Por: Gustavo
imagem de: .digitalinformationorld.com. Na foto: O Fenômeno #Selfie

A moda do autorretrato fotográfico, ou simples e estilizadamente selfie, tornou-se título e tema de uma nova série de comédia da Warner Channel. Eu, que costumo gostar bastante das séries cômicas do canal, resolvi assistir aos dois primeiros episódios depois de ter visto cinco minutos de um deles acidentalmente (eu estava procurando por The Big Bang Theory ou Friends, pra variar).

Devo dizer que a série não é extraordinariamente engraçada, o enredo é simples, com alguns clichês e os personagens não são lá muito cativantes. Mas apesar de não ser uma série que tenha conquistado minha fidelidade para acompanhá-la, devo dizer que gostei muito da reflexão que ela pretende: fica evidente que a série quer criticar a virtualização exagerada dos últimos tempos.

A personagem principal, Eliza, é uma viciada em redes sociais que tenta compensar a falta de amigos e o bullying sofrido na adolescência ganhando o máximo de atenção possível na internet. Ela consegue, da pior forma possível, quando um vídeo humilhante seu “viraliza” e ela passa a ser ridicularizada no trabalho. Eliza recorre a um publicitário da sua empresa, o melhor deles, para que ele possa melhorar a sua imagem como faz com os produtos da empresa. Henry, o publicitário, é o seu oposto: viciado em trabalho, não tem vida social, real ou virtual, e não se rende aos encantos da internet (e nem os da vida, note-se). Já tendo criticado os clichês, comprovo ao contar que eles vão mudando-se mutuamente: Eliza faz de Henry menos “chato” e ele faz dela menos “fútil” e fica óbvia a semente do romance que vai se desenrolar entre eles ao longo da série.

O que me ganhou é que os episódios estão cheios de frases reflexivas sobre o uso exagerado da internet, sobre a superexposição nas redes sociais, sobre a incoerência de certos “códigos de conduta” dos usuários. Parece-me uma tentativa de dizer um “vamos devagar” para essa virtualização das relações.

Há um tempo já eu penso (e nisso a faculdade tem muito mérito) sobre essas novas formas de “existir” socialmente: eventos, notícias, recados pessoais, fofocas... tudo(!) está em alguma, ou todas,  as redes sociais. E uma moda contemporânea em especial me desperta a curiosidade e, por vezes, um incômodo: as selfies.

Os autoretratos não são uma invenção recente, só seu nome estilizado e seu valor de status estético-social nas redes. Só a moda de fotografar-tudo-o-tempo-todo, grandemente instigada pela facilidade cada vez maior para se fotografa/filmar com quase qualquer aparelho já seria um fenômeno e me é mais compreensível: as pessoas fotografam para guardar e mostrar o que viram/viveram. Daí a desejarem estar na foto em vez de atrás da câmera, também me parece um comportamento coerente. O que me intriga é que, já não satisfeitas em estarem ali, fazendo o que for, quererem guardar uma imagem como memória e quererem estar na imagem, as pessoas querem ser ainda fotógrafas de si mesmas.

Lembro-me de ter descoberto que havia um nome “americanizado” para o ato de fotografar a si mesmo, faz pouco tempo. Achei uma grande bobeira, pois, como já disse, autorretratos não são novidades. Achei ainda mais bobo quando (e acontece muito) junto a um grupo de amigos, havendo a possibilidade de pedir para alguém tirar uma foto nossa, alguns insistiam em fazer suas selfies. Ou seja, não era a necessidade, mas a escolha que fazia aquelas pessoas me pedirem para congelar o sorriso por muito tempo e por várias vezes até que elas conseguissem enquadrar uma foto sem estar vendo-a. (deixo aqui o meu “muito obrigado” aos inventores de câmeras frontais”)

Bom, é lógico que eu não vim aqui dizer que selfies são “mais um dos males da contemporaneidade blá blá blá..”. Eu só queria dizer, como alguém que não faz selfies, a você que faz, que elas podem fazer de você um chato! Ou pior: alguém fútil. Quero dizer, pra não ser tão “agressivo”, que o exagero pode estar fazendo você perder momentos importantes da sua vida, como um passeio em família ou uma festa com os amigos, porque você pode estar mais preocupado com o número de “conhecidos” “curtindo” a sua foto na internet. Há poucas coisas tão chatas em um momento de lazer quanto a companhia de alguém que só quer fotografar tudo, que parece extremamente narcisista querendo dividir a atenção dos seus “seguidores” entre seu próprio rosto e uma paisagem ou qualquer outra coisa legal que encontre. E pior, alguém que exige que você compartilhe, no sentido humano não-rede-socialesco da palavra, aquela pratica incômoda.

Eu entendo o desejo de guardar memórias ou de dividir com as pessoas que se gosta e não estiveram presentes naqueles momentos. Entendo até mesmo as vontades menos dignas, como esfregar a felicidade na cara de um(a) ex... Não concordo, mas compreendo. Eu só acho que a falta de equilíbrio, o “extremismo”, nessa situação como em quase todas da vida, pode fazer perder-se um ganho.

Eu me preocupo com essas fotos porque elas pretendem solucionar um problema causando outro: imagino que deva ser angustiante viver uma experiência legal e não ter uma foto que me permita lembrar mais tarde, ou dividir com as pessoas que eu gosto. Fotos de grandes momentos evocam a experiência vivida. Mas se eu não viver a experiência ao máximo, a foto perde o seu sentido: não haverá em mim nada daquela alegria nostálgica para ser despertada, eu não vivi aquele momento que fotografei. Eu só fotografei.


Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo - Oficina de Valores

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