Por: Leonardo



Quando criança gostava de assistir um desenho animado chamado Ducktales – uma série baseada em personagens da Disney. Deliciava-me com as aventuras do Capitão Boeing ou as mirabolantes invenções do professor Pardal e do seu ajudante Lampadinha, personagens que eram secundários na trama. As histórias eram centradas na figura do quaquilionário Tio Patinhas e sua incalculável fortuna. Acredito que todos lembramos de sua moedinha número 1, um objeto de desejo de tantos inimigos e retentora de imenso valor sentimental para seu dono.

Creio hoje que o primeiro livro que ganhei também possua para mim uma grande estima e importante significado. Recebi de uma amiga de minha mãe A bolsa amarela de Lygia Bojunga como presente por ter tirado boas notas. Apesar de já ter lido anteriormente outras obras, considero essa como a que tenha melhor contribuído para aguçar minhas pequenas necessidades de leitor: curiosidade, fascínio e atração. Todavia, naquele momento, não imaginava que o livro, que no atual momento encontra-se todo furado por vorazes traças leitoras, seria tão importante para minha formação.

A obra de arte em si mesma não possui o intuito pedagógico ou moralizante, porém sabemos dos seus impactos na formação da personalidade, da inteligência e da afetividade. Consequência disso deve ser a mudança de comportamentos e da forma como entendemos o mundo e o outro. (Não quero dizer que se por acaso gostamos de literatura policial seremos futuros assassinos cruéis ou então grandes investigadores criminais. Mas aprimoramos nosso senso crítico e podemos muito bem diante de alguns filmes conseguir desvendar o mistério antes dele chegar ao fim).

Naquele livro, em que apresenta na sua narrativa o processo de construção da identidade da protagonista, percebi que esse processo poderia servir de espelho para leitores, que como eu, estavam envolvidos nas descobertas inerentes ao crescer e tornar-se adulto. Raquel, a protagonista, é a heroína em que as crianças, leitoras da obra, travam imediato contato assimilando ideias e sentimentos, pois na narrativa ela reivindica o seu reconhecimento como indivíduo pensante no meio em que vive.

Assim sendo, podemos dizer que a função da literatura na formação da identidade dá-se pela mediação do discurso literário, quando essa é uma linguagem impregnada de ideias e mensagens oferecendo ao leitor uma reflexão a respeito de valores. O mundo mágico criado pelos escritores, por mais distante que possa estar dos leitores, comunica-se conosco, porque fala de assuntos universais de maneira particular, com seus enigmas e soluções, dando um maior suporte para o conhecimento do mundo além de nos proporcionar a concepção imaginária dos personagens e dos cenários.

Dessa forma, sabemos que nossa identidade é produzida ao longo da construção de nossa história – algo que existe em constante processo – que depende de relações para sua constituição. Uma maneira de realização disso é por meio das práticas discursivas e dessa forma a literatura pode atuar como agente de transformação. 

Leitores identificam-se com os personagens e projetam suas vidas nas expectativas dos protagonistas. Sonhos são compartilhados à medida que as páginas vão chegando ao fim. Quem já não ficou aborrecido por perceber que o livro estava chegando ao final, quando algum personagem morre ou ainda quando age de forma imprudente ou com peculiar sagacidade. 

Podemos dizer que a literatura surge como representação da realidade social sendo suporte para a experimentação do mundo, da vida, das dúvidas e dos questionamentos abrindo espaço para a experimentação de outros universos. O poeta Mário Quintana disse uma vez que “Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores”. Que tal realizar essa experiência: leia um bom livro e após tente descobrir se houve algum impacto em sua vida.

Leonardo Barros Medeiros
Doutorando - Universidade de Coimbra

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