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Chegou mais um 12 de Junho, data significativa no País! Esse ano especialmente, por dois motivos: dia dos namorados e a tão esperada (ou não) abertura da Copa do Mundo da FIFA. Salvo a exceção da Copa, a regra é que o dia 12 seja o dia do “amor”, das mais diversas e criativas demonstrações de afeto e na visão de alguns o dia da hipocrisia e dos superfaturamentos de restaurantes e floriculturas. Existem opiniões para todos os gostos.

O fato é que não é fácil obter sucesso nos relacionamentos amorosos atualmente. Talvez não faltem pretendentes, falta é gente em condição de assumir a vaga de “namorado (a)”. Aliás, o próprio termo namorado (a) caiu em desuso e isso não é de hoje. Por parte das mulheres a ideia de que homem não presta... os homens por sua vez, pensam que mulher é tudo igual. Formamos uma espécie de clube do Bolinha vs clube da Luluzinha,  e nos relacionamos afetivamente como se estivéssemos em um jogo em que o alvo do meu interesse afetivo é apenas um rival. A conquista é um troféu, o chamado “toco” é uma derrota e, assim como nas grandes competições, existe preparação e estratégia para vencer o jogo.  A diferença,  a grande diferença... é que em se tratando de relacionamentos você pode ter uma sala repleta de “troféus”,  mas um troféu nunca será de fato uma companhia.

O que estou explicando é que aquilo que o sociólogo Baumann chama de relacionamentos líquidos:

"Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si".

Esses relacionamentos líquidos, que podemos entender também como laços efêmeros, nos aprisionam em uma concepção extremamente egoísta do tipo: “não quero me envolver porque ninguém é digno de mim”. No fundo, quando penso isso, eu é que não estou sendo digno de ninguém, pois provavelmente, por pensar assim,  lido com os meus relacionamentos sendo um “homem que não presta” e no caso das leitoras, uma “mulher que é igual a todas”. Assumir essas generalizações significa constatar que nos enquadramos nesses estereótipos.  E quando constatamos isso,  desistimos do amor.
            Se ninguém presta, de que adianta apostar num relacionamento?

Vou tentar responder a essa questão a partir de alguns fenômenos contemporâneos dos relacionamentos:

1 – A idealização de que o outro (a) é a resposta à minha sede de amor.

Assumidos ou não, todos somos carentes. Todos nascemos com um desejo enorme de amar e sermos amados. É aquilo que experimenta o Surfista solitário*: “mar doce lar, vasto e profundo... mais vasto é o meu coração que não cabe nesse mundo e precisa transbordar”. Por vezes acreditamos que esse transbordar se realiza no outro. Mas nos esquecemos que o outro tem a mesma sede de amor que nós.

Aí o resultado é óbvio, um se fecha no outro e ambos se fecham para o mundo a volta, para que um realize a sede de amor do outro. No fundo o que experimentam é uma carência a dois. O que chamamos de dependência afetiva. O namoro muitas vezes se resume a ciúme, possessividade, discussões e carícias. O substancial se perde e o término, seja a curto, médio ou longo prazo é inevitável... Aí o que resta é frustração, desolação e descrédito no amor. Muitas pessoas acham que é impossível fugir disso e encontram a resposta no próximo fenômeno.

2 – Ficar

O popular “pegar”, apresentou-se inicialmente como uma forma de conhecimento, uma espécie de teste. Sob a seguinte justificativa: “não posso namorar sem conhecer, é necessário antes ficar pra ver qual é.” Sempre que ouço essa justificativa me questiono sobre o que se conhece da pessoa “ficando” que não se conhece conversando? O beijo! Ou até algo mais, paremos no beijo. Será que isso é determinante pra escolher uma pessoa pra namorar?

Depois o ficar involuiu, passou de um estágio de conhecimento para o símbolo do jogo Bolinha vs Luluzinha. Não serve pra conhecer, serve pra competir! Quem pega mais gente é rei nas rodas de conversa, dos homens e das mulheres. Já que não dá pra amar e ser amados, vamos usar e ser usados. Assim todo mundo se diverte e ninguém sai mal da história.

As máximas de sabedoria popular “Diga-me com quem andas e te direi quem és” e “quem anda com os porcos farelo come”, podem carregar uma generalização, mas é incontestável que se aplicam e muito aos nossos relacionamentos. Como as mulheres encontrarão o príncipe encantando se procuram em homens que a chamam de “cachorras”, “assanhadas” ou outros adjetivos que prefiro não publicar? Como os homens encontrarão a mãe dos seus filhos se procuram nas mulheres “que vão pro baile de sainha” ou que postam constantemente fotos do corpo exposto no facebook para ganhar milhares de curtidas? Dificulta, né?

O ficar, a pegação ou qualquer outro adjetivo que se dê a essa prática, sempre se apresentará como uma falsa promessa de companhia que não corresponde verdadeiramente à nossa sede de amor. Será que estamos fadados a constantes frustrações amorosas?

Proponho, para auxiliar a reflexão um pequeno exame de consciência:
I – O que espero de um relacionamento?
II – Que tipo de pessoa procuro?
III – O que considero necessário para que o relacionamento seja bom?
IV - Eu tenho as características e qualidades que considero necessárias?

Apostar no relacionamento significa apostar em si mesmo e lançar-se no mistério do outro. A pessoa nunca é a fama que ela tem, pode ser melhor ou pior, mas nunca é exatamente a fama. Quando amo alguém verdadeiramente (para além da paixão inicial) eu faço a experiência de conhecê-la como ela é. Isso é de uma beleza inesgotável, que é fruto de convivência, diálogo maduro e acima de tudo, uma meta compartilhada. Nada vale tanto a pena quanto a redescoberta do amor.

Redescubrimos o amor, quando entendemos que não estamos num jogo, estamos num caminho, que a outra pessoa não é um rival, mas uma companhia, e que o namoro não é uma resposta, é uma pergunta: será essa a pessoa com quem quero passar o resto da minha vida? O caminho se faz caminhando, sem pressa e sem medo de tropeços.  Quando pensamos em nós mesmos caminhamos mais rapidamente, mas quando pensamos no outro nós vamos muito mais longe!


Indico essa reflexão do Danilo Badaró, indispensável nesse dia dos namorados, sobretudo, pra quem já namora (NÃO DEIXEM DE OUVIR):

http://voice.adobe.com/v/NHn2wCgxyAe

*Música “Solitário Surfista” Gabriel o Pensador e Jorge Benjor


Rodrigo Moco
Psicólogo/Coordenador da Oficina de Valores

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