Por: Fernanda

Nunca fui fã muito assídua de futebol, não tenho um "time de coração", não costumo acompanhar os jogos pela TV, confundo os jogadores e os campeonatos e demorei anos pra entender a regra do impedimento. Mas, de quatro em quatro anos sou contagiada pelo espírito da copa do mundo e esse ano em particular, eu me preparei bem. Fiz o álbum pra conhecer os jogadores, segui ESPN, Brazuca e David Luiz no Twitter, acompanhei os jogos, as pontuações e assisti até programas de comentários dos jogos. E o mais impressionante é que eu curti muito tudo isso. 

No dia da semifinal eu coloquei minha camisa, pintei a unha de verde e confesso que até me maquiei nas cores do Brasil. Pedante, eu sei, mas eu era só mais uma me juntando ao Brasil no patriotismo do nosso futebol. 

Quando a Alemanha fez o primeiro gol, fiquei surpresa, mas ainda dava. Fez o segundo, o terceiro, e no quarto eu fui no banheiro tirar a maquiagem que tanto deu trabalho de fazer. E quando voltei já tinha um quinto. 

Na hora eu e mais gente da minha casa perdemos completamente o interesse no jogo. Eu liguei o computador e voltei a trabalhar, só ouvindo o jogo de longe. 


Senti raiva e me deu até um certo arrependimento de ter torcido tanto até então... E foi quando eu comecei a perguntar o que era ser patriota. Certamente naquela hora muita gente estava sentindo raiva e vergonha do seu país, gente que, como eu, torceu, pintou a cara e desejou ver o brasil ganhar mais uma estrelinha na camisa. Na hora, as discussões ultrapassam os limites do futebol e as pessoas começam a reclamar do governo, da educação, da saúde. Isso está certo?


Nosso povo brasileiro é conhecido por vestir a camisa, por sentir orgulho do país e mesmo com todos os problemas, não deixar que as pessoas falem mal da nossa pátria amada. Aquela velha história do ‘’falar mal só a gente pode”. Mesmo as pessoas que desejam morar fora e que admiram as outras culturas as vezes sentem falta de ouvir música brasileira, de comer arroz e feijão... Mas isso faz de nós um povo patriota? Sinto muito amigos, mas a resposta é não. 

Patriotismo é mais do que ter sentimentos nacionalistas, do que ir em massa para um estádio, do que balançar a bandeira. Patriotismo por definição pressupõe amar o país, seus símbolos e contribuir para o bem do seu país e dos seus compatriotas. Nesse caso, exclui-se do patriotismo qualquer tipo de ofensa pessoal feita a nossos líderes, ainda que nós não concordemos com eles e tenhamos todo o direito de expressar esse descontentamento. Criticar a forma de governo é válido, baixaria nas redes sociais não. Exclui-se também aqueles que nada fazem por seu país e pendurar bandeirinha verde e amarela no quintal não conta. 

O que é contribuir para o meu país então? Me juntar aos protestos? Talvez... Mas tem coisas mais efetivas que poderíamos estar fazendo. Vou dar três exemplos; o primeiro deles é rejeitar qualquer tipo de corrupção. Nós reclamamos de todo o desvio de verba e cabide de empregos que acontece no congresso, mas se sou pega infringindo as leis do transito prefiro “lavar a mão” do policial do que arcar com a consequência justa do meu erro. Se não estudei para uma prova, prefiro colar e passar do que ser justamente avaliada pelo meu desempenho. E sei que cada um em sua profissão ou ocupação conhecem diversas possibilidades de ser corruptos. É preciso que o nosso país como conjunto, depure a consciência. 

Em segundo lugar, trabalhar. Já escutei de várias pessoas que gostariam de ter um emprego público para poder trabalhar pouco e ganhar bem, eu mesma já tive contato com lugares que poderiam desenvolver um ótimo trabalho, mas preferem entregar-se a lei de Gérson*, onde se quer levar vantagem em tudo... Se cada um se compromete a desenvolver bem sua profissão, o país já muda. Ainda que tudo falte, seremos um país que tem bons motoristas, bons alunos, bons engenheiros, bons escritores... Quando visitamos outro país, a impressão que mais trazemos está na forma com que se trabalha, na pontualidade do trem, na educação dos vendedores, no bom atendimento do hospital, na segurança das estradas, na qualidade da comida... Tudo isso traduz se um povo é comprometido com seu trabalho e depende de gente comum... Como eu! 


Finalmente, comprometimento político. Acredito fortemente que alguém que, por decisão ou desleixo, se desinteresse pela sua cidade, de seu país não pode se considerar patriota. É preciso buscar participar, entender e cobrar. E tem maneira mais eficaz de servir ao país e à nação do que eleger com clareza os nossos representantes?

Patriotismo é uma virtude e como tal, não é adquirida do dia pra noite, requer esforço e exercício. E também por ser uma virtude é mais um degrau que nos aproxima de ser um ser humano melhor, de ser feliz. Ele pode ser uma coisa fora de moda, mas ao longo da história do nosso e de vários países, nós vimos pessoas que foram apaixonadas por sua pátria e que conseguiram fazer a diferença. Não é tão difícil imaginar que deixar uma herança positiva para o meu país é uma coisa que traz uma enorme alegria e sensação de dever cumprido. Penso que um país onde um candidato sobe ou desce nas pesquisas de acordo com o resultado da copa ainda tem que aprender muito sobre isso...


Termino com um poema que Carlos Drummond de Andrade fez depois que o Brasil perdeu uma semifinal para a Argentina na copa de 78 e com a esperança que em 2018 estaremos com o coração na Rússia, torcendo novamente pelo hexa.


Foi-se a Copa?
Carlos Drummond de Andrade
Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Fernanda Gonzalez
Mestranda em Engenharia Urbana - UFRJ/ Oficina de Valores 

*Lei de Gérson: em 1976, quando em um comercial do cigarro Vila Rica, perguntam ao jogador Gérson, da seleção brasileira por que ele escolhe o cigarro Vila Rica e ele responde "Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo.”

1 comentários:

Jéssica disse...

Gostei muito do texto. A mudança no mundo passa a acontecer quando eu decido a mudar.

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