Por: Alessandro


Tem se tornado lugar comum lermos notícias sobre um telefonema dado pelo Papa Francisco para uma pessoa que lhe escreveu, sobre ele sair escondido pelas ruas de Roma para ter contato próximo com os sem-teto dessa cidade. O atual Papa, seguindo passos de alguns de seus predecessores, tem adotado uma postura de proximidade. Tal fato ficou bastante visível na última Jornada Mundial da Juventude.

Este tom de proximidade e intimidade está bastante presente no último documento assinado pelo Papa, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que traduzido para o bom português significa “Alegria do Evangelho”. Este documento tem ainda a característica de ser “pós-sinodal”. O que significa isso? Significa que bispos do mundo inteiro foram convocados para pensar e aconselhar o papa sobre um assunto específico e que o documento foi escrito levando-se em conta tudo aquilo apontado por pessoas provenientes dos cinco continentes. O tema da vez foi a “Nova Evangelização”, que é, entre outras coisas, o esforço da Igreja por levar o Evangelho a regiões e pessoas que já o receberam. Resumindo: a cristianização do que outrora foi cristão. 

No início da Evangelii Gaudium é dito que “hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos”. Infelizmente tal diagnóstico é verdadeiro e muitas riquezas dos últimos papados têm sido sumariamente ignoradas. No que diz respeito a esta última exortação apostólica do Papa Francisco, deixá-la de lado será uma perda muito grande, tantos para católicos quanto para não católicos. Há nela um belo programa para a Igreja que, sendo aplicado, tem o poder de gerar bons e necessários frutos.

Um dos pontos que mais encanta no texto da Evangelii Gaudium é que ele poderia ser bastante impessoal, visto que é fruto de uma elaboração inicial coletiva; no entanto, o Papa Francisco consegue transformar um documento oficial numa espécie de carta para amigos. Em diversos momentos apresenta um tom coloquial e escreve como quem conversa e aconselha.

O conteúdo da carta toca em vários aspectos da vida da Igreja hoje, além é claro de traçar diretrizes para o trabalho dos cristãos no futuro próximo. Resumido dessa maneira, no entanto, não se comunica a beleza e a força das palavras do Papa nesse documento. Há, na Evangelii Gaudium uma convocação aos católicos para que assumam a mensagem que lhes foi confiada. Além disso, é presente um apelo para que se separe o essencial do Evangelho daquilo que, embora belo, lhe é apenas complemento. Nesse aspecto o atual pontífice segue de perto a famosa sentença de Santo Agostinho: “No essencial a unidade; no duvidoso a liberdade; e em tudo a caridade”.

O título do documento entrega bem sua mensagem central: O Evangelho é a grande fonte de alegria e os cristãos tem o dever de transmiti-lo. Transmiti-lo traduzindo-o para cada cultura ou situação e respeitando a liberdade daqueles a quem é dirigido. Os cristãos devem adotar uma postura de diálogo, mas devem sempre comunicar o Evangelho. Deixar a dinâmica missionária de lado é destruir o próprio cristianismo.

O Papa Francisco, considerado por tantos um revolucionário, simplesmente repete a mensagem que os cristãos vem insistindo já faz dois mil anos: no encontro com Jesus Cristo encontra-se a alegria. Esse encontro, no entanto não é uma posse definitiva, mas algo que deve ser renovado diariamente na vida daquele que crê. Esse encontro com o divino não é algo meramente “espiritual”, mas ganha carne no encontro com o outro.

Há uma grande insistência nas consequências sociais da evangelização. Há, na Evangelii Gaudium, o seguinte diagnóstico: “a desigualdade é a raiz dos males sociais”. A luta por um mundo mais fraterno não pode, no entanto, ser resumida em planos econômicos melhores e a uma política mais justa. É necessário contato, é essencial o encontro com aquele que está em situação desfavorecida. 

É perceptível no Papa a preocupação com certas posturas religiosas que cultivam ao pessimismo frente ao mundo contemporâneo. Não nega os desafios, mas afirma que o desespero costuma ser fruto de uma espiritualidade superficial e egoísta.

Como já mencionado, a alegria está no encontro com Cristo. Em encontrá-lo e em se entregar a Ele. Há diversas passagens na qual o papa fala sobre a tristeza que decorre de uma negligência egoísta e de uma indiferença individualista. Contra tal postura, ele diz de forma direta: “Não se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade. Isto não é senão um lento suicídio.”

Para o Papa Francisco o “grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, não se ouve a voz de Deus, não se goza da doce alegria do seu amor nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Esse risco, certo e permanente, correm também os crentes. Muitos caem nele, transformam-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha de uma vida digna e plena nem o desígnio que Deus tem para nós.”

Em oposição à tristeza contemporânea, o Papa apresenta a alegria do Evangelho. Tal alegria, na contramão da atual visão de mundo, não se encontra no ter e no isolar-se, mas em ser, encontrar-se e doar-se. 

O projeto é simples. Uma antiga mensagem que continua sendo eterna novidade. O Evangelho, dois mil anos depois, continua sendo alegria e a alegria nunca deixará de ser evangelho, isto é, uma tremenda boa notícia.

Alessandro Garcia da Silva
Doutorando em Ciências Sociais - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores


OBS: todas as citações, salvo indicação em contrário, foram retiradas da “Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, publicada pela Editora Paulus em conjunto com as Edições Loyola.

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