Por: Fernando
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Dependendo do grupo em que estiver, o sujeito que se propõe a defender a fidelidade no namoro corre sério risco de levar algumas pedradas e ser enxovalhado! Já passei por essa experiência: discordei de um grupo de amigos que estavam convencidos de que a fidelidade é somente uma coisa cultural. Uma espécie de invencionice cristã a somar uma lista enorme de outros conceitos e valores criados para anular nossos instintos, mantendo-nos adestrados como carneirinhos: "o que os padres entendem de relacionamentos, se nunca se casaram?". Uma vez, dando carona para uma amiga, estávamos atrás de um outro carro e nele tinha aquele adesivo "Deus é fiel!". Ela logo brincou: "Claro que é! Ele nunca foi casado!"

Enfim, começando a falar mais sério, essas pessoas entendem que não é da nossa natureza que fiquemos com uma só pessoa por muito tempo e que não faz nenhum sentido insistir no namoro quando ele começa a se desgastar. Pois, assim como os animais, nós também não somos monogâmicos. Essa ideia de fidelidade, como já disse, é só mesmo uma idealização cristã. E ela produz um monte de relacionamentos infelizes de pessoas que desejam se trair, mas por algum tipo de receio, um senso de moral inventado, acabam deixando de lado e vão seguindo, enganando-se mutuamente.

Eu não posso argumentar pelo ponto de vista da biologia. Se somos monogâmicos ou polígamos, eu realmente não sei dizer. Sei que muitos animas trocam de parceiros. Eu vejo os cachorros na rua, vejo os gatos, vejo animal planet. Mas sei que também existem animais que escolhem um par e com ele ficam a vida toda. Como é o caso das maritacas, das araras e deve haver muitos outros que eu desconheço. Contudo, a ideia de fidelidade no namoro está muito acima dessas questões biológicas. E muito além também dessas afirmações pejorativas e equivocadas feitas no começo sobre o sentido da fidelidade no namoro.

É só começarmos a colocar as coisas nos eixos.

Se vivemos um tempo em que nunca antes houveram tantos divórcios e separações, isso se dá por quatro motivos. O primeiro, lógico, é porque antes não haviam divórcios legalizados mesmo, isso é coisa do mundo contemporâneo. Mas o segundo, terceiro e quarto motivos, sobre os quais eu vou desenvolver o texto, é que na atualidade estamos sofrendo alguns acontecimentos advindos da hipermodernidade que estão atingindo também as relações humanas: sofremos a fluidez com que tentamos projetar nossas realizações, onde desaprendemos a planejar a longo prazo e vivemos uma vida com total ênfase no presente; sofremos e assimilamos a ideia consumista de que temos que substituir as coisas, pois rapidamente elas ficam gastas e obsoletas; e, por fim, sofremos um enaltecimento e uma supervalorização do "eu" em detrimento do outro. Qualquer projeto que seja para daqui a dez anos, a gente exclui de imediato. Vive-se o presente com uma voracidade como se não houvesse o dia de amanhã. E o presente deve ser gasto com tudo que ele pode nos oferecer. 


Os namoros não estão blindados dessa voracidade de se viver potencialmente o presente. Sem projetos para o futuro, porque o agora é o mais importante, os relacionamentos já começam com prazo de validade vencido, pois não há planos. Ou, se os tem, são planos de curtíssimo prazo: uma viagem, umas férias, passeios... O que uma pessoa pode oferecer para o outra, nesse tipo de relacionamento, qualquer outra pessoa também pode. E você não encontrará muitos motivos para insistir no namoro, caso ele comece a dar alguma dor de cabeça.

Fidelidade necessita de crença, sonho, projeto e luta. Como ser fiel a algo se não houver referência, um objetivo em comum para além das questões momentâneas do presente? Como ser fiel se não conseguimos planejar a nossa vida nem para daqui a um ano e meio? Se existe um forte grau de incerteza pairando no ar e se os sonhos se estruturam com a mesma velocidade com que se desmancham, onde os namorados encontrarão algo para se apoiarem e manterem-se fiéis, respaldados por um objetivo?

Aí passamos para o ponto seguinte: assimilamos uma ideia, incentivada pelo consumo, de que tudo que temos é para pouco tempo mesmo. Pouquíssimo tempo, aliás. Por qualquer defeito, por menor que seja, a gente troca por uma coisa nova. Ou se troca porque a coisa ficou obsoleta e desatualizada.

Não se consegue ser fiel a mais nada! Todas as coisas que fazem parte do nosso mundo são descartáveis, substituíveis e perdemos o interesse por elas cada vez mais cedo. O sentimento de consertar as coisas saiu de moda. Tudo deve ser trocado: sapatos, relógios, computadores, celulares e... Pessoas! Passamos a consumir também pessoas! Amigo que não concorda comigo? Parente chato? Não nos agrada mais, a gente exclui e pronto! Nada de consertos!E com os namoros isso também acontece! Contaminados por esse sentimento de substituir que já atinge todas as esferas da nossa vida, tornou-se desnecessário consertar os erros que inevitavelmente acontecem nas relações. Melhor e menos trabalhoso substituir, substituir e substituir...

