Por: Alessandro


Uma das principais riquezas da ficção é que ela possui uma estranha capacidade de iluminar a realidade. Não é incomum que narrativas inventadas contenham mais verdades que o jornal do dia e que contos de fada tragam mais sabedoria que diversos tratados.

Recentemente um livro de ficção científica me fez parar para pensar em um tema que vez por outra me instiga: o diálogo. O livro em questão é “O Jogo do Exterminador” e seu autor é Orson Scott Card. Na trama, crianças superdotadas são levadas para uma nave fora da Terra para serem treinadas como soldados para uma guerra contra uma raça alienígena. 

O roteiro é simples, embora possua algumas ideias interessantes. O ponto que despertou minha atenção foi o motivo criado pelo autor para guerra entre os humanos e os tais alienígenas (chamados no livro de abelhudos). O conflito não foi fruto de racismo ou de uma ânsia imperialista de uma das espécies. A razão foi simplesmente que as duas raças não conseguiam comunicar-se entre si. Os abelhudos não possuíam consciência individual e agiam a partir da vontade de uma rainha. Os pensamentos, ideias e memorias eram partilhados. A comunicação (se é que esse termo pode ser usado) era instantânea. Como fala e escrita inexistiam eles eram impenetráveis para nós e nós também o éramos para eles. Essa opacidade gerou um verdadeiro genocídio.

Em sua história relativamente simples, Orson Scott Card intui uma verdade profunda: a incompreensão gera violência.

Uma cultura do diálogo é hoje necessária tanto no nível micro quanto no macro. Como o mundo seria melhor se pessoas de espectros ideológicos diferentes conseguissem se comunicar e se o diálogo inter-religioso fosse um empreendimento bem sucedido. As discordâncias continuariam existindo, mas alguns consensos seriam possíveis e a violência, com certeza, diminuiria. Grande parte dos problemas que temos não é oriunda de nossas diferenças, são fruto da falta de capacidade, ou do desejo, de comunicarmo-nos uns com os outros.

É necessário dizer que não estamos na mesma situação dos abelhudos de “O Jogo do Exterminador”. Possuímos os mesmos instrumentos de comunicação que aqueles a quem nos dirigimos. Isto faz com que nossa dificuldade não seja absoluta e que a esperança do diálogo seja possível. Parte do bloqueio em dialogar vem da vilanização de quem discorda. Outra parte vem da dificuldade em termos um olhar objetivo quando temos interesses em jogo.

Quem tentar acompanhar algum debate sobre questões candentes nas redes sociais, ou até em um círculo de amigos, verá que pessoas com opiniões diferentes dificilmente dialogam. Digladiam-se, mas não dialogam. E não dialogam simplesmente porque não há compreensão recíproca. Um permanece opaco ao outro e os dois lados saem afirmando que o “antagonista” não entendeu nada ou então que “não dá para conversar com gente assim”.

“Gente assim” normalmente é gente que não concorda com a gente. Se não dá para dialogar com gente desse tipo, claro que não dá para dialogar com ninguém, exceto com aqueles que já comungam de nossas crenças.

A honestidade é um elemento essencial para uma verdadeira cultura do diálogo. Não vale tudo para defendermos uma posição. Vejo pessoas abraçarem qualquer ideia e lançarem mão de posicionamentos falsos ou equivocados apenas porque parecem estar de acordo com aquilo que já acreditam ou com os interesses que defendem. Boa parte das vezes isso é feito de maneira inconsciente e até natural, mas não é incomum a lógica do “vencer a qualquer custo”. Essa incapacidade de dialogar não é exclusiva da esfera pública. 

Talvez seja mais comum até na vida familiar: há pessoas que vivem sob o mesmo teto que são tão impenetráveis umas a outra quanto os humanos e os abelhudos do livro de Orson Scott Card. As palavras que trocam apenas criam ocasiões para mal-entendidos... 

Compreender alguém pode ser algo mais difícil do que parece. É sempre mais fácil reduzir o outro a nossos esquemas pré-fabricados. Caixas que criamos para encaixar nossas experiências. Nossos esquemas de pensamento são úteis e possuem sabedoria acumulada. Eles, no entanto, não são perfeitos e junto com a sabedoria é bem provável que tenham acumulado erros. Para compreendermos o outro cabe ouvi-lo nos seus termos e perguntar-se o que ele realmente quer dizer. 

Abertura ao outro e doação de si. Talvez nessas duas expressões possam ser resumidas as posturas necessárias a uma cultura do diálogo. Posturas difíceis, mas não impossíveis. Não estamos na mesma situação em que se encontravam as raças de “O Jogo do Exterminador”. Possuímos os mesmos instrumentos de comunicação. Talvez não possuamos a disposição e as virtudes necessárias.

No lugar do verdadeiro diálogo, acabamos por nos enganar com uma cultura relativista, que diz que todas as opiniões devem ser aceitas, que todas possuem o mesmo valor. Provavelmente não existe um único ser humano na face da Terra que verdadeiramente acredita nisso, no entanto muitos repetimos tal sentença. Repetimos isso porque na verdade não queremos dialogar, dá trabalho. Dizer que é tudo igual é mais fácil...

Mais fácil porque gera um ar de tolerância frente ao outro quando na verdade há desinteresse. Mais fácil porque se tudo é igual, não há motivo para rever conceitos e sair da zona de conforto. É mais fácil porque é uma postura que faz com que o outro jamais incomode, seja para o bem seja para mal; é indiferente. Não é exagero dizer que o relativismo é a morte do diálogo.

A compreensão não significa necessariamente aceitação. Pode implicar em discordância, mas em uma discordância esclarecida e não na mera condenação daquilo que nem se sabe direito o que é. Essa postura de abertura é fundamental para que o segundo passo de um verdadeiro diálogo ocorra, afinal só se faz entender bem, quem antes conseguiu compreender bem. E compreende alguém quem verdadeiramente se interessa por esse alguém.

Claro que há pessoas que se negam ao diálogo e situações onde este é impossível. Para que umas e outras sejam identificadas faz-se necessário tentar dialogar sempre. E o diálogo consiste antes em compreensão que em convencimento.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores


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