Por: Adriano

Lembrar da JMJ e fugir dos clichês é bem difícil. "Parece que foi ontem", "marcou a minha vida", "nunca antes na história desse país"... Daria pra ficar algumas horas aqui só comentando, na base do "você lembra?" ou "e o Papa, né? Muito bom, ele!". Muitas boas lembranças também sobre a Semana Missionária, que pra nós de Petrópolis foi realmente espantosa. Todos aqueles peregrinos passeando pela cidade e participando de eventos por uma semana inteira não serão esquecidos. 

Tive a graça de poder contribuir com esse grande evento, como tradutor na Semana Missionária e, já durante a JMJ, trabalhei como voluntário no Festival da Cultura e fui designado pra coordenar um espaço de cinema dentro da Favela da Maré. Essas duas experiências, além das particularidades inerentes a trabalhos voluntários, me marcaram de uma maneira que agora, um ano depois, lembrar disso me faz pensar: a Jornada me marcou, mas eu deixei a marca permanecer? Fiz disso uma mudança de vida? Tornei-me um legado, um fruto dessa JMJ?

O trabalho de tradutor era meio árduo. Achar as palavras certas e fazer sentido em outra língua não é fácil nem pra quem está acostumado. Mas graças a isso, hoje posso entender como é intrigante e ao mesmo tempo sensacional poder me comunicar com alguém que entende pouco (ou nada!) do que eu falo, mas olha na mesma direção que eu, tem o mesmo objetivo. Nessas situações o milagre de Pentecostes acontece novamente. Não, não é exagero. Acontece em gestos pequenos, como mostrar pra alguém da Alemanha onde fica o banheiro, ou levar um chileno pra conhecer a biblioteca do nosso Centro de Cultura, e no caminho saber que o Colo-Colo tem mais torcida do que a Universidad de Chile. Em momentos como estes percebi, em gesto beeeem pequenos, que  barreiras caíram, que fronteiras foram ultrapassadas. Fui presença de Deus para um peregrino, e ele foi "presencia de Diós", "God's presence" pra mim.

Pensar nos momentos vividos naqueles dias, me leva a crer que neles reside um legado importantíssimo da Jornada pra nós - mesmo entre pessoas que não falam a mesma língua, foi possível aprender a colocar-nos como pessoas dispostas a entender o que o outro diz ou precisa, facilitar a vida do irmão. Mesmo que seja só um pouquinho - isso faz diferença.

No Festival de Cultura, além da lição que mencionei acima, aprendi outra coisa também. Pra quem não sabe, esse Festival, dentro da Jornada, é simplesmente o MAIOR festival cultural do mundo. A quantidade de eventos, peças, filmes, exposições, trilhas ecológicas, é muito grande, de modo que haviam atrativos para peregrinos e voluntários por toda a cidade do Rio, a semana inteira.

E tinha, no meio disso tudo, um espaço de cinema, dentro da Favela da Maré. Exibimos alguns filmes, desde filmes nacionais até lançamentos internacionais fantásticos, que até hoje não são tão conhecidos do público. E, no dia de maior lotação... tivemos 6 pessoas assistindo, sem contar a equipe. Falha na divulgação? Trabalho jogado fora? A olhos humanos, sim. Mas... o que Deus queria com isso? Porque foi necessário colocar um braço da Jornada dentro de uma das comunidades mais carentes e atingidas pela criminalidade do Rio de Janeiro? Tenho pra mim que não saberei exatamente o que Deus queria lá, naqueles dias.

A lição que me foi dada então, e que desejo que siga em meu coração, é: Não precisamos ver os frutos. É muito frustrante, humanamente falando, trabalhar em algo que não sabemos se deu certo ou não. O ponto que se coloca aqui é que não sabemos nem o que é esse “dar certo” exatamente, aos olhos de Deus. Para quem é o trabalho? Deve-se ter em mente que o que fazemos para Deus não deve ter satisfação pessoal como objetivo.

A Jornada deixou muitos frutos visíveis – abertura ao diálogo com outras religiões, pessoas se conscientizando que ataques exacerbados à religião do outro não agregam nada de bom ao mundo, e o mundo inteiro assistindo como a nossa Igreja é viva, jovem, e tem efetivamente Jesus Cristo como seu guia e objetivo. Mas para além deles ficaram outros, tão grandes quanto. Mas que não tão facilmente percebidos.

Nesse aniversário de um da JMJ fica o convite pra meditar e viver os legados “invisíveis” da Jornada, como aumentar nossa capacidade de entender o outro e trabalhar confiando em Deus, não esperando ver os frutos. Estes legados estão por aí, mas podem ser maiores. Maiores na medida em que eu e você os abraçamos. Aí aquilo que é invisível torna-se perceptível. No meu e no teu rosto, nas minhas e nas tuas ações.

Adriano Reis
Analista de redes - TI e Estudante de Engenharia da Computação / Oficina de Valores

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