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Antes mesmo de sua estreia, “A Culpa é das Estrelas” já tinha seu sucesso garantido. O trailler do filme foi assistido mais de 16 milhões de vezes na internet. O livro no qual ele é baseado vendeu, só no Brasil, mais de 420000 cópias. Não foram poucos comentários de boas expectativas divulgados nas redes sociais nos meses que precederam o lançamento. Um deles dizia sucintamente: “KeepCalm e assista A Culpa é das Estrelas”.

O sucesso prenunciado concretizou-se já no primeiro fim de semana. O filme arrecadou, logo nos primeiros dias de exibição nos EUA, US$ 48 milhões. Para se ter uma noção melhor do sucesso basta saber que o custo de “A Culpa é das Estrelas” foi de US$ 12 milhões. Ou seja, apenas no primeiro fim de semana, o filme arrecadou quatro vezes aquilo que custou.

Agora a grande questão: o sucesso é merecido? Ou seja, o filme é bom? A resposta é um pouco mais complexa do que parece em um primeiro momento. “A Culpa é das Estrelas” não traz nenhuma grande inovação, não tem uma história genial ou atuações excepcionais, mas cumpre bem o objetivo a que se propôs, que é o de adaptar um livo escrito visando prioritariamente o público adolescente.

Dizer que um filme visa um público específico não signifcadesmerecê-lo. Implica apenas em “calibrar o olhar” na hora de redigir uma crítica, o que nem sempre é fácil de fazer. Ao mesmo tempo um filme bom para um seguimento deverá poder ser apreciado por outros. Para dar um exemplo: diversas animações da Disney foram feitas pensando no público infantil. Isso não impede que um adulto as aprecie, embora o faça a partir de uma experiência bastante diferente daquela feita pela criança.

Nos quesitos técnicos “A Culpa é das Estrelas” é um filme ok, com alguns elementos fracos.  A dupla de atores protagonistas, por exemplo, tem pontos fortes e fracos. Shaylene Woodley tem talento e constrói uma Hazel Grace que consegue gerar empatia com o público. Já Ansel Elgort, no papel de Augustus, não realiza uma grande atuação, embora talvez a responsabilidade não deva recair sobre seus ombros, mas sobre o personagem que interpreta que, em boa parte do filme, não possui conflitos interessantes a serem explorados e funciona apenas como “amor perfeito” para Hazel. Vale frisar que os dois atores estão melhores que em “Divergente”, outro longa para adolescentes no qual intepretam um casal de irmãos.

O roteiro possui clichês e há alguma cenas forçadas, como a que ocorre na Casa de Anne Frank. A narrativa imita outros filmes do gênero, como“500 Dias com Ela”. O elenco de apoio não funciona tão bem.

Se o filme tem tantos problemas, onde está a sua força? Simples. Na história que busca contar. “A Culpa é das Estrelas” conta uma lovestory que transcorre entre dois adolescentes que se conhecem em grupo para pessoas com câncer. Aquilo que poderia ser um dramalhão desrespeitoso funciona bem. A doença é retratada com certa naturalidade e serve como o pano de fundo trágico onde se desenvolverá a paixão de Hazel e Augustus.

O sucesso de “A Culpa é das Estrelas” está enraizado na sua temática, afinal amor e mortalidade são experiências universais. A luta do amor contra a morte é uma experiência que qualquer pessoa que já perdeu um ente querido, ou correu o risco de perder, viveu na pele.  Se pensado em sua radicalidade, esse é um drama que todos vivemos todos os dias, apenas não prestamos tanta atenção nele quando não estamos em situações extremas.

Ao longo do filme, de maneira sutil, amor e morte são discutidos e a temáticada continuidade da vida aparece. Augustus deseja permanecer vivo na memória da humanidade, deseja realizar grandes feitos que não sejam esquecidos. Hazel diz que isso de nada vale porque, no longo prazo, ninguém mais estará aqui. A discussão em alguns poucos momentos torna-se religiosa. Há vida após a vida? Hazel parece não saber. Antonius crê que sim e afirma que sem a eternidade, aquilo que viviam não faria sentido.

O filme não se posiciona sobre as grandes questões da existência, mas as coloca de forma candente. O único caminho de resposta colocado diz que não é o tempo de uma vida que a faz maior ou menor. Uma vida é por definição infinita. O grande ponto é que, mesmo matematicamente, existem infinitos maiores que outros. Os dois adolescentes viveram umamor dentro dos fortes limites que lhes foram colocados, mas isso não lhes tornou menores. A relação que cultivaram fez com que o infinito de um tocasse o de outro.

Alguns dos diálogos de “A Culpa é das Estrelas” me lembraram um belo conto de Neil Gaiman. Este conto começa com uma conversa dentro de uma taverna medieval. Um homem insistia em dizer que se recusaria a morrer. Os outros diziam que a morte era para todos. Aquele homem dizia que ele não era como todo mundo. A Morte ouviu a conversa e julgou aquele homem interessante. Resolveu então permitir que não morresse. Cerca de 800 anos depois, em uma situação que saiu de seu controle aquele homem morreu. Ao encontrar com a morte ele disse: “Até que me saí bem. Oitocentos anos”. Ao que ela respondeu: “Você teve o mesmo que todo mundo. Uma vida inteira”.

Tal posição é bela e faz com que cada dia seja olhado como um todo de potencialidades infinitas. No fundo, o tempo não é um valor absoluto, é subordinado a infinitos que são maiores que ele. A intensidade e a qualidade da vida são maiores que a quantidade da mesma.

Há verdade nessa visão. O problema é que ela é incompleta. O amor e a vida realmente são infinitos ainda que contidos em limites. Mas tanto o amor quanto a vida não se contentam com tal infinito. Aspiram o eterno. Todo limite, nesse caso é frustrante e todo término é trágico. A vida para além da vida mais que uma hipótese, torna-se uma necessidade. Como já disse o poeta: amar é dizer “tu não morrerás jamais”.

Para terminar cabe um breve comentário sobre o título do filme (e do livro original). “A Culpa é das Estrelas” tem origem em um pequeno fragmento de uma peça de Shakespeare que diz: “A culpa, querido Brutus, não está nas nossas estrelas, mas em nós mesmos”. No trecho do grande bardo inglês chama-se a atenção para a responsabilidade que os seres humanos tem na construção de suas próprias tragédias. Ao inverter a formulação para criar o título de sua obra, John Green está dizendo que nem tudo está em nossas mãos. Que há tragédias que vem “das estrelas”, ou seja, que simplesmente acontecem. Alguns dirão que é destino, outros afirmarão ser fruto do acaso.

Ainda que a culpa seja das estrelas, o sofrimento é humano. Diante da dor do amor interrompido e da vida ceifada sempre antes do tempo existem aqueles que afirmam o absurdo de uma existência sem sentido; os que buscam viver o hoje sabendo que o amanhã será o nada; os que tentam ignorar a questão. Há ainda um último grupo: o daqueles que não ignoram a dor do absurdo da morte e do sofrimento. Mas nutrem a esperança de que há mais por trás do véu. Que a realidade não se esgota e que o amor e a vida tem a palavra final. Estes choram e sofrem, mas acreditam que a realidade última é um grande sorriso. Tais pessoas talvez não julguem as estrelas culpadas, mas acreditem que elas, ao rasgarem a escuridão com sua luz que parece distante, sinalizam que por trás das trevas do sofrimento e do absurdo há uma realidade de sentido e festa.

Que assim seja!

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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