Mas é um equívoco. Muitas vezes, a pessoa que troca, ou trai a sua relação sentindo que a troca trará algumas vantagens porque o antigo namoro deixou de ser interessante, deve olhar um pouquinho melhor para si e reconhecer que, na verdade, ela própria não está mais sendo suficiente para a outra pessoa. Ela trai, ou desiste do namoro, achando que o namorado(a) não era mais suficiente para ele(a) quando na verdade ela mesma perdeu interesse de si.


Parece confuso, mas a lógica é simples, vejamos: eu começo a me interessar por outra menina, mesmo estando namorando. A outra menina que eu estou interessado oferece para mim um novo mar de possibilidades. Eu, na verdade só quero me ressignificar, pois, sendo novidade, a outra menina me renovará novamente! Eu poderei contar as mesmas histórias, as mesmas piadas, usar até as mesmas roupas. E tudo parecerá novo, de novo! Olha só que maravilha! Tudo que estava velho em mim e que eu sentia gasto e repetitivo pelo tempo de namoro, parece poder renovar-se com a chegada de uma outra pessoa. Ela vai-me admirar e vai dar significados novos a coisas que estavam velhas na antiga relação. Torno-me uma pessoa interessante de novo.

Mas acontece que eu não renovei absolutamente nada! Continuei sendo a mesma pessoa! Não me tornei nem mais, nem menos interessante do que eu era antes. Apenas troquei a espectadora, mas o meu programa continua o mais do mesmo. Eis um ciclo interminável: eu não me renovo, então vou trocando de relação. Com o tempo a nova relação também se desgasta e eu troco de novo e de novo e de novo... Indefinidamente.


E, sem realmente conhecer alguém, as pessoas caem nos velhos estereótipos: "os homens são todos iguais","As mulheres não sabem o que querem."
Essa ênfase no presente; esse descarte e substituição constante e essa valorização do "eu" sobre o outro, são três forças que impedem a sedimentação e cristalização de um relacionamento.

Então ser fiel implica que as pessoas saibam projetar. Que namore uma pessoa que se quer para longo prazo e não para uns momentos. Implica que a pessoa entenda que outra pessoa tem defeitos e que ela vai quebrar algumas vezes, mas não é por causa disso que ela deva ser rapidamente substituída.

Ser fiel a uma relação exige que a pessoa tenha capacidade de renovar-se, de continuar sendo interessante para a mesma pessoa ao longo do tempo. Ser fiel implica que a pessoa tenha confiança em si e na sua capacidade de continuar encantando e de se encantar. E mais do que isso: em esforçar-se para ver que a outra pessoa está e continua encantada por você e esforçar-se quando ela não estiver; implica, por fim, que a pessoa tenha coragem para conhecer o outro e deixar-se ser conhecida. Ser fiel implica que você seja uma pessoa melhor e o torna, sem dúvidas, uma pessoa melhor.

Fernando Duarte Rosenkrantz
Professor de História / Oficina de Valores

2 comentários:

Anônimo disse...

Acredito que o texto do autor, como uma lente míope que não pode contemplar uma visão mais ampla, abordou apenas uma faceta da miríade de possibilidades sobre o assunto. Nossa natureza é mais diversa e envolve uma variedade de julgamentos, por conseguinte o autor atribui falhas nas relações à contemporaneidade e esquece-se de que talvez a falha no caráter humano seja secular. Ao criticar a modernidade desconsidera os avanços de nossa sociedade em relação aos direitos e garantias fundamentais. O que o mundo moderno fornece é a liberdade e toda liberdade tem uma consequência. Antes a pessoa, por força legal e, majoritariamente, por força social, ficava restringida a um casamento vitalício no qual em muitos casos não tinha tido o tempo de conhecer o cônjuge de forma adequada – ainda mais quando eram arranjados. Atualmente a pessoa tem o direito de maximizar sua própria felicidade, e ainda assim a maioria perde bastante tempo com algo que já é fadado ao fracasso. Há casos que uma semana já basta para saber que não irá dar certo, há casos que uma vida inteira é necessária para se vislumbrar a mesma coisa, contudo, geralmente um ano e meio é o suficiente para ter uma boa ideia da pessoa que está ao seu lado e se você poderá ter a cumplicidade dela. Eis que surge a maior falha de seu texto, a substituição é totalmente válida quando envolve uma relação em que uma das pessoas envolvidas já percebeu que não há futuro, seja por incompatibilidade de gênios, seja por falhas graves – traição, falta com a verdade, abandono, falta de caráter – e que são falhas incorrigíveis. E nesse aspecto é que as pessoas devem buscar outras paragens potencializando a própria felicidade e a de um futuro parceiro, que esteja em maior sintonia, e não perdendo tempo investindo em um relacionamento idealizado.

Alessandro Garcia disse...

Caro Anônimo,
Em primeiro lugar, é sempre bacana quando há discordâncias em uma discussão. Isso faz com que as ideias avancem. Dito isso, acho que você foi um tanto quanto injusto com o autor do texto. Em momento algum ele defende que não existam términos por motivos justos. Simplesmente diz que as relações atuais estão muito frágeis que não estão realizando da maneira como prometem. Embora eu pense que todo futuro é idealizado e nem por isso devamos deixar de investir nele, não percebi o autor dizendo que todo relacionamento deve continuar a qualquer custo. Por fim, não há negação da liberdade moderna, apenas um posição que afirma que a modernidade não trouxe só glórias, mas também sombras.

Quem sabe a miopia de que acusa o autor não esteja também em seus olhos?

Fraterno Abraço,

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