreditar que, bom, acabou ali. O que acontece em muitos casos de transtornos de ansiedade e depressão é que o sistema do medo não desliga. Normalmente, ele só liga quando tem algo suspeito (um barulho estranho de noite, um ladrão) e, passada a ameaça, desliga. No cérebro transtornado a gente é levado a acreditar que há sempre uma ameaça, porque seu interruptor de lutar/fugir tá piscando o tempo todo.

E não, não é mole. E não, não é frescura nem falta de serviço.

Parte do problema na hora de tratar esses transtornos é a ignorância: por não saber do que se trata, muita gente amarga anos sem se tratar, ou fica presa no preconceito e ainda por cima ouve dos outros que isso é coisa de desocupado.

Tudo isso agrava o problema porque ter depressão afeta nossas relações, nosso trabalho, nosso lazer, apetite, enfim, nossa vontade de seguir vivendo. E os pensamentos são grande parte disso porque, sentindo medo e tristeza o tempo todo, o suicídio pode começar a parecer uma saída. O grande lance aqui é o retorno à valorização da vida, o retorno ao estado em que a pessoa tinha motivações para seguir e nem tudo parecia uma grande maçada. Nesse ponto, se você conhece alguém que passa por isso, lembre a essa pessoa que viver vale: talvez não explicitamente, mas mostre a ela porque ela iniciou a faculdade, por exemplo. O que ela queria na época, os sonhos de antes, tudo pode voltar a valer a pena, ainda que no momento tudo pareça escuro. Conversar com uma pessoa em depressão é muito difícil pois ela nem sempre ouve ou aceita, mas a presença e a compreensão dos outros é fundamental e eu mesma me vi melhorando quando entendi que eu estava passando por um processo que não me deixava ver claramente – assim, eu passei a dar menos ouvidos ao meu cérebro transtornado e escutei quem queria meu bem de verdade, pessoas que tinham mais capacidade que eu, no momento, de ver a vida.

O que fazer? Eu sou apenas uma moça latino-americana (sem dinheiro no banco, sem parentes importantes), uma entre milhões que passaram e passam por isso, mas sei de uma coisa: é muito difícil combater uma doença sem ajuda. E, claro, seus amigos, familiares, companheiro(a) são imprescindíveis, e isso deve ser somado à ajuda profissional. Para mim, a crença em Deus foi um grande diferencial. Tendo passado por vários momentos sem Deus, sem norte, a Sua presença e a certeza de que havia algo maior foram, devagar, suplantando toda crença negativa a respeito de mim e do meu futuro. Toda a falta de sentido que por vezes domina a situação, a sensação de estar doente, de morrer, acaba encontrando com uma lógica que conflita: há, sim, um motivo e um amor maiores.

Fazer o depressivo compreender sua situação, acredito, é o primeiro passo para que ele caminhe em direção a uma melhora. Manter-se em uma zona de negatividade é muito fácil pra quem passa por isso, já que não parece, mesmo, haver saída; é como se seu cérebro fechasse as portas do entendimento e colocasse uma nuvem na frente de toda racionalidade.

Mas isso, como toda nuvem, passa. Chuvas e trovões são esperados, mas é também da chuva que germina nova vida. Como toda nuvem, encobre o céu, mas pode ser oportunidade de crescimento e renovação. E passa.

Joyce Scoralick
Mestranda em Literatura - UFJF / Oficina de Valores

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