Por: Alessandro

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A humildade é uma virtude um tanto quanto oculta. Ninguém que a possui, julga que a tem. Mesmo pessoas que convivem diariamente com uma pessoa humilde podem deixar de perceber essa característica na pessoa agradável com quem constantemente se relaciona. 

A humildade é talvez a mais mal compreendida das virtudes. Julga-se que humilde é uma pessoa bonita que se acha feia ou alguém sábio que pensa ser tolo. Se a humildade fosse algo desse tipo, seria uma grande miopia que impediria o indivíduo de enxergar a si mesmo; ou então uma mentira que a pessoa teria que se esforçar muito para acreditar. Em suma: se tal postura correspondesse à humildade, esta seria ou ignorância ou ilusão auto-infligida.

Um comportamento como o descrito acima passa longe de ser uma virtude. Passa longe mesmo de ser o que se percebe ao observar atentamente um humilde. Este não parece ser um iludido ou alienado. Muito pelo contrário. Tal fato faz acreditar que uma das melhores definições da humildade é aquela dada, por Teresa d’Ávila, grande mística espanhola: “a humildade é a verdade”.

Há ainda outra falsa percepção a respeito da humildade. Ilustro tal percepção com um comentário que, há tempos, um amigo fez em tom de brincadeira: “Para fulano é fácil ser humilde, quase não tem qualidades. Para mim é que é difícil.” Essas frases, embora ditas em tom jocoso, revelam o que muitos pensam sem verbalizar. A soberba seria, segundo esta linha de raciocínio, a simples clareza acerca das próprias potencialidades. Tal crença, no entanto, é falsa, afinal orgulho não é a percepção de boas características, mas uma atitude perante a vida. E uma atitude que muito apequena o mundo daqueles que a vivem. 

Há um conto escrito por Chesterton que expõe de maneira fascinante o paradoxo entre a grandeza do orgulhoso e a pequenez do seu mundo. Por mais que a citação provavelmente fique maior que o restante do texto, tal história é tão interessante que vale a pena lê-la na íntegra:

Era uma vez dois meninos que viviam principalmente no jardim da frente, pois sua vila era de tipo projetado. O jardim da frente tinha aproximadamente o mesmo tamanho da mesa de jantar; consistia em quatro faixas de cascalho, um quadrado de grama com alguns misteriosos pedaços de cortiça no centro e um canteiro de flores com uma fileira de margaridas vermelhas.

Uma manhã em que brincavam nesse romântico local, um transeunte, provavelmente o leiteiro, debruçou-se sobre a cerca e entabulou uma conversa filosófica com eles. Os meninos, que chamaremos Pedro e Paulo, estavam, pelo menos, vivamente interessados no que dizia. Pois o leiteiro (que era, devo dizer, uma fada) cumpriu seus deveres de estado oferecendo-lhes como de praxe qualquer coisa que quisessem pedir. E Paulo aceitou a oferta com uma brusquidão pragmática, explicando que sempre quisera ser um gigante que pudesse caminhar entre os continentes e oceanos e visitar o Niágara ou o Himalaia em um passeio de fim de tarde.

O leiteiro, tendo retirado do bolso de seu colete uma varinha, agitou-a de maneira apressada e negligente, e num instante a vila modelo com seu jardim em frente era como uma pequena casa de bonecas diante dos colossais pés de Paulo. Ele saiu caminhando com sua cabeça acima das nuvens para visitar o Niágara e o Himalaia. Mas, quando chegou ao Himalaia, descobriu que era bastante pequeno e sem graça, como o pequeno monte de cortiça no jardim; e, quando chegou ao Niágara, viu que não era maior que a torneira aberta do banheiro. Ele caminhou ao redor do mundo por vários minutos tentando encontrar algo realmente grande e achando tudo pequeno, até que, de puro aborrecimento, deitou-se sobre cinco ou seis pradarias e adormeceu.

Infelizmente sua cabeça estava logo ao lado da cabana de um caipira intelectual que saiu naquele momento com um machado em uma mão e um livro de filosofia neocatólica na outra. O homem olhou para o livro novamente. E o livro dizia: “Pode-se afirmar que o mal do orgulho consiste em estar fora de proporção com o universo”. Então o caipira pôs de lado o livro, pegou seu machado e, trabalhando oito horas por dia por aproximadamente uma semana, cortou a cabeça do gigante, e esse foi o seu fim.

Essa é a dura, porém salutar história de Paulo. Mas Pedro, curiosamente, fez o pedido exatamente inverso: disse que sempre quisera ser um pigmeu de cerca de meia polegada; e é claro imediatamente se tornou um. Quando a transformação acabou ele se encontrou no meio de uma imensa planície coberta com uma alta floresta verde e acima da qual a intervalos estranhos se elevavam árvores, cada uma com uma copa semelhante ao sol em pinturas simbólicas, com gigantes raios prateados e um enorme centro de ouro. No meio dessa pradaria erguia-se uma montanha de forma tão romântica e impossível, que parecia algum incidente do fim do mundo. E ao longe no horizonte via-se o limite de outra floresta, mais alta e ainda mais misteriosa, de uma terrível cor carmim, como uma floresta eternamente em chamas. Pedro partiu em suas aventuras através daquela planície colorida e até agora não chegou ao fim.

Para Chesterton, o salário pelo orgulho é o tédio, afinal nada é interessante para quem não é interessado e ninguém se interessa por algo quando julga aquilo como pequeno e insignificante. Além disso, quem é tomado pelo orgulho sempre perderá a cabeça. Reclamará e ficará nervoso por julgar que os outros ocupam o espaço que o orgulhoso pensa ser seu por direito. Não enxergará o mundo de forma objetiva, afinal sempre buscará ser a medida de todas as coisas.

O orgulhoso olha pouco ao redor e quando olha é de maneira competitiva e comparativa, para se certificar que não há nada acima ou ao lado, apenas abaixo. O mundo do orgulhoso, por maior que pareça, sempre será pequeno porque nunca ultrapassará a estatura da própria pessoa.

A humildade, por outro lado, é um abrir-se para o que está fora. Quem a possui interessa-se pelo mundo que o rodeia, julga a realidade grandiosa e quer conhece-la e experimentá-la. 

O humilde sente-se pequeno não porque desconhece suas qualidades ou extrapola os seus defeitos. A pequenez do humilde vem dele compreender que vive em um todo que é maior que ele, de estar tão interessado nas maravilhas que o rodeiam que não perde tempo buscando saber se é melhor ou pior que os que estão à sua volta. Sua grandeza está em viver o melhor possível a aventura que se coloca à sua frente. E tal aventura será sempre grandiosa. Pouco importa se ela se passa no Himalaia, no Niágara ou em um simples quintal. 


Obs: O conto de Chesterton citado nesse texto encontra-se no livro “Tremendas Trivialidades”, publicado pela editora Ecclesiae.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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