Por: Alessandro
Imagem: veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/
Perder é ruim. Perder de goleada é pior. Sofrer a maior derrota de nossa história nos deixa sem palavras. Dói, incomoda, chateia, dá raiva, frustra. Um misto de sentimentos que é difícil traduzir...

Ainda durante o jogo já começaram as análises dos entendidos. Algumas interessantes, outras nem tanto. A imagem que transparece é que todo mundo agora diz “eu avisei”. Todo mundo sabia que ia dar errado e que era impossível dar certo. Cabe não esquecer, no entanto, que a certeza de agora, até pouquíssimo tempo atrás era apenas talvez. Talvez um talvez provável, mas ainda assim um talvez. E o talvez sempre traz espaço para a esperança...

A esperança é simplesmente o gosto de um bom futuro. O futuro que acreditamos que estamos destinados. E que às vezes não vem. E quando não vem sentimos vergonha. Hoje a vergonha é multiplicada porque foi em casa. Parece que a visita quebrou o decoro e chamou para si um lugar que julgávamos nosso.

E agora?

Agora vamos reclamar, chiar, xingar. Reclamar muito da derrota da seleção. E vamos reclamar tanto porque sentimos a derrota como nossa. Nós tomamos de 7 a 1. Nós. É claro que se racionalizarmos não foi bem assim. Nós não jogamos, não recebemos o salário dos jogadores. Mas mesmo racionalizando, a sensação incômoda fica lá. E fica lá porque, embora “racionalmente” nós não sejamos a seleção, ela funciona como um símbolo que nos congrega. Um símbolo nos quais o clubismo se dissolve. Um lugar em que nos encontramos. Por mais que falemos mal deles, tais símbolos existem... E nós precisamos deles para sermos um povo.

Claro que há a “solução” de transformar o nós em eles. E lembrar agora de tudo o que nos separa da seleção. Fazer isso é natural, mas um pouco injusto. Afinal se o resultado tivesse sido uma vitória, continuaríamos dizendo “nós”.

Então tá tudo bem?

Claro que não. Tem muita coisa ruim. Ruim com o futebol. Ruim fora do futebol. Ruim com a CBF. Ruim com o país. Só que perceber esse ruim como nosso e não como deles nos dá certo poder... Não, não vamos mudar os rumos da seleção ou recriar o país do dia para a noite. Mas assumir-se como parte do problema, nos oferece um pequeno espaço de manobra. Afinal, dá para começar alguma coisa em nós.

Nessas horas, lembro do inglês Chesterton. Vou deixar minhas palavras de lado e utilizar algumas dele. No texto em questão substituirei “Pimlico” por Brasil. Acho que assim me farei compreender.

“Quando eu era menino, havia dois tipos curiosos de homens que corriam de um lado para o outro e que eram conhecidos como o otimista e o pessimista. Eu mesmo empregava, constantemente, tais expressões, mas confesso, sem tristeza, que não tinha a noção exata do que elas significavam. A única coisa que se podia considerar evidente era que tais palavras não podiam ter um significado literal, pois segundo o conceito comum, o otimista julgava esse mundo tão bom quanto podia ser, enquanto o pessimista julgava-o o pior possível. Ora, como ambas as afirmações eram obviamente uma rematada tolice, tornava-se necessário buscar outras explicações. O otimista não podia ser o homem que considerava tudo certo e nada errado. Tal maneira de pensar não tem sentido algum: seria o mesmo que chamar a tudo de direito e nada de esquerdo. No final, cheguei à conclusão de que o otimista considerava tudo bem exceto o pessimista, e o pessimista considerava tudo mau, exceto a si mesmo.

Vamos supor que tenhamos de nos confrontar com algo desesperador como, por exemplo, o Brasil. Se pensarmos no que, realmente, será melhor para o Brasil, verificaremos que nossos pensamentos nos conduzem ao místico e ao arbitrário. Não é suficiente que um homem não goste do Brasil, pois, neste caso, limitar-se-á a cortar o pescoço ou a mudar-se para outro lugar. Com certeza, também não é suficiente que um homem goste do Brasil, pois em tal caso ele continuaria a ser o que é, e isso seria terrível. A única solução seria alguém que amasse o Brasil, mas que o amasse com um apego transcendental e sem qualquer razão terrena. Se aparece um homem que amasse o Brasil, nesse local erguer-se-iam torres de marfim e pináculos dourados. O Brasil enfeitar-se-ia como uma mulher quando é amada, pois a decoração não se destina a esconder coisas feias, mas a ornamentar o que já é adorável. Se os homens amassem o Brasil como as mães amam os filhos, incondicionalmente, porque são seus, o Brasil, dentro de um ano ou dois, seria mais belo do que Florença. Alguns leitores dirão que isso não passa de mera fantasia, mas eu lhes respondo que é a verdadeira história da Humanidade. Na verdade, foi assim que as cidades tornaram-se grandes. Os homens não amaram Roma porque ela era grande; Roma foi grande porque os homens a amaram.”

Agora a vida continua. A seleção brasileira perdeu, mas o Brasil continua (e a seleção também!). Estávamos em festa. Agora estamos em luto. Logo, logo voltamos ao cotidiano. É nele que nosso amor, nosso gosto, nosso desgosto ou nossa indiferença se concretizam de verdade. E aí que os status quo é mantido ou que a grandeza é construída.

Agora é bola para frente! No futebol, na política, na economia... E também no chão a chão do dia a dia. Nas micro relações. Após o desastre, vem a tristeza, vem a raiva. Delas podem nascer um de dois filhos. O desespero ou a esperança. A esperança, quando amadurecida, sabe que não é realizada apenas por nobres sentimentos. É necessária a ação. Quando isso ocorre, a esperança não decepciona. E não faz isso porque, mesmo quando não se realiza, ela ainda assim nos transforma. 

É, sou brasileiro. Hoje não com tanto orgulho, mas ainda com muito amor.


Obs: No texto do Chesterton, excluí algumas partes para tornar mais diretas aquelas que eu desejava ressaltar. Para quem se interessar tal texto encontra-se no livro Ortodoxia, no capítulo “A Bandeira do Mundo”.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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