Por: Heloisa

Meu sonho de infância começou a se tornar realidade quando fiz a prova do vestibular e algum tempo depois veio o resultado: aprovada. Os 6 anos de faculdade me exigiram tempo e dedicação, como qualquer outro curso superior. Mas diferente de outros cursos, minha formação acadêmica precisou me preparar para a responsabilidade de tomar decisões sobre as condições de saúde e a vida de meus pacientes. E quantas vezes fiquei arrepiada pensando nessa imensa missão que teria nas mãos! Mas sabia que Deus não me deixaria só no cuidado de Seus próprios filhos.

Eu me formei em Medicina há pouco mais de um mês, e como qualquer recém formada estava ávida por começar a trabalhar. Sempre quis me especializar em Pediatria, e pretendo esse ano mesmo começar tal residência. E foi a convite de uma professora da área de Pediatria, com quem estagiei alguns meses, que dei meu primeiro plantão junto dela, na véspera de Natal. Tudo indicava que seria um plantão tranquilo.

No entanto, durante a tarde, uma bebê da UTI Neonatal que havia nascido em estado muito grave no dia anterior, começou a ter uma piora ainda maior em sua situação. Eu não era responsável pelo setor, mas me disponibilizei a ajudar pela grande quantidade de crianças. E aí começou minha primeira experiência transformadora dentro do exercício da profissão.

Resumindo a longa jornada que durou madrugada adentro, aquela recém-nascida grave me ensinou uma dimensão de ser médica que ainda não havia atingido. No total foram 7 paradas cardíacas, e ciclos sem fim de massagem cardíaca, ventilação mecânica e injeções de adrenalina. O anseio por manter a vida que havia apenas começado era maior que qualquer cansaço. Ficamos literalmente toda a madrugada ali do lado da incubadora, fazendo de tudo para desviar a morte. E como rezei! Perdi a conta do número de Ave Marias.

Uma das técnicas de enfermagem que nos auxiliava sugeriu como a voz de um anjo: “alguém podia batizar essa bebê”. E eu mesma peguei uma ampola de água e despejei naquela cabecinha proferindo as palavras “eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Durante meu primeiro plantão vivenciei a angústia em face daquela delicada situação, vivenciei todos os conflitos psicológicos e sentimentos complexos relacionados à morte, ansiedade e sensação de impotência. Aprendi que mesmo seguindo todos os ‘guide lines’, mesmo colocando em prática todo o conhecimento adquirido, o controle não estava nas minhas mãos. Precisei compreender o papel da morte como uma condição intrínseca e inegável da vida.

Apesar de nossos esforços, às 5h da manhã, a professora declarou o óbito. Tudo dentro de mim despencou, um sentimento terrível se apossou de mim. Mas logo em seguida Deus veio ao meu encontro, como sempre faz. Estendeu-me Sua mão e naquela oração, ao deitar-me na cama para um breve descanso, me lembrou que Ele é perfeito em amor e misericórdia. Deus não tem definido o tempo de vida de cada um de nós, condenando uns a morrer tão jovens. Creio que não foi Sua vontade que a pequena passasse da hora de nascer e começasse a sofrer intra-útero. Tenho no coração a certeza de que Ele tudo conhece e cuida de nós a todo instante, desde nossa concepção no ventre de nossa mãe.

Foi ali, através da minha nova profissão, que Deus se mostrou mais uma vez como um Pai amoroso, que ficou de plantão comigo, a me ensinar que Seu amor é maior que a morte, maior que qualquer dor ou sofrimento. Sei que a morte não é algo definitivo, pois Deus nos assegura a vida eterna.

Ele acolheu Lara no batismo e, algumas horas depois, a acolheu em Seus braços para colocá-la junto de Si, onde Ele “enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem dor, porque passou a primeira condição. Pois o que está sentado no trono diz: “Eis que faço novas todas as coisas”(Ap 21, 4.5).

Heloisa Woll
Médica

2 comentários:

Anônimo disse...

Helo, parabéns!
Chorei. Você e a pediatra mas linda e capaz de tuuuudo. Tenho orgulho de um dia dar o meu prximo filho em suas mãos. De sua amga Jessica Luiza "jessikinha"

Anônimo disse...

Olha, que sensação de pertença ao ler suas doces palavras... Tão delicadas, tão sinceras, que é impossível não se sentir tocado...
Parabéns Helô por esta bela escolha. E que seus pacientes sempre vejam a pessoa de Jesus em você.
Eu estarei sempre aqui, torcendo por vc! Grande abraço e tudo de maravilhoso... Mariana

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