Por: Thales

Sempre me admirei muito com o talento que alguns amigos meus têm para tocar instrumentos musicais. Eu gosto muito de ouvir música e sempre achei que conseguir cantar ou tocar as canções prediletas fosse tão extraordinário e fascinante, que esse era um dom para poucos. Desde a minha infância, tentei algumas vezes aprender umas lições de gaita, flauta ou violão, mas todas foram muito frustradas. Percebia que a coisa era realmente muito difícil para mim e cada vez me convencia mais de que eu não tinha nenhum talento pra isso.


Há uns meses atrás, porém, pedi a uma amiga que estava fazendo aula de violão para me ensinar a tocar uma música de que gosto muito e que ela também estava aprendendo a tocar. Meu desempenho deve ter sido igualmente terrível, mas acho que consegui pelo menos tocar uma nota ou outra e talvez por isso aquela experiência me animou a tentar de novo a aprender a tocar violão. Comprei um violão bem baratinho, tentei acompanhar algumas vídeo-aulas no YouTube, e comecei fazer aulas particulares. Desde então tenho dado os primeiros passos para aprender este instrumento e, apesar de não saber ainda tocar bem uma música sequer, reconheço que tenho feito um pequeno progresso.

Uma coisa interessante que estou observando é que aprender a tocar um instrumento ensina muito mais do que apenas a fazer música. Tenho aprendido lições que vão muito além da simples habilidade com acordes e ritmos. Gostaria neste texto de compartilhar duas destas lições que considero mais importantes para minha vida.

Calos são bem-vindos

Nas primeiras semanas de meu propósito de aprender a tocar violão, eu praticava todos os dias, várias horas por dia. Eu gostava muito daquela música e tinha vontade de aprendê-la o mais rápido possível. Eu me empolguei bastante com meu progresso nessas semanas, pois, já que inicialmente eu não sabia nada, qualquer acorde que conseguia reproduzir com sucesso já era uma grande vitória. O problema é que logo apareceram as primeiras feridas nas pontas dos dedos, e aí eu me lembrei de um dos principais motivos que me fizeram desistir de aprender violão no passado: dói.

Confesso que essa dor me desanimou muito. Fiquei alguns dias sem tocar, pois achava que meus dedos, já roxos, não iam aguentar mais. E de novo pensei: isso realmente não é para mim. Porém, apesar dessa dor, eu não desisti e logo vieram as primeiras bolhas, que secaram e viraram calos. Depois de um dia em que toquei várias horas seguidas, eu de repende percebi que não doía mais. Os calos fizeram meus dedos ficarem mais resistentes.

Na minha vida também tem sido assim. Quantas vezes eu me empolgo para fazer algo de bom? Às vezes quero apenas fazer bem feita a minha obrigação. Outras vezes, quero começar um projeto, ou a cultivar um hábito bom. Mas logo as dificuldades aparecem... E quantas vezes eu não desisti por causa destas primeiras dores...? O problema é que nós muitas vezes não vemos que se continuarmos mais um pouco, se não pararmos nos primeiros contratempos, nunca vamos conseguir superar as feridas.

Aprendi que não dá pra evitar a dor. Se queremos ser bons, se queremos ser excelentes em algo, não existe caminho sem pedras. Ficar procurando um jeito cômodo e fácil de resolver as coisas e de seguir em frente muitas vezes serve apenas para nos paralisar. É preciso reconhecer que muitas dificuldades existem para serem vencidas, e não para serem evitadas. E é preciso enfrentar essas dificuldades, essas primeiras feridas, com vigor e decisão e com a certeza de que uma hora os calos aparecerão e logo será mais fácil vencer esses desafios.

É preciso saber se alegrar com os pequenos passos

Assim que comecei a aprender e a conseguir distinguir as primeiras notas da música que tentava tocar, eu me convenci de que em pouco tempo estaria tocando com perfeição todas as minhas músicas prediletas. Se em apenas um dia eu, que ainda não tinha experiência, conseguia aprender metade de uma música, depois de algumas semanas de prática eu seria capaz de aprender qualquer música em poucos minutos, certo? Errado...

Na verdade, percebi que meu progresso no violão ficava cada vez mais lento. Se era relativamente fácil decorar qual era a sequência de acordes do refrão, era muito mais difícil trocar os acordes no tempo certo e com perfeição. Depois de uma semana ainda não conseguia tocar nem mesmo uma música completa e mesmo o que eu conseguia estava muito longe de ser bom. Isso me desanimou muito. Comecei a perceber que demoraria meses, ou até mesmo anos para eu poder dizer que sabia tocar violão. Me bateu uma preguiça enorme e eu fiquei uma semana inteira sem praticar. Ou seja, a perspectiva do esforço me fez perder toda a alegria que eu tinha sentido com minhas conquistas iniciais.

Percebi que é assim também na minha vida. Muitas vezes eu já quis vencer os meus defeitos e tudo que eu pensava era erradicá-los da minha vida. Quando percebia que o caminho era árduo, e que era impossível mudar os meus hábitos de uma hora para outra, eu não percebia que eu tinha feito algum progresso e me desesperava da possibilidade de ser melhor. Eu volta e meia faço o propósito de deixar meu quarto sempre arrumado. Só que depois de um tempo, quando vejo que minha desordem é maior do que eu achava que era, eu desisto.

Na verdade, nós devemos procurar sempre dar passos em direção ao que queremos. É claro que temos que procurar alcançar grandes ideais e objetivos, mas temos que aprender a conquistar terreno, a ganhar a guerra aos poucos, e não em apenas um fôlego só. Em resumo: é preciso ter paciência com nosso progresso, e saber se alegrar com nossos pequenos passos. No meu caso, era preciso eu entender que para um dia eu conseguir manter todo o quarto arrumado, eu tinha que primeiro me preocupar em colocar os sapatos no lugar... E quando eu consegui fazer isso, pude me alegrar com essa pequena conquista, e logo procurar uma outra batalha para lutar.

Aprender a tocar, aprender a viver

Recomendo a todos que tenham a experiência de aprender a tocar um instrumento. Mas não vamos desistir nas primeiras dificuldades! Prossigamos com paciência e perseverança! Vale a pena, pois fico muito feliz de perceber que aprender a tocar violão tem me ensinado muito mais do que simplesmente a tocar um instrumento. Ainda tenho muito a aprender até conseguir tocar bem, mas vislumbro com alegria o longo caminho de aprendizagem que tenho pela frente... Fazer música tem me feito muito bem, pois é algo que me diverte e me encanta. Mas, além disso, vejo que aprender um instrumento tem me ajudado a ser uma pessoa melhor. Aprender a tocar violão tem me ensinado a tocar a vida...

Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia - UFRJ / Oficina de Valores


1 comentários:

Robson Armando Rodrigues disse...

Muito bom Thales!! As vezes, quem já sabe, faz tudo muito mecanizado!! E estes pequenos valores e aprendizagem passam despercebidos!! Levei uma sacudida com seu texto!! Obrigado!!! Força ai e não desanime!! O caminho é árduo mais sei que você chegará lá!! Forte abraço e que Nossa Senhora cuide de ti e te sustente!!

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