Por: Fernando

Há cerca de duas semanas terminei de ler O Hobbit (não estava aguentado esperar pelo terceiro filme) e agora estou quase terminando de ler O Senhor dos Anéis. Não se preocupe porque não haverá spoilers do Hobbit. E tanto numa história, quanto na outra, fui facilmente apreendido, a ponto de ler as duas sagas até bem rápido, considerando o tempo que costumo levar para ler outras histórias. Foi com muito custo terminei de ler Crime e Castigo, por exemplo. E já faz um tempão que peguei para ler uma biografia do Ernest Hemingway, mas não dou prosseguimento, leio um pouco, fecho o livro e esqueço. Acho que nunca vou saber como terminou a vida do senhor Hemingway.

Então, saí da casa dos pais do Hemingway, entrei no condado e de lá por toda Terra Média para não sair mais. Refleti sobre o que mais me prendeu nessas histórias como a do Hobbit, e agora, na do Senhor dos Anéis. Descobri que além de serem sagas maravilhosas, dessas que você acompanha princípio, meio e fim, sobre aventuras que exigem muito esforço e superação dos seus participantes, vendo-os melhorarem na medida em que se desenrola a história, essas sagas despertaram meu interesse por um outro aspecto: também são sagas sobre a amizade. E foi aí que elas me prenderam!

Acompanho com mais entusiasmo a dedicação de um Bilbo Bolseiro pelos anões, ou do Sam Gamgi pelo Frodo, do que a da Bela pelo Edward, por exemplo. Minha própria experiência me ajuda a reconhecer a existência dessas amizades que aparecem nessas duas histórias "tolkiensianas". Identifico-me com elas! Não que eu seja um Sam Gamgi, ou um Bilbo Bolseiro... eu estou mais na outra ponta: o das pessoas que são constantemente ajudadas pelos amigos.

Inspirado pelas duas histórias, começo a refletir sobre essa coisa pouco estudada chamada amizade. Parece algo tão natural ter amigos, que nem paramos para pensar no quanto esse fato é importante para nossa vida. Não deveria ser estranho que uma pessoa que não tem nenhum vínculo familiar com a gente, que não tem nenhum interesse e que não ganha nada financeiramente (nem está preocupado com isso) esteja sempre por perto, disposto a nos ajudar? Ou que sempre é um amigo que procuramos se tivermos necessidade de confidenciar nossos segredos e intimidades? Ou que antes de procurar pela família, um amigo recorra a você para ajudá-lo?

Eu já li e ouvi quem tentasse explicar o amor entre um homem e uma mulher e tirar dele sua transcendência. Falam sobre questões químicas, psicológicas, culturais, biológicas, neurológicas, enfim... Embora eu ache que todas essas teorias não contemplem o que de fato acontece quando um casal se apaixona, elas não servem para nada se forem para explicar a amizade. Não existe explicação! Espantoso!

Ainda é pouco pesquisado pelas ciências humanas e sociais o conceito de amizade. A maior parte dos estudos se concentra na amizade entre as crianças e adolescentes, poucos são os estudos sobre a amizade entre os adultos, o que te fato é uma pena.

Primeiro porque, creio,  a amizade é o sentimento mais forte de todas as relações. O grau de amizade que se tem com uma pessoa, determina a profundidade da intimidade que duas pessoas possam vir a ter. Em muitos casos, se é mais íntimo de um amigo, ou amiga, do que do próprio cônjuge. Note-se também que você pode ter amizade com uma pessoa, sem namorar com ela, ou se casar. Mas você se arriscará muito se casar, ou namorar uma pessoa, se com ela não tiver amizade. O primeiro passo da relação amorosa é amizade e quase sempre, quando os namoros terminam, a amizade até poderia continuar, mas forçam para romper também esse mais difícil laço para poderem seguir em frente. Pelo menos por um tempo.

Segundo porque a amizade é a primeira forma de amor livre que a gente tem contato na nossa vida. Diferente do amor de filho e fraternal, que já estão - ou deveriam estar - imbuídos na nossa formação, a amizade que temos com outra pessoa de fora da nossa família, passa a ser o primeiro reconhecimento da importância do outro na nossa vida. Já aos quatro anos de idade, começamos a ter contato e nos familiarizar com a palavra amigo, essa palavra irá nos acompanhar ao longo da vida.

Mas voltemos ao Tolkien e seus Hobbits, eles podem ensinar mais sobre o valor da amizade, do que venho tentando explicar.

Já li artigos e, existem pessoas que queiram levantar a seguinte questão: a amizade está condicionada à cultura e ao contexto social do indivíduo. Dito assim, de maneira rápida, parece até coisa óbvia; somos amigos de quem convive com a gente, ou pensa como a gente, não há grandes mistérios nesse fato. Mas temos que ter cuidado com a rapidez desse raciocínio. Quem pensa que essa é a única explicação para se considerar uma pessoa amiga, não entenderia muito as amizades que se formam na saga do Hobbit. Nosso amigo Bilbo Bolseiro tem relações muito afetuosas com seres completamente alheios do contexto dele, que foram criados de maneiras diferentes e que, portanto, pensam também diferente. Curiosamente, Bilbo Bolseiro gosta mais desses seres do que dos seus pares. Gosta mais do Gandalf, dos anões, dos elfos, do que dos próprios Hobbits.

Não encontro exemplo melhor para contrariar essa teoria da necessidade do contexto social, como condição sine qua non para formar amizades, do que os exemplos das duas histórias do Tolkien. Podemos ser amigos de pessoas completamente exteriores à nossa cultura, podemos ser amigos de quem pensa diferente e até de quem fala outra língua, desde que tenhamos em comum algo que transcenda essas culturas e sirva de referência para a gente dialogar, no sentido de conviver. Por mais que existam diferenças entre hobbits e anões, os dois sabem o valor da justiça e da amizade. Por mais divergentes que possam ser anões e elfos, existe algo que os transcenda pelo qual devem lutar juntos e, nesse processo, se tornarem amigos.

Na nossa vida, a gente se defronta com várias divergências. Divergências entre países, divergências entres líderes políticos, líderes religiosos, divergências entre as pessoas... Polarizamos o mundo entre elfos e orcs, ocidente e oriente, religiosos e ateístas, protestantes, católicos, muçulmanos, judeus, esquerda e direita, sudeste, nordeste... Claro que muitas dessas diferenças são importantes e que ser amigo não signfica relativizar aquilo que cremos ser justo e verdadeiro. Mas também é verdade que por muitas vezes, fica de lado esse algo que faz com que lidemos bem com todas as divergências.

Fica a dica do lema da Oficina! Só vale a pena viver pelo que vale a pena morrer!

Um lema que deve ser vivido com os amigos, porque é com os amigos que vamos para todas as grandes jornadas. Grandes histórias e grandes aventuras envolvem grandes e sólidas amizades. Tolkien concordaria comigo. Sem o valor da amizade, as histórias dele não aconteceriam; Bilbo não sairia do condado, só daria uma volta e voltaria para sua toca, Frodo não iria muito longe sem o Sam.

Uma consideração final:

Bilbo se tornou um Hobbit melhor, do que o Hobbit que saiu do condado.  A viagem agregou a ele novas experiências; ele conviveu com quem pensava diferente e conseguiu gostar deles. Tudo isso foi possível por causa da existência dos outros ao longo da sua jornada. Se partissem nas suas jornadas sozinhos, tanto Bilbo quanto Frodo não voltariam melhores do que saíram. E você, como quer voltar?



Fernando Duarte
Professor de História/Oficina de Valores

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