Por: Gustavo

Sou rubro-negro, e muito! E, por mais que não pretenda fazer um texto sobre o Flamengo, quero fazer do primeiro parágrafo um pequeno lamento pela atual situação do meu time. Sofro pela penúltima colocação no Brasileiro, do qual, eu sei, não seremos rebaixados, mas também, já sei, não disputaremos nada de relevante. Sofro mais pela eliminação na Copa Bridgestone e por não ver um time tão bom quanto o que conquistou a Copa Perdigão.

É, Copa Bridgestone! É, Copa Perdigão, isso mesmo! Nunca ouviu falar? Claro que já! Provavelmente pelos nomes “Libertadores” e “do Brasil”, respectivamente. Aqueles nomes, antes citados, são seus novos nomes do meio, registrado em um cartório que torcedor nenhum reconhece e legitima, o patrocínio. É, eles não se contentaram com o justo espaço das placas à beira do campo. Nem com a poluição de nossos “mantos sagrados”. Querem agora nomear os nossos mais tradicionais campeonatos. Mas vem cá, já viu algum torcedor chamar os campeonatos assim? A indústria, que nunca teve lá muito senso do absurdo, agora perdeu também o do ridículo, querendo fazer-nos consumir quase que compulsoriamente suas marcas quando o que procuramos é o nosso sadio lazer e a nossa mais louca paixão nacional.

Já imaginou seu time com uma “marca” no nome? “Clube de Regatas e Automóveis Pegeout-Flamengo”. “FlormineC...” Perdão, é o hábito... “Fluminense-Unimed Football and Health Club”. Ou, o meu favorito, “Botafogo-Guaraviton de Futebol, Regatas e Sucos”. Absurdo? Impossível? Fãs de futebol provavelmente conhecem o suficiente de futsal pra saber que o clube onde jogou quase toda carreira o maior jogador de salão de todos os tempos, Falcão, chama-se Malwee-Jaraguá, nome que muito ouvia e muito demorei a saber ser uma conjugação de uma marca de roupas (Malwee) com a cidade sede do clube. Temo que haja de chegar o dia em que a moda passe pelo absurdo de invadir o nome dos clubes e chegue a sua horrenda apoteose de mudar, concretamente, pois já o faz de outras maneiras, a identidade de jogadores (pessoas!). Já pensou em alguém indo ao estádio gritar: “Vai Neymar Lupo jr!”. Ou gritar para a televisão (é, nós fazemos isso): “Esse Cristiano Nike Ronaldo joga muito!” ou “Esse Lionel Adidas Messi é craque!”

E falar de futebol nesta época é falar de “Copa da FIFA” ou (riam comigo) “Copa da Globo”, como os narradores, comentaristas e jornalistas dessa emissora nos querem fazer chamar a nossa querida, e ainda, Copa do Mundo ou, carinhosamente, “Copa”. Se os preços dos estádios (ingressos e produtos) ou o excesso publictário, não sei dizer o que é mais abusivo. Só sei que no ritmo que vão as coisas, em breve assistiremos duas horas de propagandas para cada hora de partida e em algumas décadas veremos a FIFA organizar copas sem futebol, é, sem futebol: Nos cobrarão ingressos ou nos farão assistir na TV a jogadores desfilando marcas e fazendo algumas embaixadas: um jeito de mostrar chuterias ultramodernas (e cada vez mais feias, diga-se) e fingir que ali se joga alguma coisa com os pés. Preciso dizer para não parecer pessimista demais: esta está sendo uma copa bem jogada: alta média de gols, partidas memoráveis, grandes equipes e destaques individuais, enredos de revanches e superações que conferem a ela tom de história épica. Vejo nisso que ainda há futebol e que ele, como na essência do seu jogo, não se deixa vencer facilmente. Mas para vê-lo, estão nos cobrando, no mínimo, paciência para encontrá-lo em meio a um tanto mais de coisas pouco esportivas, muito “financeiras”, eu diria.

Futebol nunca(!) se tratou de dinheiro. Grandes jogadores de décadas atrás vivem hoje com a renda de aposentados comuns. Fora os dois ou três craques do time, todos ganhavam por jogo! Hoje, fazem-se rankings sobre os jogadores contando seus gols, suas assistências, seus jogos e seus preços e salários! O que isso diz sobre um jogador? Nada! A seleção tem os dois mais caros zagueiros da história do futebol que não são, nem de longe, os dois melhores zagueiros da história. O futebol, no Brasil, sempre tratou de representar um sentimento nacional, de ser “a pátria de chuteiras”. Os estádios não eram lugar de consumo, ou de lucro, mas lugar onde o povo consagrava heróis como os das páginas das grandes histórias, mas ali ao alcance dos olhos e por vezes dos abraços. Irritava-se e divertia-se e, no fim, ia para casa com a alegria de ter escolhido o lado vitorioso ou a esperança de que seu lado seja o vencedor da próxima vez. 

Sou fã de futebol, torcedor e me arrisco às peladas. E aqueles que não o são ou fazem talvez não entendam o sentimento que expressarei, mas digo desse esporte o que muita vezes cantei restritamente sobre meu clube: “Eu teria um desgosto profundo se faltasse o futebol no mundo.” Qualquer garoto que tenha crescido em um campo de pelada com os amigos e/ou tenha acompanhado as campanhas do seu time do coração pelos campeonatos a fora sabe que trata-se muito mais do que de dinheiro, ou mesmo de vitória ou derrota, etc. Futebol educa! Trata-se de aprendizado, de amizade, de alegria e de fazer parte de um grupo, uma comunidade, algo maior que você, afinal, como se diz aos meninos “fominhas”: “futebol é coletivo”. Como diz o Coringa num dos filmes mais recentes do Batman: “Não é pelo dinheiro, é pra passar uma mensagem.” E, resume melhor o mestre da crônica que eu, é esta:

O futebol profissional exige dinheiro, mas não só dinheiro. Ele implica algo mais, ou seja: implica OS TAIS VALORES GRATUITOS que conferem a um jogo, a uma pelada uma dimensão especialíssima.” Nelson Rodrigues.

Gustavo Lima
Estudande de Jornalismo - UERJ / Oficina de Valores

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