Por: Leonardo
imagem de: mais24hrs.blogspot.com

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Vinicius de Moraes in Pátria Minha

            Imaginem a dificuldade de uma costureira abafada de costura que carece entregar um vestido para uma festa porém, não possui nem modelo, nem fazenda. Pois é, nessa situação embaraçosa fiquei, ou seja, sem pano para manga! Caso o texto tecido nessas condições não dê para um grande baile, nós o colocamos no cabide. Mas acredito também que as costureiras guiam-se pela inspiração nessas situações...

            Para que fosse ao encontro do convite, precisava de um tempo de reflexão, engenho e percepção. De tal forma, foi necessário um pequeno afastamento para que pudesse confrontar as realidades e expor algumas considerações sobre a experiência de ser estrangeiro. Às vésperas de comemorar um ano longe de casa, realizo um passeio pela memória para tecer esses breves comentários.

Quando minha avó decidia trocar os móveis de lugar,  e eu, criança, a visitava pensava que estava numa outra casa. Já pararam para pensar como uma corriqueira mudança nos causa estranhamento? Imaginem agora morar fora do seu país... Nesse contexto, é estar constantemente preparado para o deslocamento sensorial, alimentar, emocional, mas, sobretudo cultural.

Acredito que algumas pessoas possuem grande talento em estar nessa condição: missionários, membros de comitivas da ONU, diplomatas e membros de embaixadas. Outras, como eu, ficam como um botão fora da casa ou suspensos por uma linha imaginária. Não que seja fácil para alguém, mas algumas pessoas possuem maior traquejo nessa situação.

A ausência de referências espaciais, emocionais e culturais alinham nossas atitudes e proporcionam amizades instantâneas e, às vezes, pouco duradouras. Pois, normalmente, aproximamos dos pares, das pessoas que estão dispostas na mesma cesta, daqueles que também estão de passagem. Enfim, algumas relações estão sempre nesse ir e vir, acrescentando nossas vidas, ampliando nosso vocabulário e costumes, mostrando novas possibilidades e fazendo que enxerguemos a nós mesmos no outro. Essa convivência faz com que sejamos mais tolerantes com a diferença e que aceitemos mais o outro como nosso semelhante.

Ser estrangeiro é encontrar-se! Identificamos com o outro e percebemos que temos os mesmos anseios, temos os mesmos desejos, temos os mesmos medos. A percepção de que nossas necessidades são iguais permite que o preconceito desapareça. Ser estrangeiro é estar sempre destacado! A roupa difere, o falar difere, o paladar difere, os hábitos diferem. Os olhares sempre curiosos querendo saber quem são, de onde são, para onde vão, o que querem. Ser estrangeiro é saber integrar-se! Buscar estabelecer contatos e agregar-se é a melhor forma para que as marcas da diferença apaguem-se.

O ideal é não se isolar! Procurar estar em lugares que evoquem alguma memória emocional oferece segurança e conforto por apresentar identificação com a cultura de origem. Bibliotecas, templos religiosos, instituições culturais, esportivas e educacionais contribuem para a inserção na nova realidade de forma significativa, ajustando o retorno à rotina perdida. Além, é claro, de gerar possibilidade de alargamento do convívio social.

O modo como as pessoas se relacionam entre si é também um aspecto importante de ser ressaltado. Nas compras ordinárias, no transporte público, nos bancos das praças, nas celebrações religiosas ou nos eventos acadêmicos há contratos sociais em que, para quem vem de uma realidade díspar, refletem a cultura local causando no mínimo estranhamento. Quando se é estrangeiro o aceitar o outro não é apenas respeitar a individualidade alheia, mas sim aprender a conviver com ela sem perder a sua identidade.

Há algumas datas especiais que estávamos acostumados estar perto de amigos ou familiares  e que, pela distância, não poderemos festejar presencialmente. Nessas horas os meios de comunicação e a tecnologia, quando todos sabemos utilizá-la, são grandes aliados para a aproximação.

Acredito que a distância não corrói os laços de  amizades que com anos de convívio construímos. Pelo contrário, tal vivência permite que seja valorizada ainda mais os momentos com nossos amigos e familiares. A ausência que durante algum tempo fica, faz com que aprendamos a apreciar cada instante ao lado dos nossos.


Enfim, ser estrangeiro é preparar-se para impressionantes experiências!

Leonardo Barros Medeiros
Doutorando em Literatura - Universidade de Coimbra

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