Por: Alessandro
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Recentemente nas redes sociais mais uma campanha viralizou. Tal campanha, lançada pela revista TPM, traz pessoas (algumas delas famosas) segurando cartazes com a frase “Precisamos falar sobre Aborto”.Antes de qualquer comentário, cabe elogiar a estratégia adotada: ela é bem inteligente. Infelizmente ser inteligente não é sinônimo de ser correta ou mesmo ética. É uma propaganda e a lógica da propaganda não é fazer com que as questões sejam discutidas, mas que sejam aceitas sem maior aprofundamento.

Para dar um contexto maior aos que por ventura ainda não tenham visto tal campanha, ela foi idealizada por pessoas que julgam que o aborto é um direito da mulher e que por isso deveria ser legalizado o mais rápido possível. Nesse sentido,  os dizeres  “precisamos falar sobre o aborto” não implicam no desejo de que a questão seja debatida. Afinal para que discutir quando já se tem a resposta pronta?
 
A principal injustiça da campanha está em que um slogan que afirma “precisamos falar” insinua que a questão não é discutida. E mais ainda: quando esta palavra de ordem é brandida por um dos lados,  a conclusão é que quem está do outro recusa-se ao debate. Nesse contexto quem é contrário ao aborto é taxado de obscurantista, anti-democrático, fechado ao diálogo. Um dos famosos que aderiu à campanha chegou a comparar tais pessoas a escravagistas e nazistas.
 
Se há uma coisa que podemos dizer sobre quem é pró-vida é que essas pessoas não fogem à conversa. Falam e falam muito. Várias vezes são criticadas por isso. Muitos dos que agora dizem que é necessário falar sobre o aborto acusaram de fundamentalistas quem quis levantar essa pauta durante a campanha presidencial. Afinal é necessário ou não falar sobre o assunto? Ou melhor, será que dizer que é preciso falar  sobre algo significa apenas que um lado deva ter voz?
É interessante ver os argumentos mobilizados por alguns daqueles que dizem que é preciso falar quando na verdade desejam dizer “queremos liberar”. Citam diversos números falando de mortes de mulheres em abortos clandestinos. Tais estatísticas são suspeitas e não é novidade para ninguém que mesmo um ex-presidente da República já admitiu em público ter mentido sobre elas. Citam tragédias recentes nas quais pessoas perderam a vida em clínicas ilegais. Não há que se negar a tragédia, mas é, no mínimo, ingenuidade acreditar que a legalização do aborto é a única saída para resolver tais problemas. Será que não é possível uma política pública de maior apoio a mulheres grávidas em situações difíceis? Um combate mais eficaz a tais clínicas? Algo que muito me incomoda é conhecer pessoas que bradam esses argumentos e insistem para jovens grávidas irem justamente a tais “estabelecimentos”.  Cadê a preocupação e a coerência?
Há também certa má fé na utilização dos dados, não por todos, mas por alguns. Dizem que o aborto deveria ser legalizado porque há consequências sociais negativas. Acontece que tais consequências não são o principal motivo do desejo pela legalização.  Os defensores da “interrupção voluntária da gravidez”  julgam o aborto um direito  da mulher e acreditam que, mesmo em contextos nos quais não existam as tais consequências negativas,  o destino do bebê em gestação deveria ser decidido pelo arbítrio da grávida.
Mais uma vez a retórica parece colocar os que não são pró-escolha, mas que se definem como pró-vida, como contrários à liberdade feminina. Um olhar mais sóbrio há de perceber que não há negação da liberdade. Apenas a afirmação que ela não é um direito absoluto, mas que deve ser vivida em relação a outros direitos. Nesse contexto o direito à vida do feto seria anterior ao direito à liberdade da mulher. Além disso, e de maneira rápida, cabe dizer que a mãe não é a única afetada pela gravidez. O pai também o é, e de maneira tão definitiva quanto. Claro que isso não significa que se os dois concordarem o aborto está “ok”, mas coloca uma questão àqueles que afirmam ser tal prática consequência “do direito sobre o próprio corpo”.  Talvez agora alguns possam dizer que vários homens não assumem suas responsabilidades. Sobre isso, cabe reconhecer com tristeza, que é verdade.  O erro de indivíduos, no entanto, não deve fazer com que a institucionalização de outro erro seja justificada pela sociedade.
Não é incomum alguém dizer que aqueles que são contrários ao aborto o fazem por motivos religiosos. Tal posicionamento é, mais uma vez no mínimo, falacioso. No fundo não importa se o motivo é religioso, mas se o valor é humano. Se alguém combater a miséria por medo do inferno ou para melhorar na próxima encarnação não há que se denegrir tais pessoas por terem fundamentos metafísicos para sua ação. Se alguém lutou pelos direitos civis dos negros (sim, Martin Luther King, me refiro a você) citando versículos bíblicos, sua luta não é menos digna.  
Claro que impor prescrições típicas de um grupo religioso a toda sociedade é um erro. Ninguém gostaria, por exemplo, de ser proibido de comer presunto porque este é interdito em algumas crenças. O fato de existirem costumes aplicáveis apenas aos que creem não significa que em uma religião não existam valores que são universalizáveis. A própria noção da igual dignidade entre os seres humanos surgiu primeiro em um contexto religioso. Isso, no mínimo, pode levar a questionar  se alguns valores que são chamados de  fundamentalistas e moralistas, não seriam simplesmente humanistas... 
Bom, talvez eu esteja sendo um pouco injusto em criticar a incoerência da campanha. Afinal ela disse “precisamos falar sobre aborto”, não diz “precisamos conversar sobre o assunto”. Uma fala pode ser unilateral, monopólio de uma única pessoa ou grupo. Já uma conversa precisa de abertura ao outro e possibilita o incômodo de ser atingido por aqueles que discordam de nosso discurso. Quem quer apenas falar pode comodamente tapar os ouvidos ou apenas fingir que escuta enquanto o outro fala ( talvez esperando sua vez de voltar a falar) . Já quem quer verdadeiramente conversar tem que começar pela disposição de ouvir

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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