Por: Mauro
Ipe citado no texto
Foto de Marco Carvalho www.facebook.com/marco.carvalho.967

Há alguns dias, perto da Praça da Liberdade, aqui em Petrópolis, me deparei com uma bonita visão: a de um ipê amarelo que, ricamente enfeitado, não deixava olhos indiferentes à sua presença. Era alto, de cor muito vibrante. Suas flores caíam aos montões, choviam mesmo, formando um tapete que se estendia pela calçada e rua. Além da própria árvore, as atitudes de quem passava por ali também chamavam a atenção. Alguns permaneciam parados, só olhando. Outros caminhavam, torcendo o pescoço na direção do ipê. Parecia haver até um certo ar de cumplicidade entre as pessoas, como se susurrassem umas às outras “vocês não estão vendo também?”. Houve quem registrasse o acontecimento com máquinas fotográficas e tablets, turistas talvez. Em pouco tempo, todas as flores estariam no chão, seriam varridas pelo vento, mas ficaria uma lembrança.

Às vezes, coisas bem simples nos impressionam se apresentam a nós de um jeito especial. Nos deixamos impressionar pelo que é grandioso, divertido, pelas coisas temíveis, pelos vários dramas humanos, por coisas inventadas talvez, ou até mesmo por um ipê amarelo. Enfim, temos uma enorme capacidade de ficar impressionados. Não só isso. Também temos a possibilidade de registrar essas impressões, de voltar a elas, quer seja para nossa própria recordação, para sermos novamente impressionados, quer seja para dividir essas impressões com os outros. 

Gostamos mesmo de partilhar algumas dessas impressões, além de que em muitos casos isso se torna uma necessidade realmente forte. Quando um amigo se aproxima de outro porque precisa conversar sobre algum problema que o angustia, em geral ele espera se desfazer da sensação de isolamento que a situação aflitiva possa ter criado. Ele precisa romper com a solidão e encontra no amigo o olhar de alguém que lhe é semelhante, plenamente capaz de compreender o que está acontecendo. Um amigo é um tesouro, mesmo se o problema não puder ser resolvido com uma simples conversa. A gente se identifica com as impressões alheias, se compadece e tem necessidade de trocar impressões profundas. Certamente, entre as criaturas que mais nos impressionam, está o próprio ser humano, nós mesmos.

Uma conversa é um dos meios para se transmitir essas impressões, assim como poderia ser uma carta, por exemplo. Na verdade, várias são as possibilidades que permitem também maiores elaborações, como a utilização de uma linguagem mais cuidadosa e fina, pra ser lembrada com maior força ou beleza - caso da poesia.

Algumas das pessoas da praça registraram a imagem do ipê. O recurso que tinham à mão era a fotografia. Talvez tenham apertado um botão e pronto, só isso. Já estava bom o suficiente pra se ter uma lembrança, pra mostrar à família e aos amigos. E isso tem seu valor. No entanto, as fotos poderiam ser tiradas com tal qualidade e inteligência, ser tão bem trabalhadas, que revelariam algo mais que um mero registro... poderiam ser feitas com arte. 

Há muitas possibilidades para a arte. Modalidades e habilidades diferentes, que se desenvolvem em diversos sentidos, formas e recursos. Mas ao olharmos para as grandes obras de arte, constatamos que há possibilidades que já estão plenamente realizadas, até os mais altos graus - são verdadeiras realizações que comunicam impressões instigantes sobre a realidade ou sobre mundos da imaginação. Que requerem de nós que ampliemos nossos horizontes de impressões, permitindo-nos enxergar mais longe, mais alto ou sob um ângulo diferente. Há valores escondidos nas grandes obras de arte. E também nas menores, numa medida mais modesta, é claro. Esconder esses valores, justamente para que sejam descobertos, penso que é o trabalho dos artistas.

Uma obra de arte é, portanto, um convite para descobertas. E a cada vez que se volta à obra, pode-se descobrir um aspecto novo, que não havia sido notado num primeiro momento. Se a obra é grande, seus tesouros não se esgotam no primeiro olhar, ao contrário, parece que se enriquecem com o tempo. Além disso, pensemos no exemplo de um romance. Com alguns livros, a gente se envolve tanto, que eles chegam a deixar saudades. Acompanhamos aquelas aventuras e histórias com o vivo interesse de quem ouve as histórias e aventuras de um amigo. 

Podemos apreciar um romance sem que nada saibamos sobre o autor que o inventou. No entanto, diante de uma obra com a qual realmente nos envolvemos, é natural sentir uma espécie de gratidão, pensando “que bom que alguém fez isso!”. Na maioria dos casos, o autor não poderá estar presente ou acessível ao leitor. Mas este, a partir do valor da obra, pode imaginar ou supor o valor do próprio artista. É bastante provável que procure outros romances do mesmo autor, que procure saber quem ele foi, como viveu e como pensava, enfim, que se interesse por ele. 

Muitas coisas nos impressionam: obras de arte, grandes artistas, nossos amigos, uma árvore bonita, um oceano de seres... Enxergamos o valor que têm. E se é verdade que a partir do valor da obra, imaginamos o valor do artista, quanto mais não se dirá daquele que é a fonte de todos os valores?

Mauro
Professor de Artes / Leitor do blog

1 comentários:

Bruna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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